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Sistematização dos estudos culturais no ensino universitário

Jomo Fortunato

A universidade angolana, no âmbito das ciências humanas, está em condições de reunir e sistematizar títulos bibliográficos e conteúdos programáticos no domínio da literatura angolana, linguística geral africana, línguas nacionais, arte, antropologia cultural, história de África e filosofia bantu, para a criação e institucionalização de uma Licenciatura em Estudos Angolanos, com saídas profissionais e respectivos mestrados, na administração pública, bibliotecas e arquivos, comunicação social, diplomacia, universo editorial, programação e gestão cultural, relações públicas, turismo, investigação e ensino.

Formar jovens com uma cultura endógena constitui um imperativo na era da globalização
Fotografia: Kindala Manuel | Edições Novembro

Torna-se imperioso estimular os meios académicos a encararem de frente o importante desafio de aperfeiçoar a expressão oral e escrita, em línguas nacionais, o estudo da cultura e costumes das comunidades, expressos na riqueza da oralidade angolana, e a inclusão do estudo e análise dos clássicos da literatura angolana, na perspectiva da criação de um cânone literário, desde o ensino básico.
Formar jovens com uma cultura endógena, que venham a dominar as línguas naturais europeias e a história universal, constitui um imperativo, numa época em que os fenómenos globais da esfera comunicacional, parecem asfixiar as culturas locais e se assiste a uma crescente e por vezes perniciosa, planetarização da cultura ocidental.
A proposta de uma licenciatura em estudos angolanos, estaria em condições curriculares de promover o conhecimento da história da cultura e da antiguidade clássica africana, até à contemporaneidade, fornecendo instrumentos teóricos e ferramentas metodológicas, adequadas ao estudo periodológico dos diversos momentos da literatura angolana e africana.
A formação e actualização, ao longo de um plano articulado de estudos, de saberes relacionados com a generalidade da cultura angolana, poderá propiciar a optimização de resultados a nível da qualidade do jornalismo e da funcionalidade da diplomacia cultural angolana, do reconhecimento de diferentes paradigmas críticos da literatura e da cultura, compreendendo as suas mudanças e transformações diacrónicas, incluindo o domínio de técnicas de recolha e selecção de informação oral.

Literatura
As nobres intenções de um ensino sistematizado da literatura angolana e da sua história, resvalam sempre na ineficácia. Uma das razões, dentre outras não menores, é a inexistência de mecanismos pedagógicos de grau universitário, que estimulem a investigação e o surgimento de um corpo docente, competente, na área da didáctica da cultura e das literaturas.
O itinerário do vocábulo literatura, revela sempre uma aproximação da arte de escrever com o percurso histórico e social dos povos, pelo que a literatura, mesmo que entendida na sua dimensão ficcional e narrativa, acaba sempre por ser uma reportagem, ou crónica geral, da vida das nações e da humanidade em determinadas épocas.
Merece o nosso aplauso o trabalho que vem sendo desenvolvido por alguns interessados e o exercício de uma prática docente que poderá estimular as futuras gerações a enveredar pela investigação da história literária angolana.
A academia angolana, que exerce a docência no domínio das ciências sociais e humanas, deve repassar um olhar selectivo aos textos críticos sobre a literatura angolana, nacional e estrangeira, e actualizar, pela releitura, os clássicos da literatura angolana, respigando a importância da época da chamada imprensa livre.

Clássicos
O adjectivo clássico finaliza, nas suas diferentes acepções semânticas, vários conceitos e entendimentos conceptuais. Um dos quais, o mais recuado na história da palavra, reporta-se a tudo o que, do ponto de vista cultural, se refere à civilização grego-latina. A etimologia, por sua vez, reconduz o termo ao seu sentido primeiro e original, significando o que é “de primeira classe”, uma noção em que facilmente se adivinha e distende a dimensão classista e estratificada do tecido social.
Nos estudos literários é corrente a designação “clássicos da literatura universal”, para designar as obras de valor intemporal, ou seja, aquelas que resistem através dos tempos. Há textos que, sendo clássicos, no sentido de resistência ao tempo e de referência reiterada pelo conjunto da crítica, fazem parte, inquestionavelmente, do cânone literário angolano, embora entendamos que a interpretação da literatura angolana é dinâmica e está sempre condicionada aos processos geracionais de leitura crítica, recepção e prevalência do saber revisitado.
Defendemos um ensino inclusivo da literatura angolana, tendo como base a redefinição, urgente, de um corpus clássico constituído por critérios de validade crítica, que eleva e elege a supremacia literária dos textos angolanos à sua importância, histórica, social, e, fundamentalmente, estética, enquanto registos de época.

Investigação
Por último, julgamos pertinente estimular a investigação universitária para que surjam propostas de periodização da história das artes angolanas, para orientação epistemológica da geração mais jovem de estudiosos. A compilação de conteúdos dispersos sobre os períodos marcantes da historiografia das artes, biografia dos artistas, influências adquiridas e formação, poderá melhorar a qualidade do ensino, sobretudo a de nível médio e superior, e deve ser motivo para elaboração de teses de pós-graduação, estimulando as instituições universitárias a multiplicar e fazer circular as suas publicações, em todas as bibliotecas do País.

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