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África com história pouco conhecida por muitos

Victor Carvalho |*

No dia 25 de Maio de 1963, os líderes de 30 dos 32 Estados africanos então independentes assinaram uma carta de fundação da Organização da Unidade Africana (OUA), em Addis Abeba, na Etiópia.

Cimeira da União Africana realizada este ano em Addis Abeba, na Etiópia, foi a primeira do Presidente João Lourenço
Fotografia: Francisco Bernardo | Edições Novembro

Em 1991, a OUA estabeleceu a Comunidade Económica Africana, e em 2002, a OUA estabeleceu o seu próprio sucessor, a União Africana.
Também deve ser notado que o Dia de África é celebrada como um feriado público em apenas cinco países africanos, Ghana, Mali, Namíbia, Zâmbia e Zimbabwe.
Ao longo da história, o continente africano viveu momentos marcantes, quer a nível político, quer económico e social, que mudaram para sempre o rumo da sua história.
Eis algumas das datas e dos factos que marcaram indelevelmente a história do continente africano:
3100 AC – Os Faraós unificaram o Estado Egípcio. Durante o Antigo Império foram construídas obras de drenagem e irrigação, que permitiram a expansão da agricultura. Foi nesse período que se construíram as grandes pirâmides dos Faraós Quéops, Quéfren e Miquerinos, edificadas nas proximidades de Mênfis, a capital do Egipto na época.
1240 – Fundação do Reino do Kongo, que na sua máxima dimensão se estendia desde o Oceano Atlântico, a oeste, até ao rio Cuango, a leste, e do rio Oguwé, no actual Gabão, a norte, até ao rio Kwanza, a sul. O Reino do Kongo foi fundado por Ntinu Wene, no século XIII.
1460 – O navegador português Diogo Afonso avista Santiago e aporta no local que viria mais tarde a chamar-se de Cidade Velha, o berço da nação cabo-verdiana. Afonso V de Portugal toma o arquipélago como território português e transfere as ilhas para o irmão, o Infante D. Fernando, que se torna no seu administrador. Estava então iniciada a colonização do continente africano.
1884-1885 – Na conferência de Berlim, na Alemanha, África é partilhada pelas potências europeias.
1896 – A Etiópia consegue resistir à invasão europeia, vencendo os italianos na batalha de Adwa. Em 1914, apenas a Etiópia e a Libéria conseguiram manter-se independentes do controlo colonial europeu.
1899 -1902 – Guerra Anglo-Boer na África do Sul – Enquanto os britânicos vencem a guerra, necessitam na mesma de fazer concessões aos Boer e às suas organizações políticas para o controlo interno da África do Sul, abrindo caminho para os sul-africanos libertarem-se eventualmente do domínio britânico e, de seguida, dominar a maioria negra em todo o país.
1914-1918 – África mantinha-se dividida pelos poderes coloniais europeus. A Primeira Guerra Mundial, contudo, diminui o mito da invencibilidade, superioridade e do intitulado direito europeu de comandar o Mundo. A Alemanha perde as suas colónias africanas para a França e a Grã-Bretanha, que tinham a missão de preparar o processo de descolonização, decidida pela Liga das Nações.
1920 – Sedeado em Paris, o Congresso Pan-Africano é alimentado pela agitação anti-colonial e o nacionalismo africano de missionários negros e das elites do Ocidente. Essa agitação é expressa nos ataques à Serra Leoa e à Nigéria.
1939-1945 – Na maior parte das regiões africanas o ressentimento da presença colonial transforma-se em agitação política. No período após a Europa manter-se concentrada nos seus próprios problemas, como lidar com mais uma guerra, formavam-se políticos africanos que eventualmente iriam liderar os seus países até à independência.
1946 – Os poderes coloniais variam na sua vontade em diminuir o controlo. A França demonstra a iniciativa oferecendo poderes reais a políticos africanos, mas sem aceitar mudanças na Tunísia, Marrocos e, acima de tudo, na Argélia. Portugal, o pioneiro do colonialismo em África, luta arduamente para manter-se no continente, mantendo brutas e dispendiosas guerras em várias frentes até 1975.
1950 – Com uma enorme população branca, o Quénia é palco de uma longa campanha de terror e guerrilha contra os britânicos liderada por Jomo Kenyatta e seus rebeldes, denominados “Mau-Mau”.
1957 – A Grã-Bretanha perde influência nas colónias seguindo um caminho mediano, apreciando as aspirações africanas mas instintivamente à procura de compromissos que a fariam preservar algum do seu estatuto. Contudo, a pressão para mudanças nas colónias britânicas mais desenvolvidas prova-se irresistível. O Ghana torna-se, nesse ano, na primeira colónia na África Subsaariana a ganhar a independência.
1963 – As nações africanas emergentes beneficiam e ao mesmo tempo são prejudicadas pela competição global entre os Estados Unidos e a antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), na denominada “Guerra Fria”. O “jogo de xadrez” entre as duas super-potências faz com que estas procurem Estados clientes. A vantagem seria o apoio financeiro em troca de uma simples ideologia: comunismo ou capitalismo. Contudo, vários líderes africanos mantiveram-se no poder com este patrocínio.
1989 – As lutas internas pelo poder aumentam de escala e os conflitos étnicos são uma constante na maioria dos países africanos, consequência também do final da Guerra Fria. O genocídio do Ruanda, que mais tarde assola o país com a rivalidade étnica entre tutsis e hutus, é um exemplo da ingenuidade do mundo em relação aos problemas africanos.
1994 – O poder político é finalmente concedido aos sul-africanos negros com as primeiras eleições presidenciais multirraciais. Nelson Mandela, antigo preso político e herói nacional, venceu as eleições com maioria absoluta.
2010 – Leila Lopes, fruto de África e de Angola, é considerada a mulher mais bonita do mundo, tornando-se na primeira Miss Universo africana.
2011 – A 9 de Julho, o mundo “ganha” um novo país. O Sudão do Sul torna-se num Estado independente, após um referendo de autodeterminação e vários conflitos com o Sudão do Norte.
*Apoio nos arquivos da União Africana

