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Eleições de 4 de Julho podem ser adiadas

Victor Carvalho

O Presidente interino da Argélia, Abdelkader Bensalah, convocou uma reunião, na qual não participou, que decorreu na segunda-feira e durante a qual foi discutida a possibilidade de as eleições de 4 de Julho serem adiadas por “algumas semanas” devido à alegada falta de “tempo útil” para garantir que elas decorram com a necessária lisura e transparência.

Fotografia: DR

Destinada a todos os partidos políticos, a reunião foi entretanto boicotada pelos sindicatos e forças da oposição apenas nela tendo participado, segundo a imprensa local, as formações políticas de algum modo favoráveis a Abdelaziz Bouteflika.
O grande objectivo da reunião era, supostamente, designar uma instância encarregada de organizar as eleições de 4 de Julho, mas o Presidente interino, mesmo ausente, introduziu na discussão a análise à possibilidade de o escrutínio ser adiado por “algumas semanas”, de modo que este possa decorrer com “a lisura e a tranquilidade necessária e que o país exige.”
Mas, a verdade é que a reunião não contou com a presença da maioria dos partidos políticos, sobretudo da oposição, bem como dos sindicatos e dos grupos da sociedade civil próximos do movimento de contestação que obrigou Bouteflika a apresentar a demissão.
Numa reacção a esta reunião e à possibilidade do adiamento das eleições, ainda que apenas por “algumas semanas”, o líder da principal força da oposição, Ali Benflis, presidente do Partido Talai el Houriyet e candidato derrotado por Abdelaziz Bouteflika no pleito de 2014, disse que “a hora não é de consultas, mas sim de trabalhar para que a ida às urnas decorra na data prevista.”
Por sua vez, o Partido dos Trabalhadores considera que esta reunião se inscreve numa “operação de sabotagem à mudança de regime.”
De sublinhar que o próprio Presidente interino, Abdelkader Bensalah, esteve ausente da reunião fazendo-se representar pelo secretário-geral da Presidência, Habba el Okbi, restando agora saber quais os passos que se seguirão para definir o que se irá passar nos próximos meses, sabendo-se que todos os fins de semana milhares de pessoas continuam a sair às ruas para exigir a saída de cena de todos os elementos de algum modo ligados ao anterior regime, entre eles o actual Presidente interino.

Empresários detidos
A Polícia argelina prendeu na segunda-feira quatro dos irmãos Kouninef, uma poderosa família de empresários bilionários próximos do ex-Presidente Abdelaziz Bouteflika.
Os detidos devem ser ouvidos no âmbito de uma informação judicial, designadamente por “desrespeito dos compromissos contidos nos contratos concluídos com o Estado, tráfico de influência para obter importantes vantagens e desvio de fundos”, antes de serem presentes perante o procurador, referiu a mesma fonte.
A família Kouninef é considerada próxima de Saïd Bouteflika, irmão e poderoso ex-conselheiro do antigo Chefe de Estado, que se demitiu sob a pressão conjugada da rua e dos militares. Muito influentes mas muito discretos, os irmãos Kouninef dirigem um império que se estende do sector agro-alimentar à indústria petrolífera.
O chefe de Estado-Maior do Exército argelino, general Gaïd Salah, apelou em 16 de Abril à justiça para “acelerar a cadência” dos inquéritos abertos por casos de corrupção contra os homens de negócios com ligações ao antigo clã presidencial.
No início de Abril, o ex-patrão dos patrões argelinos, Ali Haddad, um rico homem de negócios, igualmente próximo de Bouteflika, foi enviado para a prisão após ser detido quando se deslocava em direcção à Tunísia. Foi detido após a descoberta de divisas não declaradas e de dois passaportes, uma infracção de acordo com a legislação argelina. Um dia após a detenção, a Justiça anunciou a abertura de inquéritos sobre os casos de corrupção e transferências ilícitas de capitais.
As autoridades judiciais argelinas também proibiram um certo número de pessoas de deixarem o país, sem revelarem os nomes, mas a imprensa local indica a identidade de uma dezena de influentes homens de negócios, todos com ligações ao círculo próximo do antigo Chefe de Estado.
Desde 22 de Fevereiro que decorrem na Argélia manifestações massivas desencadeadas contra a recandidatura de Bouteflika a um quinto mandato e que evoluíram para uma ampla contestação a todo o regime dominado desde a independência em 1962 pela Frente de Libertação Nacional.

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