Entrevista

Única alternativa é o trabalho árduo

Kumuênho da Rosa|

Em entrevista exclusiva ao Jornal de Angola, o novo Presidente da República da Guiné-Bissau, José Mário Vaz, considerou Angola um país fundamental na tarefa que tem sobre os ombros de conduzir o seu país a porto seguro e devolver a esperança ao povo guineense, maltratado ao longo de décadas por sucessivas crises políticas.

José Mário Vaz disse estar impressionado com o que viu em Angola e dá vontade de dizer bem alto que \
Fotografia: Rogério Tuti

Pela primeira vez em Angola como Chefe de Estado, não escondeu a boa impressão com que ficou e garante que a Guiné-Bissau vai estar na primeira fila para apoiar a candidatura de Angola a membro não permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. No plano interno, o “Vinte e Cinco”, como ficou conhecido quando foi ministro das Finanças, prometeu ser um reforço do Governo para a mobilização de recursos, tecnologias e parceiros no combate à pobreza.

Jornal de Angola - No discurso de tomada de posse pediu aos guineenses que estão no estrangeiro para regressarem ao país. Até que ponto espera ter êxito no apelo que fez?

José Mário Vaz -
Fiz esse apelo porque eu próprio sou fruto da imigração. O meu pai esteve 30 anos em França e sei o que passam as pessoas que estão fora da terra que os viu nascer. Conheço muito bem essa situação e o caso da Guiné-Bissau é muito especial. Após a guerra de 1998, dois barcos tiraram guineenses de Bissau e levaram as melhores cabeças. A partir dessa altura, o país ficou mais pobre, porque formar um homem não é fácil, leva tempo e exige muito sacrifício da própria pessoa e também do país. Na difícil situação em que nos encontramos, precisamos de mão-de-obra qualificada e de gente melhor dotada. Por isso, fizemos o apelo para pedir aos guineenses que regressem. Que venham dar a sua contribuição para juntos tirarmos o país da difícil situação em que se encontra.

JA - Acredita que vai ser fácil?

JMV -
Sei que não, sobretudo para as pessoas que estão bem no país de acolhimento, pessoas que têm emprego, a sua família constituída e os filhos ainda a estudar. Mas espero que a Guiné fale mais alto, porque o avanço de qualquer país faz-se em função dos seus recursos humanos e nós temos a certeza absoluta que os guineenses na diáspora são, muitos deles, homens altamente qualificados e de que o país precisa neste momento. Vão ouvir a voz da Pátria e regressar.

JA - Tem algum plano para os atrair?

JMV -
Temos de desenvolver um projecto à volta do qual contamos estabelecer parcerias que nos vão ajudar a levar esses nossos compatriotas de volta para a Guiné-Bissau. Há muitos guineenses em dificuldades, sem documentos, chegaram sem vistos, sem autorização de residência, e estão a sofrer. A esses vai ser mais fácil convencer a regressar, porque se tiverem de sofrer no estrangeiro, que venham e soframos juntos na nossa terra. Há os que estão aqui e estão muito bem. Vai ser difícil convencê-los a regressar.

JA - Foi essa a impressão com que ficou no encontro que manteve com a comunidade guineense em Angola?

JMV -
Senti que a comunidade gosta de estar em Angola. Alguns até dizem que Angola é a segunda pátria deles. Mas a comunidade também está a braços com o mesmo problema: a falta de documentação. Nós, sobretudo o Governo, depois de tomar posse, vamos fazer tudo para ajudar a normalizar a situação. Eles gostam de cá estar e nós estamos satisfeitos com a forma como manifestaram esse sentimento, mas estão preocupados por estarem sem documentação. Essa matéria já entra no campo das nossas relações bilaterais. Depois da tomada de posse, o nosso ministro dos Negócios Estrangeiros vai trabalhar com o ministro das Relações Exteriores de Angola para solucionar esse problema. Quem não conseguir, o país vai estar sempre de braços abertos para o receber.

JA - O problema guineense é a pobreza extrema e não a cíclica instabilidade política?

JMV -
Nós temos um semi-presidencialismo, em que o Primeiro-Ministro é, no fundo, o responsável pela gestão corrente do país, enquanto o Presidente da República tem de zelar pelo respeito escrupuloso da Constituição da República. Mas temos consciência que o Governo sozinho não pode resolver o problema da Guiné-Bissau. Todas as instâncias do poder, todas as instituições da República têm de se unir para pôr o país a funcionar. Durante a campanha eleitoral percorremos o país de lés-a-lés e vimos as dificuldades com que as pessoas se deparam. Constatei situações que, sinceramente, nunca imaginei. Dizer que fiquei chocado, talvez fosse usar um termo demasiado forte, mas o que senti ao ver aquele cenário nas nossas comunidades do interior não deve andar muito longe desse termo.

JA - Ficou sensibilizado?

JMV -
Altamente sensibilizado. Daí a minha determinação: temos de resolver o problema da pobreza. Há que atacá-la! E falo assim porque fui ministro das Finanças e também presidente da Câmara Municipal de Bissau, portanto, estive sempre onde há problemas. Garanto que o Presidente da República vai ajudar o Governo a resolver esse problema. Provavelmente esta semana vamos ter um Governo e provavelmente, também esta semana, vou começar a Presidência Aberta. Prometi que começava pelo sul, onde procurarei ajudar a população a resolver o problema do arroz. Deixei 16 projectos antes da minha saída do Ministério das Finanças, todos destinados a cooperativas para trabalharem exclusivamente a nível do arroz. Vou ter uma reunião esta semana para saber em que estado se encontra o projecto, que estava a ser financiado pelo Banco de Desenvolvimento da África Ocidental. Quando fui o presidente do Conselho de Ministros da União, falei com o presidente desse banco para nos ajudar a resolver o problema do arroz.

