Entrevista

Visão feminina do audiovisual

Helma Reis

A luta pela emancipação levou muitas mulheres a mostrarem o seu talento. Ao longo dos anos, a realidade começou a mudar aos poucos e as mulheres foram ganhando espaço no mercado. Entre as profissões algumas são mais “pesadas” do que outras.

Sandra Marisa é repórter de imagem da TPA
Fotografia: José Soares

O jornalismo é uma destas. Antes com poucas “senhoras” hoje tem uma nova forja, disposta aos maiores sacrifícios para se impor e ajudar a reconstruir o país. Sandra Marisa de Sousa e Silva é uma das repórteres de imagem da Televisão Publica de Angola. Exerce a função há seis anos e é mãe de um “menino” de 19 anos e esposa de Ramiro Matos. No âmbito do Março Mulher ela foi uma das escolhidas do Jornal de Angola para contar o seu ponto de vista sobre as mulheres no jornalismo angolano.




Jornal de Angola - O que é a motivou a ser repórter de imagem?

Sandra Silva - Tudo começou em 2011 graças a um amigo de infância, que me falou sobre o recrutamento que a TPA de Benguela estava a fazer na altura. Naquela época era mãe solteira e estava desempregada. Não pensei duas vezes. A princípio não gostava de me expor tanto e depois reparei que haviam poucas mulheres. Então decide ser uma repórter de imagem. Fiz o teste e passei.

Jornal de Angola - Como foram os primeiros anos como mãe trabalhadora?

Sandra Silva - Difícil. Mas consegui vencer. Na altura fiz um estágio de um ano e tinha de trabalhar a noite. O meu trabalho inicialmente era montar as luzes e tripés. Naquela altura o profissional de imagens era Paulo Sérgio. Às vezes, devido ao trabalho, chegava a casa de madrugada e encontrava o meu filho a dormir.

Jornal de Angola - Quando fez o seu primeiro trabalho como profissional?

Sandra Silva - Depois de um ano. Era um domingo. Saí de casa para o trabalho e tinha um jogo de futebol. Como não tinha quem poderia filmar, o meu chefe, Ramiro Matos, pediu para o fazer. Graças a Deus consegui. Foi aí que tudo começou. Logo depois fui admitida nos quadros da empresa e comecei a trabalhar sem supervisão.

Jornal de Angola - Como é que a família encarou este desafio?

Sandra Silva - A minha família sempre apoiou. O meu pai é uma das pessoas que têm me dado muita força para continuar a ser a melhor.

Jornal de Angola - Já sofreu descriminação no trabalho?

Sandra Silva - Sim, até porque quando fazia as filmagens as pessoas diziam que estava com a câmara para brincar. Isso acontecia muito em Benguela. Porém, quando cheguei a Luanda as coisas foram diferentes. As pessoas eram curiosas e queriam entender porquê uma mulher carregava uma câmara de filmar. Acredito que os colegas, em especial os homens, tinham um pouco de ciúme.

Jornal de Angola - Qual foi a sua pior experiência?


Sandra Silva - Uma das piores experiências foi uma viajem de serviço ao Uíge, com o colega Bens Famoso. Durante o voo tinha muita turbulência, devido a uma tempestade e quase caímos. Lembro que a câmara afastou-se e alguns colegas riam devido ao meu medo. Além disso ainda vivemos as vezes o tabu da descriminação quando fizemos reportagens. Há pessoas que nos tratam mal. O jornalista ainda é muito descriminado. Fora do país ele é respeitado, mas aqui as pessoas não reconhecem o nosso trabalho profissional.

Jornal de Angola - O peso dos seus objectos de trabalho não é um empecilho?

Sandra Silva -
O peso não é problema. A pessoa acostuma-se. O maior problema são os cuidados visuais que se requer enquanto operadora de câmara. A maior parte das pessoas que trabalha com este equipamento acaba por usar óculos. Procuro fazer consultas dos olhos regularmente. Confesso que não gosto de usar óculos, mas reconheço a sua importância, em especial na cobertura de actividades que duram dois a três dias.

Jornal de Angola - Que qualidade deve ter um operador de câmara de televisão?

Sandra Silva - Primeiro a pessoa deve ter formação e possuir um olho clínico, com muita perspicácia para saber o que tem pendor jornalístico ou não. Acima de tudo ser um bom profissional.

Jornal de Angola - As mudanças nos equipamentos de filmagem foram benéficas?


Sandra Silva -
As primeiras câmaras pesavam aproximadamente 8 quilos. Mas as actuais pesam menos. Além do mais quando se faz o trabalho com amor e dedicação  quase nem se nota o peso.

Jornal de Angola - Como concilia o trabalho com o papel de mãe e de esposa?

Sandra Silva - Graças a Deus em casa reina o espírito de inter-ajuda. O meu marido e o meu filho me ajudam com as tarefas de casa. O meu marido tem sido de grande apoio neste sentido, porque além de trabalhadora sou estudante do quarto ano de Psicologia Organizacional. Ele vê a minha formação como prioridade.

Jornal de Angola - Com tantas tarefas qual é a sua carga horária de trabalho?

Sandra Silva -
Depende muito do tipo de actividade. Aprendi, ao longo dos anos, que enquanto jornalista só temos o horário de entrada. Por isso, apesar do estabelecido é muito difícil ter um horário fixo.

Jornal de Angola - O que representou para si trabalhar sem supervisão,  quando começou a fazer reportagens?

Sandra Marisa - Foi uma satisfação muito grande. Senti-me orgulhosa. A confiança em mim aumentou, assim como a responsabilidade.

Jornal de Angola - Que sentimento a domina sempre que é escalada para um trabalho?

Sandra Marisa - É sempre um motivo de satisfação, porque é um ganho enquanto mulher, especialmente por ter conseguido  impor-me numa área antes dominada  pelos homens. É um trabalho que faço com amor e zelo. 

Jornal de Angola - Como era a sua relação com os colegas?

Sandra Marisa -
Os homens são respeitosos, há sempre um pouco de admiração ao ver uma mulher a fazer este tipo de trabalho. Mas a grande vantagem em ser mulher nestes casos é de poder fazer as coisas sem a intenção de competir, mas sim de forma diferente.

Jornal de Angola - Qual é a sua mensagem para as outras mulheres que querem seguir esta profissão?

Sandra Marisa -
Não tenham receio. É uma profissão muito linda, quando se faz com gosto, dedicação e amor. Não pensem no peso da máquina, mas sim em serem profissionais e fazerem  sempre o melhor.

Jornal de Angola - Quais os desafios a alcançar enquanto profissional de imagem?

Sandra Marisa - Profissionalizar-me cada vez mais e contribuir para o surgimento e formação de novos quadros na área de imagem para a televisão.

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