  Acra acolhe o primeiro Congresso dos Estados Africanos Independentes

O Primeiro Congresso dos Estados Africanos Independentes realizou-se em Acra, no Ghana, a 15 de Abril de 1958, convocado pelo Primeiro-Ministro do Ghana, Dr. Kwame Nkrumah, nele tendo participado representantes do Egipto, então parte integrante da República Árabe Unida, Etiópia, Ghana, Libéria, Líbia, Marrocos, Sudão, Tunísia e a União Popular dos Camarões.
A União da África do Sul não foi convidada. A conferência apresentou o progresso dos movimentos de libertação no continente africano, simbolizando também a determinação dos povos da África para libertar-se do domínio e exploração estrangeiros.
Embora o Congresso Pan-Africano lutasse por objectivos semelhantes, desde a sua fundação, em 1900, esta foi a primeira vez que uma reunião do género decorreu em solo africano.
A conferência apelou para a instituição de um “Dia Africano da Liberdade” que marcasse em cada ano o progresso contínuo do movimento de libertação, e que simbolizasse a determinação dos povos de África, para libertar-se do domínio e exploração estrangeiros.
A conferência distinguiu-se por ter criado a base para as reuniões subsequentes de Chefes de Estado e de Governo africanos, na era do Grupo de Casablanca e do Grupo de Monróvia, até à formação da Organização da Unidade Africana (OUA) em 1963.
Cinco anos após o Primeiro Congresso, a 25 de Maio de 1963, representantes de trinta países africanos reuniram-se em Addis Abeba, Etiópia. Mais de dois terços do continente havia já obtido a independência, sobretudo dos Estados imperiais europeus. Neste encontro foi fundada a Organização da Unidade Africana (OUA) com o objectivo inicial de incentivar a descolonização, sendo estabelecida uma carta de princípios que procurou melhorar os padrões de vida entre os Estados-membros.
A carta foi assinada por todos os participantes, com excepção de Marrocos. Nessa reunião, o “Dia da Liberdade de África” foi renomeado “Dia da Libertação de África”. Em 2002, a OUA foi substituída pela União Africana (UA).
No entanto, a celebração, renomeada como “Dia de África”, continuou a ser comemorada a 25 de Maio, em respeito pela formação da Organização de Unidade Africana.


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