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Políticos apelam ao líder para reduzir os prejuízos

Altino Matos |

Robert Mugabe, o líder guerreiro que conduziu os zimbabueanos até à data, “insiste” em comportar-se como o verdadeiro homem de luta que marcou África, apesar de estar fora de contexto, ao defender a sua presidência de forma destemida diante de todo ambiente desfavorável, como a destituição da liderança da ZANU-PF e do ultimato para abandonar o poder em 24 horas.

Zimbabueanos estão admirados com a atitude de Robert Mugabe de manter o poder político
Fotografia: Jekesai Njikizana | AFP

O Presidente do Zimbabwe, cujo percurso invejável passa à história quase sem glória, disse, em reacção à decisão do Comité Central da ZANU-PF de o demitir de todos os cargos que ocupava no partido, que era algo “surreal” e que havia de manter-se em funções como Chefe de Estado e como comandante em chefe das Forças Armadas.
A situação no Zimbabwe está a despertar vários interesses quer na comunidade política internacional quer na comunidade jornalística e científica em todo o mundo. O debate à volta da situação é muito complexo e impõe medidas políticas e de ordem diplomática de grande inteligência, como reconhecem especialistas em matéria política africana.
Para estes, África é volátel à embaraços políticos, muitos dos quais deram lugar a mortes e a instabilidades que provocaram adversidades económicas e sociais.   
Nessa perspectiva, o Jornal de Angola colheu opiniões de analistas políticos angolanos, para tentar perceber como as coisas chegaram a esse ponto e que saídas imediatas se colocam para o Zimbabwe, em particular, e para o continente africano, em geral. O analista Olívio Kilumbo encontra fundamentos nas teorias políticas para perceber o “fenómeno.” “A teoria política segundo a qual é preciso manter o regime e alterar o sistema é  aplicável a todos os grandes partidos, outrora  movimentos de libertação, que foram os baluartes para liberdade na África Austral. As longevidades de partidos e políticos têm consequências graves quando não se renovam e nem se acomodam as suas elites”, sustenta o analista político.
Olívio Kilumbo refere que não nos podemos esquecer que “Robert Mugabe é um símbolo do nacionalismo africano e zimbabweano e um líder com um passado político recheado de conquistas que lhe valeram títulos internacionais como o Cavaleiro da Rainha (Sr.), “Honoris Causa” em universidades africanas e não só”. “Em tempos de glória, Mugabe tornou o Zimbabwe celeiro de África e com grande capacidade de exportação para a Europa, principalmente, são coisas que não devem ser ignoradas” recordou o interlocutor.
“O Presidente Robert Mugabe não entendeu, nos últimos anos, que liderar significa também saber o tempo de mudar. Aos 93 anos, 37 anos depois, aquele que para mim deveria ser o  guardião do nacionalismo africano, sai pela porta pequena, manchando todo o capital político acumulado ao longo do seu tempo de glória”, disse o analista Olívio Kilumbo.
O analista Orlando Muhongo diz que “a situação é muito complexa porque existem em teoria duas correntes em conflito, uma que justifica as coisas com a longevidade no poder e outra que remete para o respeito dos princípios democráticos, que mantiveram Robert Mugabe no poder através de eleições livres e justas.”
“Existiam sinais muito fortes que indicavam que as coisas estavam a correr fora dos trâmites políticos  refiro-me à forma como foi afastada a Vice-Presidente Joice Mujuru, há coisa se tanto de três anos, por problemas, também, com a primeira dama, e agora aconteceu o mesmo com o Vice-Presidente Emmerson Mnangagwa”, explica Orlando Muhongo.
O analista diz que a melhor leitura será feita quando “estivermos em posse de elementos que vão esclarecer se Robert Mugabe perdeu o controlo das ambições políticas de sua esposa, ou se ele mesmo esteve de acordo com a criação de tais ambições, que deram lugar a uma série de acontecimentos.”   A posição da ZANU-PF revela, também, fragilidade política, porque, por um lado, “estamos em presença de elementos que dão conta de um golpe, com os militares a determinar os moldes em que se deve realizar a transição, em contra senso à Constituição, e por outro, se o que está em causa é longevidade de poder, porquê que o partido não tomou essa decisão há mais tempo?

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