Entrevista

Uso da energia nuclear no combate ao cancro

Kumuênho da Rosa |

O director da Autoridade de Energia Atómica, Pedro Lemos, assegura que já é possível em Angola o tratamento do cancro com o uso da energia nuclear, graças à cooperação da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA).  

Pedro Lemos explica que existe em Angola grande utilização de material radioactivo
Fotografia: M. Machangongo

Em entrevista ao Jornal de Angola, Pedro Lemos disse que os sectores dos petróleos, diamantes e da construção civil são os que mais recorrem a material radioactivo para as suas actividades. Numa altura em que arrancou o tratamento do cancro no país com recurso a fontes radioactivas, o director da Autoridade Reguladora da Energia Atómica (AREA) diz que esta conquista é resultado de uma relação de “grande cooperação” com a Agência Internacional de Energia Atómica.

Jornal de Angola - Desde quando Angola é membro da Agência Internacional de Energia Atómica?

Pedro Lemos - Angola aderiu à AIEA em 1999 e fomos admitidos como membros de pleno direito no mesmo ano. Desde então passámos a ter tarefas a cumprir. A primeira grande tarefa foi criar a lei de energia nuclear. Tivemos ainda a responsabilidade criar as infra-estruturas de suporte desta lei, criar a Autoridade Reguladora da Energia Nuclear (AREA) e nomear a respectiva direcção. A lei foi aprovada em 5 de Setembro de 2007, assim como o estatuto foi aprovado em 16 de Novembro do mesmo ano, e nós fomos nomeados em finais de Outubro de 2008. Todo este processo foi desencadeado por um núcleo multi-sectorial de ciência e tecnologia nuclear criado pelo Governo para tratar dos assuntos relacionados com a energia atómica. O núcleo teve como coordenador, a engenheira Cândida Narciso, actual ministra do Ensino Superior, Ciência e Tecnologia.

JA- Qual é o principal objectivo da AREA?


PL
- A Autoridade Reguladora de Energia Atómica tem como missão controlar todas as actividades referentes ao uso e aplicação de energia nuclear em Angola, bem como tratar deste tema com as instituições internacionais. Com base nisto e por orientações da AIEA, que superintende a nível mundial esta actividade, depois da criação da autoridade reguladora, teríamos que dar sequência a uma série de tarefas, dentre as quais a elaboração de um regulamento para apoio da Lei de Energia Atómica. Desencadeámos o processo, com auxílio da AIEA, e em finais do ano passado foi então aprovado o regulamento que serve de suporte à Lei de Energia Atómica.

JA- O regulamento sobre protecção radiológica foi uma determinação da AIEA?

PL
- Foi uma das condições colocadas pela AIEA para que alguns sectores da vida nacional pudessem operar com aparelhos emissores de radiações ionizantes. Foi por isso que estivemos, recentemente, na sede da Autoridade Reguladora da Energia Nuclear, onde colocámos o problema da operacionalidade, ou seja, do início da actividade do Hospital de Oncologia. Discutimos alguns aspectos a ter em conta para a abertura deste hospital e chegámos à conclusão que, com a criação do Regulamento sobre Radioprotecção, estávamos em condições de começar com as actividades do Centro Nacional de Oncologia. O regulamento não é só para o Centro de Oncologia, mas para todas as entidades que utilizam energia nuclear ou atómica.

JA- Quais as áreas mais comuns em que se usa energia nuclear em Angola?


PL
- A prospecção do petróleo e dos diamantes é feita com recurso a materiais radioactivos. Todas as empresas que exploram petróleo em Angola utilizam estes materiais. Algumas empresas que trabalham no domínio da exploração de diamantes também utilizam a tecnologia nuclear. Para além disso, a tecnologia nuclear é utilizada em praticamente toda a indústria. Por exemplo, na construção de uma grande ponte é preciso um material que se chama radioisótropo, utilizado para radiografar a estrutura de qualquer edifício. O mesmo acontece na construção de barragens. Hoje, a indústria utiliza em grande medida esse tipo de tecnologia.

JA- Para quando o uso de energia nuclear para tratamento?


PL
- O Centro Nacional de Oncologia já dispõe de aparelhos para o tratamento do cancro. Está equipado com um acelerador nuclear, um simulador, tem a área da braquiterapia, e principalmente da radioterapia. Há uma clínica privada que também tem aparelhos lineares, uma câmara gama e uma braquiterapia. Essa clínica já tem as licenças e esses serviços já estão disponíveis para atendimento ao público desde o dia 2 de Julho. Na semana passada tivemos aqui um grupo de peritos da AIEA a trabalhar connosco nesse processo e também no projecto de expansão destes serviços para outras províncias.

JA- Quer dizer que teremos tratamento de radioterapia no país?


PL
- O material radioactivo serve para tratamento de cancros não só na radioterapia como na braquiterapia. A radioterapia é um sistema de tratamento em que se utilizam feixes de radiação fornecidos por fontes radioactivas ou aceleradores lineares. A braquiterapia é uma das especialidades da oncologia que serve para o tratamento do cancro em cavidades, como ovários, útero, etc. Ainda temos a medicina nuclear, que serve não só para o tratamento de alguns tumores malignos, mas também para diagnóstico. Isto na oncologia. Mas na saúde não se utiliza somente a braquiterapia, radioterapia ou medicina nuclear.

