Entrevista

Uma África estável é o único caminho

Adalberto Ceita |

Antigo representante do arquipélago de Zanzibar junto da Internacional Socialista no Cairo, Ali Sultan Issa está entre as vozes autorizadas quando o assunto é a luta que culminou com a independência e auto-determinação das colónias africanas.

 

Ali Sultan Issa é uma voz autorizada quando o assunto é a luta das colónias africanas
Fotografia: Rogério Tuti

Aos 82 anos e pela primeira vez de visita a Luanda, não disfarça a emoção quando recorda figuras como Ernesto “Che” Guevara, Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Kwame Nkrumah, Marcelino dos Santos, Nelson Mandela, Oliver Thambo, Sam Nujoma e outros companheiros de luta.

Jornal de Angola - Em que circunstâncias aderiu à luta pela libertação da Tanzânia?

Ali Sultan Issa
- Nasci a 4 de Março de 1932, na ilha de Pemba, em Zanzibar. Na infância já me interessava pela realidade social em que estava inserido. Foi aos 21 anos que decidi entrar na vida política e na luta de libertação nacional que culminou com a libertação do jugo colonial.

JA - Quando inicia a sua ligação com o movimento pan-africano?

ASI - Nos anos 60, quando estudava ciência política em Inglaterra. Aderi ao Partido Comunista. Daí até chegar ao movimento pan-africano foi um passo inevitável. Devido às actividades que desenvolvia, recebia com frequência convites vindos de países comunistas, em particular, da União Soviética. Concluídos os estudos regressei a Zanzibar.


JA - A sua ligação ao comunismo foi bem aceite?

ASI - As simpatias comunistas do Partido Nacional de Zanzibar, onde militava, preocupavam o Ocidente e uma vez que Zanzibar se situava dentro da esfera da influência britânica, o governo de Londres vezes sem conta tentou eliminar uma possível revolução. Durante o domínio britânico a temida revolução comunista nunca se materializou. A revolução veio depois e foi responsável pela deposição do sultão de Zanzibar e do seu governo de maioria árabe, dando lugar à República Unida da Tanzânia, em Janeiro de 1964, fruto da junção do Tanganica e Zanzibar.

JA - Que recordações guarda do tempo que esteve na Internacional Socialista?


ASI - A Internacional Socialista congregava partidos de vários países que se identificam com os ideais de liberdade e autonomia dos povos. Durante a minha passagem por esta organização tive o privilégio de conhecer vários países e privar com homens que posteriormente se tornaram grandes estadistas.

JA - Quem foram esses estadistas?

ASI - Dessa época, destaco com saudades os intermináveis diálogos mantidos com figuras como Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Kwame Nkrumah, Marcelino dos Santos, Nelson Mandela, Oliver Thambo, Sam Nujoma, e tantos outros companheiros. Tive encontros muito interessantes com Mao Tsé Tung e Ho Chi Minh.

JA - Qual era a sua relação com Agostinho Neto?

ASI - Conhecemo-nos pessoalmente em Dar es Salaam e tínhamos uma relação de amizade e camaradagem. Na época, a Tanzânia já estava independente e como tal prestava o seu apoio aos movimentos de libertação dos países africanos. Com Agostinho Neto, a conversa tinha um cariz mais de encorajamento em prol da revolução e da necessidade dos países africanos conquistarem a independência, o que veio a acontecer.

JA - Em que outras organizações políticas militou?

ASI - Fiz parte do Partido Afro-Shirazi, da União Nacional Africana de Tanganica e da Associação Africana dos Políticos. Hoje, ainda que esteja fora da política activa, sou membro do Partido Chama Chama Mapinduzi, partido que governa a Tanzânia.  

JA - Como é que recebeu a notícia da independência de Angola?

ASI - Estava na cadeia sob a acusação de envolvimento no assassinato de Abeid Aman Karume, primeiro presidente da ilha de Zanzibar. Estava detido com outros companheiros de luta e apesar de ter sido sentenciado à morte acabei absolvido. Mas estive sete anos preso preventivamente! A notícia da independência de Angola foi uma alegria que me ajudou a suportar a prisão.

JA - Como aconteceram os seus contactos com “Che” Guevara?

ASI - Conheci-o nos anos 60, em Havana, e a impressão que tive naquele momento foi estar ao lado de um homem simples mas de ideias firmes. Ainda hoje me emociono quando falo do comandante “Che” Guevara, que para mim continua a ser uma das figuras mais marcantes da História Mundial. Recordo que em conversas animadas, já na Tanzânia, ele dizia com insistência que em África, na América, na Ásia ou onde quer que seja, temos de lutar de forma unida para acabar com o imperialismo. A sua personalidade era marcante tal como a sua ideologia revolucionária.

JA - Quando olha hoje para África sente que valeram a pena os sacrifícios?

ASI - África necessita de alcançar a sua estabilidade social e os progressos feitos são visíveis. As diferenças com o passado são enormes.

JA - Como vê Angola?

ASI - Quando cheguei a Luanda, fiquei animado com o desenvolvimento que vi. Isto abre horizontes para o futuro. Apenas tenho um reparo a fazer. Desde a juventude que sou comunista e já é impossível mudar. Portanto, vou defender que um país não avança quando existem diferenças abismais entre ricos e pobres. É fundamental que haja equilíbrio para evitar conflitos sociais.

JA - O que faz actualmente?

ASI - Dedico-me a escrever as minhas memórias e também continuo a ter uma participação na vida política, embora diminuta. Sou uma espécie de conselheiro que é chamado a pronunciar-se sempre que em causa estão assuntos delicados da vida sociopolítica da Tanzânia.

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