JA - Pretende retomar os projectos?

JMV -
Vou saber exactamente a situação desses projectos, na certeza que com o pouco ou nada que tenho, vou contribuir no sul, outorgando um prémio ao melhor lavrador de cada zona. O que pretendo transmitir é que não temos outra alternativa senão o trabalho. O guineense deve meter na cabeça que a única forma de combater a pobreza é arregaçarmos as mangas e deitar mãos à obra. Temos de trabalhar para pôr a nossa economia a funcionar. Com o pouco da minha experiência vou dar a minha contribuição para reforçar a capacidade do Governo de mobilização de recursos e de tecnologias e parceiros, para fazer face a esse problema, porque a pobreza é um dos grandes males de África e tem de ser atacada.

JA - Quais as suas expectativas em relação ao agora criado Fórum dos PALOP? Como pode servir os seus propósitos à frente da Guiné-Bissau?

JMV -
O Fórum, no qual tive a honra e o prazer de participar em Luanda, é extremamente importante para nós. É muito mais do que um espaço de concertação entre os Presidentes. É o diálogo entre países, aproveitando as potencialidades de cada um, porque juntos e unidos podemos fazer dos nossos países sociedades de futuro. É verdade que a Guiné-Bissau ainda está muito longe em relação aos outros. Por onde passámos durante a campanha vimos que o nosso país parece ter parado no tempo. Mas estamos aqui para recuperar o tempo perdido. O Fórum serve precisamente para isso: troca de impressões, partilha de ideias que possam ajudar essencialmente os países africanos de expressão portuguesa. Vamos aproveitar sobretudo a experiência daqueles que estão mais avançados, como Angola, que, quer queiramos quer não, já deu um passo extremamente importante e deve servir de exemplo. Seja em que sector for, antes de atacar, temos de vir ouvir a experiência de Angola. Enquanto Presidente da República da Guiné-Bissau vou dar o meu melhor e se tudo depender realmente de mim e da Guiné-Bissau, garanto que o FORPALOP vai estar sempre lá em cima. Esse é o espírito que anima a todos os chefes de Estado e de Governo que assinaram o documento constitutivo do Fórum dos PALOP.

JA - Que lugar ocupa Angola na política externa da Guiné-Bissau?

JMV -
Em termos estratégicos, Guiné-Bissau e Angola precisam apenas de dinamizar um programa de cooperação que, na verdade, já existe. Acabo de chegar à Presidência da República, preciso de mais algum tempo para conhecer todos os dossiers. Depois disso, não tenho dúvida alguma de que Angola é um país fundamental para o apoio que a Guiné-Bissau precisa. Esperamos poder contar com Angola, sobretudo neste momento tão difícil para a Guiné-Bissau. Depois de conhecermos os dossiers com certeza vamos ter uma posição mais clara relativamente à cooperação entre a Guiné-Bissau e Angola.

JA - Com que impressão ficou de Angola durante esta visita?

JMV -
Estou profundamente satisfeito e feliz por estar em Angola. Confesso que vi coisas que não esperava ver. Coisas muito bonitas, muito simpáticas. Quando um país africano, que tem a trajectória que Angola teve, começa a erguer-se com toda esta força, dá vontade de dizer bem alto: sou africano e com muito orgulho por ser da lusofonia e por ter estado em Angola.

JA - Qual a posição do seu país em relação à candidatura de Angola a membro não permanente do Conselho de Segurança?

JMV -
Nem era preciso perguntar. A Guiné-Bissau vai estar na primeira fila a apoiar Angola nesta eleição. Esta eleição representa um orgulho para o continente africano.

Perfil


José Mário Vaz é conhecido na sua aldeia natal, Calequisse,  pelo nome de Zeca Upa Caio, que significa “rapaz de Caio”, no dialecto manjaco. Nasceu de uma família humilde na morança de Pdsea, que no dialecto manjaco significa “o que fica abaixo”. Em Calequisse, pessoas que o conheceram na infância disseram que  jamais imaginaram que um dia o menino “Zeca Upa Caio” ia chegar ao mais alto cargo do Estado guineense.
O filho de Mário Vaz e de Amélia Gomes era tímido e mantinha-se sempre afastado dos colegas nas brincadeiras na sua tabanca. Quem o diz é a colega de infância Maria da Costa, 59 anos. Não foi  daqueles  filhos que se recusam a levantar de manhã cedo para  ir trabalhar com o pai.
O discurso de investidura que proferiu teve um momento intimista, no qual dedicou o êxito da sua luta à mulher, Rosa, “amiga e companheira de sempre” e “detentora” da sua felicidade, e aos filhos Herson, Acury e Ariana, a sua “motivação e razão maior da esperança que o faz acreditar que os desafios valem a pena”.
Como ministro das Finanças deixou marca. É recordado como extremamente exigente no trabalho. Chegou a pedir aos funcionários das Alfândegas que arrecadassem não apenas 100 por cento das receitas previstas, mas sim muito mais que isso, 150 ou 180 por cento. Também ganhou notoriedade por ter pago pontualmente os salários da função pública, enquanto no plano externo concluiu o processo de perdão da dívida pública guineense, contraída perante credores internacionais. O pagamento a tempo aos servidores do Estado valeu-lhe a alcunha de “Homem de 25”, porque todos os dias 25 os salários eram pagos, impreterivelmente.

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