Entrevista

Vencer o Afrobasket é o grande objectivo

António Ferreira e Anaximandro Magalhães |

O seleccionador nacional de basquetebol, Michel Gomez, acredita na revalidação do título africano e na qualificação para os Jogos Olímpicos de Londres. Entrevistado pelo Jornal de Angola, Gomez afirmou que a Federação Angolana de Basquetebol se esmerou para que nada falte. 

Seleccionador nacional acredita na vitória
Fotografia: José Cola

O Afrobasket’ 2011 está à porta e Angola trabalha para a conquista do título continental e o apuramento para os Jogos Olímpicos de Londres’2012. A Federação Angolana de Basquetebol apostou em Michel Gomez. O seleccionador angolano fala pausadamente. Com ele, jogadores, estilo, hábitos, tudo mudou como num estalar de dedos. A entrevista foi realizada antes da dispensa de Olímpio Cipriano, o atleta que o técnico diz “apreciar muito”.

Jornal de Angola - Como se sente em Angola?

Michel Gomez - Sinto-me bem e muito feliz por ter sido convidado para trabalhar num projecto que tem como objectivo final ganhar o Campeonato Africano e qualificar Angola para os Jogos Olímpicos de Londres. É um país maravilhoso, de boa gente, muito sociável e, desportivamente falando, um país de muito respeito.

JA - O projecto é realizável?

MG - O projecto é ambicioso, mas para ter êxito é preciso dotar o grupo de trabalho de boas condições do ponto de vista humano, administrativo, técnico, médico, ter uma boa logística e infra-estruturas que nos permitam desenvolver o programa de trabalho para que possamos atingir a excelência. A Federação Angolana de Basquetebol esmerou-se para que nada falte e tenhamos sucesso no Afrobasket de Madagáscar.

JA - Que impressão tem dos jogadores e da qualidade do basquetebol em Angola?

MG - O basquetebol angolano não esperou por mim para ter resultados positivos. Não fiquei surpreendido porque os resultados de Angola são conhecidos mundialmente. Mas fui surpreendido pela qualidade apresentada na fase final do campeonato nacional. Os jogadores estiveram bem do ponto de vista físico e da velocidade. E este é um aspecto muito importante para que a modalidade seja bem executada. Angola tem bons jogadores e não é por acaso que está entre as 20 melhores selecções do mundo. Tenho a missão de dar sequência aos frutos colhidos na alta competição continental e internacional.

JA - O grupo de trabalho dá garantias de revalidação do título africano?

MG – Tenho um grupo do qual vai fazer emergir uma boa equipa. Temos boas condições e fiz um bom programa com os meus assistentes. A Federação colocou à nossa disposição os meios possíveis para que possamos atingir o objectivo. O presidente da FAB tem feito esforços que visam o aumento da logística para que os jogadores tenham as melhores condições por altura da competição. Os resultados são apenas uma questão de jogo.

JA – Teve tempo suficiente para consolidar o objectivo de conquista do título?

MG - Acho que foi suficiente. Mas o meu papel é também apoiar-me naquilo que os treinadores angolanos fizeram durante a época desportiva. Os primeiros treinadores de uma selecção nacional são os técnicos dos clubes, depois só temos a tarefa de reagrupar todos num só grupo. Há uns anos, em França, era muito difícil para mim porque tinha apenas jogadores que jogavam na NBA. Angola tem uma grande vantagem porque os jogadores actuam todos no mesmo campeonato e conhecem-se bem. Na selecção francesa tinha somente três atletas de clubes locais.

JA - Foi por isso que deixou a selecção francesa?

MG - Isso fez com que eu não continuasse na selecção francesa, porque tínhamos muito pouco tempo para trabalhar e alcançar os objectivos. Há muita coisa importante numa equipa nacional, seja ela qual for. É a filosofia do país, no caso concreto do seu basquetebol. Em França temos uma boa formação, provavelmente a melhor a seguir aos Estados Unidos, mas infelizmente os nossos jovens não podem exprimir o seu talento. Em Angola todos os angolanos jogam, ao passo que pela França jogam mais de cinco atletas que actuam na América.

JA - Qual é a sua maior dificuldade na selecção?

GM - Eu chamei os jogadores das quatro melhores equipas da fase final do campeonato, que começaram a preparação em Setembro do ano passado. A maior dificuldade que tenho é que eles aprendam a conhecer-me e eu a eles. Isso é o mais importante.

JA - Como se define Michel Gomez como treinador?

MG - Acho que, aos poucos, eles estão a descobrir a minha maneira de ser e estar como treinador. A minha reputação em França é que eu sou muito exigente. Para mim todos os elementos que integram a equipa são estrelas e têm de fazer tudo para servi-la. É um orgulho vestir a camisola da selecção, a camisola do país. Sou muito exigente na condução de uma equipa. O maior perigo que temos dentro dum grupo, somos nós mesmos.

JA – Mas qual é o perfil técnico de Michel Gomez?

MG - Eu sou um treinador muito táctico e demasiado exigente na defesa. Quando temos uma boa defesa, podemos aceitar alguns erros ofensivos. Sou muito preciso no desenvolvimento da técnica individual. Penso que uma equipa quando consegue dominar o jogo de passe, o ressalto ofensivo e um bom jogo no “pick and roll”, está preparada para defrontar qualquer adversário.

