Entrevista

Visão de Té Macedo da música erudita

Jomo Fortunato |

Estudou canto e piano na Academia de Música de Luanda e no Conservatório de Lisboa, gravou o clássico “Monangambé”, de Tonito, com a Orquestra Sinfónica Nacional de Cuba, dirigida pelo reputado maestro Dagoberto Gonzalez, fundindo o tradicional angolano com a sonoridade do canto lírico.

Estudou canto e piano na Academia de Música de Luanda e no Conservatório de Lisboa, gravou o clássico “Monangambé”, de Tonito, com a Orquestra Sinfónica Nacional de Cuba, dirigida pelo reputado maestro Dagoberto Gonzalez, fundindo o tradicional angolano com a sonoridade do canto lírico. Nesta entrevista ao Jornal de Angola, a cantora fala, de entre outras questões, da popularização e da crescente evolução da música erudita em Angola.
Jornal de Angola - Nos últimos dez anos de história da Música Popular Angolana, o preconceito em relação à interpretação e absorção do canto lírico foi-se esbatendo. Acha que houve uma reorientação do gosto e surgiu um novo público?
Té Macedo - Houve uma alteração e reorientação do gosto, tal como surgiram novos públicos, em consequência da globalização. Tal facto propiciou mais acesso aos meios de comunicação social, onde incluo a televisão por cabo e satélite, e a massificação da indústria do DVD. Hoje as pessoas têm mais acesso à informação e absorvem com menos resistência os fenómenos artísticos e culturais. Na passagem do século XX, a generalidade da música popular apresentava-se sob a forma de ópera ligeira ou “opereta” nos teatros britânicos e americanos de variedades, achando-se difícil distinguir a música das elites e a do povo. Com a evolução da história da música surgiram três conceitos: música popular, erudita e erudita popularizada. A título de exemplo deste último, veja-se “A pequena serenata nocturna”, de Mozart, e a “Quinta Sinfonia”, de Beethoven, que foram popularizadas, por força da media. O caso mais recente foi a canção “Con te partiro”, interpretada por Andrea Boccelli, que muitos pensam ser uma ária de ópera, mas é uma canção popular italiana, cantada por um cantor erudito.

JA - Do ponto de vista técnico encontra similitudes ou profundas diferenças estruturais entre o canto lírico e os clássicos da música popular angolana que tem interpretado?

TM
-Encontrar similitudes implica fazer a distinção entre a música erudita, a lírica e a popular. A música erudita é estudada segundo a tradição da Idade Média. Normalmente as pessoas reduzem a música erudita à clássica. No entanto, o classicismo é apenas um período da música. Mozart, por exemplo, é barroco e não clássico. Por sua vez, Schubert é romântico. A música lírica é a composição erudita que contém melodia para voz. A música popular é a evolução natural da música folclórica, música marcada pela simplicidade, tradição e letras de consciência social, transmitida ao longo de gerações. Devo dizer que o critério de composição determina muito a distinção destes géneros.

JA - Tem notícias da evolução do canto lírico angolano, nas vozes dos jovens que mais têm cultivado o género actualmente?

TM
- Mantive sempre contacto com Nelson Ebo, mesmo quando ainda estudava em Espanha. Em relação aos que tiveram formação em Cuba, há uma relação de proximidade afectiva, eles tratam-me por tia. Já trabalhei com o Bruno Neto, Marília Alberto, Geny Alberto, Waldemar Tavares e o Mona, pupilos do tio Mário Gama. Note-se que em 1988, quando comecei a pedir ajuda para estudar canto lírico, fui ignorada. Ninguém achava prioritário e garantiam que não havia expressão para este género musical. No entanto, a resposta está aí, vejam o crescimento desta tendência musical.

JA - Sabemos que antes de ter frequentado o Conservatório de Música de Lisboa, onde estudou piano e canto, frequentou a Academia de Música de Luanda, em 1988. Na altura, em que estado se encontrava o nível de ensino em Angola?

TM -
O nível de ensino da música estava muito bom, para um país que estava em guerra. Na altura, contávamos com a cooperação cubana e de músicos competentes do leste europeu. Lembro-me que a Rádio Nacional de Angola passava grandes compositores e grandes orquestras de música clássica, porém nem todos estavam sensibilizados para este género. Aliás, era normal associarmos a música clássica à morte de uma figura importante da política. Chamavam a esta música “comprimido do sono”. Mas a Academia de Música de Luanda já era uma referência. Lembro-me de tocar piano no Karl Marx, em 1986, na recepção ao Presidente da Roménia.

JA - Sabemos que defende a criação de um conservatório que venha a despertar o gosto pela música nacional e o ensino dos instrumentos nacionais. Recebeu formação dirigida à execução da marimba e kissanji?

TM
- Em relação à marimba, recebi formação do meu pai. Gosto muito do tema “ Kawana”, dos Bângalas, que aprendi com ele, embora a primeira música que aprendi fosse uma partitura e outra de ouvido. Importa lembrar que o ensino da marimba tem regras e técnicas próprias. Existem três grandes escolas em Malange: a dos gingas, bondistas e kalandulas e grandes referências na Lunda. O aprendizado da marimba, mesmo nas culturas iniciáticas, é difícil. Tão difícil ou mais do que a aprendizagem da música erudita. O meu pai tinha estabelecido o ensino da marimba, kissanji e percussões na Academia de Música de Luanda, em finais dos anos 80. Os professores ainda estão vivos e podem testemunhar: Kituxi e os marimbeiros João Pinto e Armindo Fonseca, o último já falecido. Cresci musicalmente neste contexto com o meu pai.

JA - Está distante dos estúdios e do palco, ou prepara um novo trabalho discográfico, depois de ter gravado em Cuba?

TM
- Estou sempre próxima, porém não totalmente. Tento associar à música os meus estudos de pós-graduação em Direito. Comecei a gravar em Dezembro de 2012 nos estúdios do Rui Veloso, mas tive de interromper por falta de meios financeiros. Agora, depois de cumprida a promessa feita aos meus pais, posso dedicar-me por inteiro à música. Preparo um novo disco e acredito que é mais maduro.

JA - As exigências vocais de interpretação do canto lírico adaptam-se à totalidade dos segmentos do cancioneiro tradicional angolano, ou seja, tudo é passível de estilização?

TM
- Tudo é passível de estilização, só que o processo deve ser bem conseguido, inteligentemente feito e esteticamente aceitável. A fusão não deve aniquilar a essência. Aproveito a oportunidade para lembrar que há uma técnica que não respeitei no meu primeiro CD, ou seja, a preocupação de interpretar em consonância com a minha tessitura vocal. Cantei em todas as tonalidades de forma aleatória, prejudicando o rendimento da minha prestação técnica. Em relação às fusões, normalmente sou moderada, mas prefiro que os percussionistas sejam sempre os angolanos.

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