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Angola pode ser decisiva na política da Guiné-Bissau

Wellington Calasans |*

Recentemente, foi a entrada de Angola, através do pedido no Conselho de Paz e Segurança da União Africana (UA) de “medidas punitivas” para pessoas e entidades que continuem a criar obstáculos à normalização da vida constitucional na Guiné-Bissau, que forçou a CEDEAO a barrar os avanços antidemocráticos do Presidente da República, José Mário Vaz (JOMAV).

Presidente Mário Vaz confirmou a recandidatura
Fotografia: DR

 Naquela oportunidade, a CEDEAO retirou os poderes do actual Presidente, aceitou a nomeação do novo Governo (eleito democraticamente) e exigiu a realização das eleições presidenciais, marcadas para 24 de Novembro deste ano.

Agora, a pouco menos de três meses da votação para a escolha do próximo Presidente na Guiné-Bissau, Angola volta a ser decisiva para sabermos qual o rumo que aquele país irmão irá tomar. Ocorre que entre os concorrentes ao cargo de Presidente há dois nomes com uma vida cheia de memórias não muito agradáveis aos angolanos e ao povo guineense, sobretudo neste momento em que Angola faz do combate à corrupção uma bandeira para a consolidação da estabilidade económica: Carlos Gomes Júnior (Cadogo) e José Mário Vaz (Jomav).
Ambos trocam acusações recíprocas de desvio do substancial valor de USD 12 milhões. Há áudios e vídeos que circulam nas redes sociais onde ambos tratam do assunto sem o menor pudor, mas sempre através de acusações contra o outro. Se apenas um deles ou se ambos, o certo é que são os próprios Jomav e Cadogo que trazem à tona a autoria de desvio de dinheiro que constitui um prejuízo financeiro aos cofres públicos angolanos.
Na Guiné-Bissau, o actual procurador-geral da República, Ladislau Embassa, é visto como “homem do Jomav” e, para alguns juristas e políticos, somente através de uma pressão internacional o caso do desvio dos 12 milhões de Angola seria investigado. Carlos Gomes Júnior afirma que “não cairá sozinho, pois Jomav vai junto com ele”. No entanto, nada disso ocorrerá, se Angola, parte interessada na recuperação do dinheiro desviado, deixar que ambos sigam impunemente no mundo da política.
Na Guiné-Bissau, as Primárias do PAIGC, do dia 23 de Agosto, definiu o nome do seu líder Domingos Simões Pereira (DSP) como o candidato às presidenciais de 24 de Novembro por este que é o maior partido do país. Na opinião dos analistas políticos e jornalistas internacionais, este resultado foi a primeira derrota de Jomav e Cadogo. Ambos teriam apoiado, sobretudo financeiramente, o concorrente do DSP para impedir que o líder do PAIGC fosse escolhido o representante do partido na corrida presidencial que se avizinha.
“Milhões foram usados para a compra de votos, mas apenas 65 se deixaram corromper”, afirmou um quadro da Polícia que pediu sigilo de fonte. Confiante no poder do dinheiro, Cipriano Cassamá, actual presidente da Assembleia Nacional Popular da Guiné-Bissau, havia anunciado em Luanda que seria candidato ao cargo de Presidente da República. Ao que parece, faltou combinar com os quadros superiores do PAIGC.
“A compra de votos será a arma de Cadogo e Jomav”, afirma a mesma fonte policial. Esse sentimento de impunidade permite que estes candidatos sigam a trocar acusações mútuas; tentassem impedir que o principal concorrente (DSP) vencesse as Primárias e agora usem artifícios inaceitáveis para impedir que os trabalhos de preparação do processo eleitoral avancem.
De acordo com diversas autoridades da Guiné-Bissau, impedir que haja eleições ainda é a primeira estratégia dos opositores do PAIGC. A segunda arma será a compra de votos e a terceira, e última, a consumação de um golpe, caso a iminente vitória do DSP seja confirmada.
Domingos Simões Pereira goza de excelente prestígio entre os eleitores da Guiné-Bissau e também junto à comunidade internacional e deverá repetir nas presidenciais de 24 de Novembro os bons resultados das últimas eleições legislativas no país, quando venceu todas elas. O papel de Angola será decisivo para que esta vitória do DSP possa ser consumada já na primeira volta, caso traga para o debate eleitoral a cobrança dos 12 milhões de dólares. O povo da Guiné-Bissau não suporta mais tanto sofrimento. A democracia agradece.
*Especial para o Jornal de Angola

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