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África: Aulas à distância deixam para trás alunos sem tecnologia

As aulas em África estão a ser dadas à distância, mas esta tentativa de salvar o ano lectivo está a revelar um enorme "fosso" entre a população, deixando para trás os que não dispõem de tecnologia nem Internet.

Fotografia: DR

"Escola em casa" "Sala do professor", "Escola na TV" são alguns dos programas de ensino à distância que muitos Estados africanos ou canais privados lançaram para tentar compensar o encerramento de escolas e universidades devido à pandemia da Covid-19.

Massamba Guèye, professor e investigador no Senegal, disse à agência AFP que estas iniciativas têm um propósito: "É para evitar que a Covid-19 ganhe onde mais vai doer, no campo do conhecimento. Que as crianças não percam a aprendizagem, mesmo que fiquem em casa".

A estação privada de televisão Futurs Médias (TFM), propriedade do cantor Youssou Ndour, realiza cursos três vezes por dia para todas as classes, incluindo a formação profissional.

"O reinício das aulas (...) já não está na ordem do dia. Temos de salvar a escola porque provavelmente há uma ameaça de um ano em branco", sublinhou a Associação Geral de Alunos e Estudantes da Costa do Marfim.

Outras iniciativas
No Burkina Faso, a estação de televisão privada Burkinainfo emite quatro vezes por dia para os alunos do terceiro e último ano.

"Gravamos as lições e as aulas que depois são transmitidas na televisão", indicou Ismaël Ouédraogo, director da estação, referindo-se "às disciplinas básicas: Matemática, Física, Química, Filosofia e Francês".

"Os cursos são ministrados por professores experientes que apoiam a iniciativa televisiva numa base voluntária", afirma.

Na Costa do Marfim, uma empresa em fase de arranque está a oferecer cursos utilizando mensagens de texto. Grátis no início, mas depois com custos.

Vários institutos e universidades privadas africanas estão a explorar o ensino à distância com a Internet.

"Planeamos terminar o ano escolar no final de Maio", explica Amed Moussa Diallo, presidente do conselho de administração do Instituto Africano de Gestão (IAM), que criou cursos on-line.

Contudo, este método depara-se com uma série de obstáculos, como a fraca cobertura de Internet em algumas partes de África, nomeadamente nas zonas roais, ou o seu custo, porque em muitos países a maioria dos estudantes não se pode dar ao luxo de permanecer em linha durante longos períodos.

"A maioria dos estudantes não tem acesso à Internet, especialmente porque muitos deles foram obrigados a regressar às suas casas em zonas remotas do Uganda", diz Henry Tumwiine, professor na Universidade Mountain of the Moon, em Fortportal (oeste do Uganda).

Atenta a este fosso, a UNESCO emitiu recentemente uma declaração alertando para o facto de 89 por cento dos alunos na África subsaariana não terem acesso a computadores domésticos e 82 por cento não têm acesso à Internet, o que representa "preocupante fratura digital no ensino à distância".

"Além disso, enquanto os telemóveis permitem aos alunos aceder à informação e ligarem-se uns aos outros e aos seus professores, cerca de 56 milhões de estudantes vivem em lugares onde não chegam as redes móveis, quase metade dos quais na África subsariana", acrescenta a UNESCO.

"Não tenho dinheiro para comprar um computador, por isso estou a perder os cursos online. Tenho de esperar até a universidade reabrir", diz Alexander Mubiru, 29 anos, estudante da Universidade Pública de Kampala, em Makerere.

As deficiências no abastecimento de eletricidade são outro entrave ao ensino à distância, impedindo a sua transmissão, seja pela televisão, rádio ou internet.

"Há uma semana que a cidade está sem eletricidade. Os estudantes têm passado o seu tempo nos campos para ganhar dinheiro", disse um funcionário em Mozogo, uma cidade sem saída para o mar, no extremo norte dos Camarões.

"As crianças estão desesperadas. Nem toda a gente tem aparelho de televisão. Estamos preocupados porque os nossos filhos não têm a mesma oportunidade de seguir aulas na rádio e televisão", afirma Gil Mahama, um pai de oito crianças em Mozogo.

Sentado em frente à televisão na sala de estar da família no Burkina Faso, Khalil Nonguierma, aluno do 12º ano, está satisfeito com a iniciativa que lhe permite manter "o contacto com a escola", mas preocupa-se com "a falta de interactividade com o professor que apenas dá uma palestra ou lida com exercícios". "É bom quando se entende, mas quando não se percebe, não há nada a fazer".

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