JA - Quais são as qualidades de um treinador para ser bem sucedido?

MG - Um bom treinador deve ser honesto, o que implica também ser justo consigo próprio na altura de decidir quem fica e quem sai. O treinador precisa de ser competente, conhecer o jogo em profundidade, ser líder e com boa capacidade de comunicação, motivação e controlo do balneário. Precisa de ter a sua própria filosofia, o seu modelo de jogo e conseguir pô-la em prática, rodear-se de pessoas competentes, com carácter e leais.

JA – Que conselho deixa aos técnicos angolanos?

MG – Trabalho é a palavra de ordem. E deve ser acompanhada de refrescamento permanente. É preciso estudar a modalidade em profundidade, interiorizar bons métodos, beber a sabedoria de treinadores de sucesso, ter diálogo permanente com outros colegas de profissão e perceber o porquê do seu sucesso.

JA - O que lhe parecem os adversários no Afrobasket?

MG - Se quisermos ser campeões temos de vencer todos os jogos. Portanto, não há perguntas a fazer nem nada mais a pensar. Em França nós fazemos cálculos, se ganharmos aqui e perdemos ali, apuramo-nos. Aqui não. Em África isso não existe e facilita-nos a tarefa. Conheço muito bem o basquetebol africano, sobretudo por termos em França muitos jogadores do Senegal e da Costa do Marfim.

JA - A FIBA-África alterou os moldes de disputa do Afrobasket. Quais são os prós e contras do novo modelo?

MG - Uma equipa tem de estar preparada para todas as situações e perigos. O campeonato não vai exigir uma grande intensidade, uma vez que entre cada jogo há um dia de repouso, com excepção da meia-final e da final que são feitas em dois dias. O problema é que Angola está na mira de todas as equipas de África. É necessário trabalhar muito os aspectos da táctica de jogo para podermos apresentar em cada jogo uma imagem diferente. Se fosse uma competição sem repouso, como no passado, era um bocado diferente.

JA – Fez a avaliação dos adversários na primeira fase?

MG – A minha política é nunca me preocupar com os adversários. Temos de os ver no retrovisor e perceber a que distância eles estão, para depois nunca mais nos encontrarmos com eles: é avançar, avançar, avançar.

JA - Não vai querer saber nada sobre os adversários?

MG - Quando observamos o adversário, automaticamente estamos a avisá-lo que vamos espiar. Vamos tentar observá-los sem que eles saibam que estamos a fazê-lo. Quando digo que não me preocupo com as outras equipas, não é pelo seu trabalho, mas sim pela forma como possam atacar-nos. A preparação deles, a forma como estão a treinar e outros aspectos não me preocupam. Vamos viver juntos os mesmos problemas e alegrias. A nossa delegação é grande e vai estar junta durante mais de dois meses. Isso é que tem de nos preocupar, a nossa relação. Queremos chegar ao campeonato com um espírito sólido e sereno.

JA - A pressão de ganhar não lhe coloca demasiado peso sobre os ombros?

MG - De forma alguma, com o passado que tenho e como acompanhante e parceiro do basquetebol, não sinto isso. Respondi ao convite do presidente da Federação, Gustavo da Conceição, para trabalhar num projecto que incluiu a selecção principal e a formação, a nível dos jovens e dos treinadores. Um treinador só consegue alguma coisa através dos jogadores e temos o exemplo do Messi, no Barcelona. Se o tirarmos de lá, o treinador é considerado um grande técnico? Tem de haver uma simbiose entre o treinador, assistentes e jogadores. Depois do Afrobasket vamos fazer evoluir o projecto.

JA - Os seus adjuntos foram impostos pela Federação?

MG - Não se impôs ninguém. Respeito muito o basquetebol angolano e os seus técnicos, como respeito a decisão do presidente ao propor-me esses dois treinadores. Portanto, são meus colaboradores. Eles já provaram ao basquetebol angolano o que sabem fazer. Para mim são uma força suplementar.

JA - Que avaliação faz da capacidade de lançamento dos atletas?

MG - Há jogadores que confirmam a sua percentagem de lançamento apenas no campeonato. Nesta fase alguns apresentaram bons indicadores, mas nas suas equipas, fruto de outro tipo de tarefas, os níveis são baixos. Tenho um exemplo claro, que é o do Miguel Kiala, que começou o teste de 30 lançamentos por posição na linha dos três pontos com uma percentagem muito baixa. Converteu três em 30 tentados. Na última posição, em 30 lançamentos marcou 13. Penso que com o trabalho vamos melhorar muita coisa

Por dentro

Nome Completo: Michel Gomez
Data de nascimento:
14 de Setembro de 1961
Estado Civil: Casado
Nacionalidade: Francesa
Cidade: Rouen (Normandia)
Filhos: Três. Netos: quatro
Começou a praticar desporto com dez anos, na ginástica.
Tem 30 anos como treinador. Começou como profissional em 1982.
Equipas que treinou: Saint- Etienne, Limoges, Pau Hortez e Paok de Salónica, Grécia.
Foi cinco vezes campeão francês, conquistou cinco taças de França e um título europeu.
De 1993 a 1995 orientou a selecção francesa, tendo regressado em 2008.

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