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Eleições gerais na Nigéria adiadas na calada da noite

Victor Carvalho

A Comissão Nacional Eleitoral Independente da Nigéria anunciou, às duas horas da manhã de ontem, o adiamento das eleições presidenciais e legislativas para o próximo dia 23, provocando em todo o país uma enorme surpresa.

A notícia sobre o adiamento do escrutínio foi recebida com muita surpresa pela população
Fotografia: Dr

Ao princípio muitos foram os que pensavam tratar-se de mais uma “Fake News”, mas a verdade é que as urnas estiveram mesmo encerradas em todo o país devido, segundo disse o presidente da comissão eleitoral, Mahmood Yakubu, a “procedimentos logísticos que ainda estão por concluir”.
Pelo facto de o anúncio ter sido feito no silêncio da noite, milhares de pessoas ainda se dirigiram ontem de manhã aos locais de voto e foi com surpresa que tomaram então conhecimento que terão que voltar dentro de uma semana.
Numa declaração televisiva a que poucos nigerianos assistiram, por ter sido feita às duas horas da manhã, aquele responsável disse que se tratou de uma decisão que pretende salvaguardar que as eleições sejam “livres” e que o voto decorra sem “constrangimentos”. Face a esta nova calendarização, as eleições regionais foram remarcadas para 9 de Março.
A decisão foi tomada depois de uma reunião de emergência que decorreu em Abuja e que demorou cerca de cinco horas, sem que a imprensa soubesse o que estava a ser tratado.
Os dois principais partidos nigerianos, o Congresso de Todos os Progressistas e o Partido Democrático do Povo, já se pronunciaram sobre este adiamento e acusam-se mutuamente de se estar perante uma tentativa de “manipulação do voto”.
Já de manhã, Mahmood Yakubu voltou a abordar o assunto e explicou que a decisão de adiar o pleito foi tomada depois da Comissão Eleitoral ter passado em revista o plano operacional para as eleições, tendo aquele órgão chegado à conclusão que são necessários mais alguns dias para garantir que tudo decorra de forma “absolutamente credível”.
Segundo ele, esta semana de adiamento vai permitir à Comissão Eleitoral o tempo necessário para resolver “questões vitais” que têm a ver com a “qualidade das eleições”. Apesar de Mahmood Yakubu não ter pormenorizado os aspectos práticos que levaram a esta decisão, a verdade é que nas últimas duas semanas a Comissão Eleitoral recebeu informações de que milhares de cartões electrónicos de voto estavam danificados e que o material eleitoral distribuído pelos 36 Estados do país era insuficiente para o número de eleitores registados desta vez.
Há uma semana, um incêndio numa delegação da comissão eleitoral num Estado do centro do país destruiu a totalidade das mesas e de boletins de voto que lá se encontravam armazenados.
A dois dias das eleições, um incidente num comício onde deveria participar o Presidente Muhammadu Buahri, na qualidade de candidato, provocou a morte a dezenas de pessoas. Na véspera do dia inicialmente previsto para as eleições, as autoridades anunciaram que pelo menos 66 pessoas tinham morrido numa onda de violência que atingiu o Estado de Kaduna, no Norte do país. De acordo com o porta-voz do governador de Kaduna, Samuel Aruwan, os ataques ocorreram em Kajuru, uma área dominada por bandidos armados e fanáticos religiosos. Entre as vítimas havia 22 crianças e 12 mulheres.
De recordar que, na RDC, também foi na madrugada do dia das eleições que a Comissão Eleitoral local anunciou o adiamento do pleito de 23 para 30 de Dezembro alegando, precisamente, as mesmas razões agora invocadas pela congénere nigeriana.

Futuro adiado
Com esta decisão, a Comissão Eleitoral adiou por uma semana a definição sobre o futuro imediato da Nigéria, onde a eleição do Presidente da República ganha uma importância determinante face aos problemas que o país vive e para os quais tardam em ser encontradas soluções.
A principal economia africana, que é também o país mais populoso do continente, tem 73 candidatos registados para a corrida presidencial, mas o favoritismo vai para dois homens com mais de 70 anos: Muhammadu Buhari, 76 e Atiku Abubakar 72.
O actual Presidente diz que o país caminha para a prosperidade, mas o seu rival reclama e diz que ele não está a funcionar e que, por isso, é preciso haver mudanças.O que pensam os cerca de 84 milhões de nigerianos que deveriam ter ontem votado é que vai determinar o rumo que o país tomará, mas isso só depois do próximo dia 23.

Buhari “profundamente desapontado”

O Presidente da Nigéria, Muhammadu Buhari, mostrou-se ontem “profundamente desapontado” pelo adiamento das eleições presidenciais na maior economia africana, apelando à calma e considerando que o momento é “um teste ao caminho democrático” nigeriano.
De acordo com a agência Lusa, a declaração do Presidente nigeriano surgiu no momento que se dirigia à capital para ouvir as explicações da Comissão Eleitoral, horas depois de esta entidade ter anunciado o adiamento das eleições presidenciais por uma semana.
Buhari diz que a comissão “deu garantias, dia após dia e quase hora a hora, de que estava preparada para as eleições” e acrescenta: “Eu e todos os nossos cidadãos acreditámos neles”.
No comunicado, o Chefe de Estado apela à calma de todos, e pede à comissão para proteger os materiais de voto que já foram distribuídos, garantindo que o Governo não interfere no trabalho desta entidade encarregada de preparar e gerir as eleições.
Para Buhari, este é “um teste ao caminho democrático” no país.
A Comissão Eleitoral da Nigéria informou ontem que a eleição presidencial está adiada para 23 de Fevereiro devido a "desafios" não especificados, quando surgem informações de que os materiais de votação chegaram a todas as regiões do país.
O presidente da comissão, Mahmood Yakubu, anunciou o adiamento quase cinco horas antes do início das eleições.
Yakubu disse que “foi uma decisão difícil de tomar, mas necessária para o sucesso das eleições e a consolidação da (...) democracia”. Em 2015, a Nigéria atrasou a eleição durante seis semanas, alegando então problemas ligados com a segurança.
Nestas eleições, os nigerianos escolhem o Presidente, os deputados à Assembleia Nacional e os governadores dos 36 estados do país, num escrutínio que se apresenta como imprevisível.
O vencedor das presidenciais vai governar nos próximos quatro anos um país com cerca de 200 milhões de habitantes, registo que é uma estimativa pouco firme do instituto nigeriano de estatísticas, já que o último censo oficial é de 2006.
Certo é que a Nigéria é o país mais populoso de África e o seu crescimento demográfico é um dos mais rápidos. De acordo com as previsões da ONU, a população nigeriana deverá alcançar os 410 milhões de habitantes até 2050, para se tornar no terceiro país mais populoso do mundo, atrás da China e da Índia.
O novo Presidente terá de enfrentar o imenso desafio do emprego para os jovens, sabendo que 87 milhões de nigerianos vivem abaixo do nível de pobreza extrema.

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