JA- De onde vem o material radioctivo que é utilizado na indústria?


PL
- É importado. Para que uma empresa possa importar este tipo de material é preciso que faça o licenciamento e o pedido de importação. O licenciamento exige uma série de requisitos e só depois disso é que a empresa pode solicitar a licença para importar e exportar. O facto de este material ser bastante importante para as actividades levadas a cabo no dia-a-dia também encerra algum perigo no seu manuseio. Por isso, o regulamento da lei 12/12 traz uma série de requisitos para que os trabalhadores que utilizam este material possam fazê-lo em segurança, bem como para que as empresas criem condições para que não haja problemas de rádioprotecção.

JA- Qual é o destino do material depois de utilizado?


PL
- Uma das condições que exigimos, quando passamos uma licença de importação, é que uma vez finalizado o objectivo para o qual o mesmo foi importado deverá voltar à procedência.

JA- Quantas empresas estão licenciadas?

PL
- São 16 empresas e outras têm a decorrer processos de legalização. Nós continuamos a receber processos. E só passamos licenças de importação e exportação a empresas que estejam devidamente legalizadas.

JA- Como é feita a importação?


PL
- Por se tratar de um material pouco comum, está sujeito a um processo rígido. O importador tem a obrigação de notificar-nos sobre quando é que o material chega e aonde vai ser armazenado. Geralmente, as petrolíferas que executam este tipo de actividades utilizam as bases da Sonils. Se uma dessas empresas quiser levar uma fonte para uma das bases ou campo petrolífero terá de dizer-nos exactamente o dia e a hora em que pretende fazer o movimento, bem como o propósito desse movimento. Nós acompanhamos todo o processo.

JA-Têm técnicos em número suficiente?


PL
- Esta é, realmente, uma actividade que precisa de muitos técnicos especializados. Actualmente, a demanda já supera as nossas condições de trabalho, especialmente no que toca a técnicos. Nós estamos limitados a oito técnicos e para cobrir todo o país precisamos no mínimo de 30 técnicos especializados em física nuclear.

JA- É fácil contratar estes técnicos no país?

PL
- De uns anos a esta parte, a Faculdade de Ciência forma num dos ramos da Física os chamados físicos nucleares, e é destes quadros que precisamos. Mas a concorrência é grande e se não tomarmos as medidas necessárias, o mais rapidamente possível, corremos o risco de ver os melhores quadros nesta área irem para as empresas petrolíferas, já que, com a entrada em vigor do regulamento sobre radioprotecção, as empresas querem preencher o seu quadro de pessoal com os melhores técnicos, até porque as infracções acarretam multas bastante altas e ninguém quer estar sujeito a elas.

JA- Como explica que haja somente 16 empresas licenciadas, quando temos muito mais companhias a operar, por exemplo, no ramo do petróleo e diamantes?


PL
- Muitas ainda estão em processo de licenciamento. E não é um processo fácil. Antes da existência do regulamento cada um fazia o que queria. Hoje não. Antes de passarmos a licença nós deslocamo-nos ao terreno para fazer o levantamento das condições reais. Tivemos casos de processos que chegaram até nós muito bonitos no papel, mas quando chegámos ao terreno constatámos que é completamente diferente. Nisto posso garantir que temos sido bem sucedidos, porque temos tido já por parte de algumas empresas esta sensibilidade, no sentido de observarem com rigor as exigências que nós impomos.

JA-Que avaliação faz sobre a observância das medidas de protecção na utilização de materiais radioactivos nos hospitais?


PL
- Em alguns casos, o cuidado com a protecção é, de facto, uma realidade. Mas, infelizmente, o quadro não é o melhor nos hospitais públicos. Temos previsto visitas a todos os hospitais provinciais, a começar por Luanda, com o objectivo de dizer que há uma entidade reguladora, falar dos objectivos que levaram a criar este órgão, para podermos trabalhar em conjunto, numa outra etapa deste processo, que é o da dosiometria ocupacional, principalmente com o pessoal da área de imagiologia. O nosso objectivo é garantir que os trabalhadores dos hospitais públicos e das clínicas estejam devidamente protegidos.

JA-Existe algum risco de os utilizadores de telemóvel estarem expostos a radiação?


PL
- O telemóvel é um aparelho que emite radiações electromagnéticas. Este tipo de radiações não é tão perigoso como as radiações X ou Gama, que são as energias ionizantes. A energia produzida por uma onda electromagnética não tem potência suficiente para ionizar as células, mas não se aconselha o uso de telemóveis de última gama a uma criança, por estar numa fase de crescimento. Não é capaz de alterar o metabolismo de um adulto, mas pode alterar o de uma criança. Assim como é proibido que um jovem com menos de 16 anos trabalhe com materiais radioactivos.

JA- Quem é a entidade responsável e quando é feita a leitura dos dosímetros?


PL
- Para o pessoal que trabalha em empresas prestadoras de serviços, os aspectos ligados à dosiometria são tratados no exterior do país. As empresas enviam os dosímetros e depois fazem-nos chegar trimestralmente os resultados. Isto está regulamentado e é de cumprimento obrigatório.

JA- Este processo é feito no exterior por falta de condições internas?

PL
- Aqui, por enquanto, fazemos dosiometria para os hospitais.

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