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Jacob Zuma refuta todas as acusações de corrupção

O ex-Presidente da África do Sul, Jacob Zuma, que está no centro de alegações de corrupção e captura do Estado durante os seus mandatos, refutou as acusações e distanciou-se da família Gupta, que alegadamente interferiu na governação do país.

Ex-Presidente sul-africano diz-se ser alvo de perseguição
Fotografia: DR

Questionado desde segunda-feira até ontem pela Comissão de Inquérito presidida pelo juiz Raymond Zondo, que investiga alegações de corrupção durante a sua governação (2009-2018), Jacob Zuma respondeu: “não sei de nada. Não posso comentar porque não estava lá”, revelou a BBC que tem acompanhado o interrogatório, transmitido em directo pela televisão local.
Há uma semana, antes do início do interrogatório ao ex-Chefe de Estado, a ex-deputada do partido no poder, o Congresso Nacional Africano (ANC, sigla em inglês), Vytjie Mentor, alegou durante o testemunho na mesma comissão que Ajav Gupta lhe ofereceu a pasta ministerial das Empresas Públicas se aceitasse descontinuar a rota aérea para Mumbai (Índia) da estatal South African Airways.
Vytjie Mentor alegou que, naquele dia, o ex-Chefe de Estado sul-africano se encontrava na sala ao lado onde decorreu o encontro na mansão dos Gupta, em Saxonwold, Joanesburgo, acusação que Jacob Zuma negou também. “Não interagi com esta testemunha. Ele (Ajay Gupta) nada tinha a ver com o Governo, ele é um empresário”, disse Jacob Zuma.
As alegações de que o ex-Presidente sul-africano terá dado “carta branca” aos três irmãos empresários Gupta, que são sócios em vários negócios com a família Zuma, para “pilhar” os recursos do Estado e influenciar a nomeação de altos dirigentes do ANC no Governo, constituem parte do mandato da Comissão de Inquérito, que arrancou em Agosto.
Durante a audiência, o ex-Chefe de Estado, de 77 anos, disse também que ele e os filhos receberam ameaças de morte horas depois de depor pela primeira vez na segunda-feira na Comissão de Inquérito, reunida no norte de Joanesburgo.
“Nessa noite, entre às 7h00 e às 8h00, a minha assistente pessoal no ANC recebeu um telefonema de uma pessoa desconhecida que disse para me informar que me vão matar e também aos meus filhos e algumas pessoas do meu círculo”, afirmou Zuma.
Na segunda-feira, o ex-Chefe de Estado negou ter cometido crimes e considerou que as numerosas acusações de corrupção de que é alvo são “uma conspiração para o prejudicar que remonta aos anos de 1990.”
De acordo com Jacob Zuma, “o plano inclui tentativas de assassinato com a intervenção de organizações de inteligência locais e estrangeiras.”
Jacob Zuma foi afastado pelo seu partido em Fevereiro de 2018 e substituído por Cyril Ramaphosa, o seu Vice-Presidente, que foi confirmado como Chefe de Estado nas eleições gerais em Maio último, com 57,5 por cento dos votos.
A Comissão de Inquérito, presidida pelo juiz Raymond Zondo, foi criada na sequência do relatório “Captura do Estado”, divulgado em 2016 pela então procuradora-geral da República, Thuli Madonsela, em que acusou Zuma e o seu Executivo de orquestrarem uma “cabala” para colocar o Estado ao serviço pessoal e da família Gupta, empresários de origem indiana.
Paralelamente a esta investigação, Jacob Zuma está a ser processado judicialmente num caso de corrupção, branqueamento de capitais e fraude, relacionado com a compra de armamento e equipamento de defesa para as Forças Armadas Sul-africanas no final dos anos 90.
Em 2016, por ordem do Tribunal Constitucional, Jacob Zuma foi obrigado a devolver meio milhão de dólares do erário, por terem sido gastos irregularmente em obras na sua residência privada, na província do KwaZulu-Natal.

“Tratamento injusto”

Ontem, o ex-Presidente sul-africano decidiu deixar de testemunhar perante a Comissão oficial que investiga o alegado caso de corrupção ocorrido durante o seu mandato, queixando-se de “tratamento injusto”.
“Estamos aqui para dizer que não vamos continuar a participar neste processo”, anunciou o advogado de Zuma, Muzi Sikhakhane à Comissão de Inquérito que investiga um caso conhecido na África do Sul como “Captura do Estado”.
O advogado sustentou que a Comissão está a tratar Zuma de forma injusta, como alguém que está acusado, em vez de ser considerado uma testemunha que pode contar a sua versão dos factos.
“As pessoas que aqui estão põem as suas vidas em risco”, destacou Sikhakhane.
O anúncio surge depois de, na passada quarta-feira, a equipa que defende Zuma ter pedido uma suspensão das declarações até hoje, por discordar da linha com que estava a ser conduzido o inquérito ao ex-Presidente.
Durante mais de um ano, a Comissão, presidida pelo Vice-Presidente do Tribunal Constitucional, Raymond Zondo, ouviu dezenas de ministros, deputados, empresários e altos funcionários da administração sobre os negócios considerados obscuros da era de Zuma no poder.
Paralelamente a esta investigação, Zuma está acusado num caso que envolve alegações de corrupção, lavagem de dinheiro e fraude.

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