Entrevista

Valorizar a música com Estêvão Costa

Jomo Fortunato|

O Centro Recreativo e Cultural Kilamba está na vanguarda da valorização e preservação da Música Popular Angolana, sobretudo no segmento que se desenvolveu na época colonial que, embora acuse características de intemporalidade, está fora do grande sucesso comercial.

Estêvão Costa afirma que as actividades culturais do Kilamba sobretudo o Muzongué da Tradição pretende preservar da nossa música
Fotografia: Paulino Damião

O Centro Recreativo e Cultural Kilamba está na vanguarda da valorização e preservação da Música Popular Angolana, sobretudo no segmento que se desenvolveu na época colonial que, embora acuse características de intemporalidade, está fora do grande sucesso comercial. Estevão Costa, o Director do Centro, falou ao Jornal de Angola sobre as variedades da agenda cultural.

Jornal de Angola – Há uma relação de continuidade entre o Caldo do Poeira da Rádio Nacional de Angola e o advento do Muzongé da Tradição, iniciado em Fevereiro de 2007?

Estevão Costa –
Se relacionarmos os dois projectos na perspectiva de valorizar e promover a Música Popular Angolana podemos falar de facto em continuidade. No entanto, importa referir que a concepção do Muzongué da Tradição é muito mais variada e acaba não só por homenagear as principais figuras da música, como era um dos principais propósitos do Caldo do Poeira, mas estabelece um modelo próprio de actividade, que vai da gastronomia ao elenco musical, que inclui a dança, segmento inovador. No fundo, pretende criar-se uma actividade em que estejam consubstanciados os propósitos valorativos da identidade cultural angolana.

JA – Quais são os critérios de recrutamento dos cantores e das bandas musicais para as sessões do Muzongé da Tradição? Privilegiam apenas o revivalismo musical?

EC –
Os critérios são vários, mas não descuramos a originalidade e os ritmos característicos da Música Popular Angolana. É verdade que as linhas de força da nossa programação musical é revivalista, mas acabamos por dar emprego a uma classe artística extremamente importante da história da música angolana, ao criar oportunidade a grandes intérpretes e bandas musicais angolanas, muitas deles muitas marginalizados com frequência por organizadores dos grandes eventos de natureza comercial. Pelo palco do Kilamba já passaram cantores e bandas representativas da história da música angolana, um exercício de homenagem e defesa patrimonial.

JA – Fora do Muzongé da Tradição, que outras actividades constam na agenda mensal do Centro?

EC -
Há o espectáculo de sexta-feira, o teatro que por razões técnicas não tem sido regular e dentro em breve retomamos o projecto “Isto é Angola”, que é um ciclo de palestras sobre temas que abordam os mais variados domínios. Julgamos ser um projecto interessante de debate sobre questões culturais, que tem como oradores figuras de reconhecido mérito em diferentes.
/>JA – Há uma excessiva incidência na música em detrimento do cinema, da dança e do teatro na programação do Kilamba?

EC –
A música e a dança retratam a história do próprio espaço que pretendemos perpetuar. O teatro sempre foi exibido desde o surgimento do Centro Cultural Recreativo Kilamba, mas muito recentemente tem sido prejudicado por alguma poluição proveniente de uma área adjacente, o que inviabiliza a representação, mas apoiamos um núcle de leitura deixado por um colaborador nosso já falecido, o escritor Jorge Macedo.

JA - O Kilamba está satisfeita com o marketing e a publicidade da programação cultural?

EC -
Modéstia à parte, estamos satisfeitos. Investimos na divulgação das principais actividades do centro e estamos no bom caminho, apesar das adversidades do mercado publicitário ao nível de preços.

JA – O que mudou na gestão e na concepção de novos projectos do Centro depois da outorga do diploma de honra pelo Ministério da Cultura em 2008?

EC –
Nada mudou porque somos um Centro, que desde o surgimento, mantém os mesmos propósitos sem nunca se desviar da promoção e valorização da identidade cultural angolana.

JA – O Centro Recreativo e Cultural Kilamba preocupa-se com registo documental da programação ou o interesse recai unicamente no entretenimento?

EC –
Temos o registo dos principais eventos realizados, quer em áudio, como em vídeo, incluindo a fotografia. É nossa intenção nos próximos tempos pôr estas obras à venda.

JA - Depois do CD “Sucessos”, de Elias diá Kimuezo, como se encontram os projectos editorias do Kilamba?

EC -
Este ano apoiamos e patrocinamos são três artistas, cujas obras são postas à venda em breve e em 2011 patrocinamos uma coletânea de cinco volumes de vários solistas angolanos do passado. Neste caso, foi um projeto do Kilamba, em parceria com Rádio Nacional de Angola.

JA – É legítimo considerar o Centro Recreativo e Cultural Kilamba um projecto equilibrado, do ponto de vista da sua rentabilidade?

EC –
Até certo ponto é equilibrado no seu conjunto, pois realizamos eventos dentro das nossas modestas possibilidades e temos de gerir de forma racional os recursos que possuímos. Da promoção estritamente cultural nem sempre se espera um grande retorno financeiro. Por essa razão é que estamos apostados noutras atividades para ajudar a financiar a agenda cultural que se afigura menos rentável.

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