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Independentistas do Biafra recordam a guerra de 1967

Victor Carvalho

As principais cidades da região do sudoeste da Nigéria foram palco de uma série de manifestações para recordar o dia 30 de Maio de 1967, altura em que foi declarada a independência da “República do Biafra”.

 

Região do sudoeste da Nigéria, dominada pela etnia igbo, queixa-se de ser marginalizada
Fotografia: DR

Nessa altura, um grupo de independentistas desafiou a poderosa Nigéria, dando início a uma violenta e sangrenta guerra civil, que viria a terminar três anos depois, a 15 de Janeiro de 1970, com um saldo de mais de um milhão de mortos.
Apesar da presença massiva de elementos das forças de segurança, que alertaram os independentistas para a necessidade de evitarem confrontos, as manifestações decorreram sem problemas.
A região do sudoeste da Nigéria, maioritariamente habitada por elementos da comunidade étnica igbo, tem-se queixado de ser marginalizada por parte das autoridades nigerianas, acusando os sucessivos governos de falharem nos programas de desenvolvimento para as suas áreas.
Nos últimos anos, tem-se assistido a um reaparecimento do apoio local, à instalação de um Estado do Biafra, liderado pelo Movimento para a Actualização da Soberania do Estado do Biafra, que substituiu o banido grupo Povo Indígena do Biafra.
Nas manifestações realizadas na quarta-feira, a cidade petrolífera de Port Harcourt foi aquela onde se registou a maior participação popular, tendo sido mesmo encerrada a icónica ponte do Rio Níger, que serve de passagem para o oeste do país e que habitualmente está congestionada com tráfico de veículos.
O líder da etnia Igbo, Nn-mandi Kanu, que não é visto em público, desde Setembro e que é alvo de um mandato judicial de captura para responder pelo crime de traição, continua a ser o inspirador dos ideais independentistas que estiveram por detrás das manifestações de quarta-feira.
 
Existência efémera

A República do Biafra teve uma existência efémera entre 30 de Maio de 1967 e 15 de Janeiro de 1970. O Vaticano, Portugal e França foram os seus principais aliados. O Reino Unido, ex-potência colonial, o Egipto e a então União Soviética, apoiaram a Nigéria. A China também apoiou o Biafra.
A crise do Biafra começou em 1966, na sequência de uma tentativa falhada de golpe de Estado na Nigéria. A maioria dos oficiais superiores envolvidos pertencia à etnia igbo (cristãos do Biafra), a denominada elite do país.
Oito milhões de igbos viviam na região oriental da Nigéria que tinha como governador provincial o coronel Chukwuemeka Odumegwu (Emeka) Ojukwu, tendo sido ele que declarou a independência da região a 30 de Maio de 1967.
Na resposta, as Forças Armadas Nigerianas bombardearam e mataram indiscriminadamente soldados biafrenses e civis, tendo a marinha feito um bloqueio que impediu o acesso a alimentos, medicamentos e armamento.
O Biafra foi a primeira então “nação” africana a refinar o seu próprio petróleo, o que desagradou às multinacionais que ali operavam e que tinham sede em Lagos, a capital.
Um ataque da guerrilha contra pipelines da Shell-BP na região, onde o Reino Unido recolhia 20 por cento do seu petróleo, da Nigéria, foi fundamental para as alianças das petrolíferas com o Governo de Lagos.
Em 1970, a  situação catastrófica no Biafra assumiu dimensões bíblicas. Quando a região foi reintegrada na Nigéria, tinham morrido cerca de três milhões de pessoas e a imagem da tragédia eram os campos de refugiados com milhares de crianças famélicas (famintas). Em 1980, o Governo nigeriano concedeu um perdão a Ojukwu, que agora goza de um estatuto de ex-estadista e vive confortavelmente em Enugu, a antiga capital do Biafra.
Confessando não sentir remorsos nem qualquer responsabilidade pelo que se passou, Ojukwu disse recentemente que se voltasse atrás “repetiria tudo o que fez”, porque “todas as razões que levaram à secessão ainda não foram resolvidas e estão agravadas”.

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