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Presidência anuncia vitória sobre o grupo Boko Haram

A Presidência nigeriana assegurou, ontem, ter “vencido” o Boko Haram, dez anos depois do início da insurreição, mas reconhece a crescente ameaça que os extremistas internacionais representam e que desde há um ano causam sérios danos às Forças Armadas

Tropas nigerianas foram mobilizadas para garantir segurança nas regiões do Nordeste
Fotografia: DR

“A posição oficial do Governo nigeriano é a de que o terrorismo do Boko Haram foi reduzido e vencido”, declarou a Presidência da República, num comunicado divulgado pela AFP.
Todavia, acrescenta o documento, o país está agora confrontado com uma “mistura” de resíduos do Boko Haram, de grupos criminosos e de “jihadistas” originários do Magrebe e da África Ocidental, que chegaram depois da crise na Líbia e do desaparecimento do Estado Islâmico, no Médio Oriente.
Segundo o comunicado a que a AFP teve acesso, a insurreição do Boko Haram contra as forças de defesa e segurança no Nordeste da Nigéria resultou na morte de centenas de seguidores da seita islamita e do seu dirigente Muhammed Yusuf.
Dados actuais indicam que o conflito já matou 27 mil pessoas, provocou dois milhões de deslocados e propagou-se pelos países vizinhos, como Camarões, Chade e Níger.
Como consequência, refere a Presidência nigeriana, assistiu-se a um aumento de crimes transfronteiriços e à proliferação de armas ligeiras na bacia do Chade.
Em 2015, as Forças Armadas nigerianas, ajudadas por uma coligação internacional, expulsaram o Boko Haram das grandes cidades do Nordeste da Nigéria, e forçaram-no a dispersar-se para as áreas mais recônditas do país.
Apesar disso, os mesmos continuam a lançar ataques. Há um ano, uma facção dissidente, fiel ao grupo Estado Islâmico, a “Província do Estado Islâmico da África Ocidental (ISWAP)”, causou sérios danos militares às Forças Armadas.
No último fim-de-semana, um ataque da facção do Boko Haram, liderada pelo histórico Abubakar Shekau, matou 65 aldeões, próximo de Maiduguri, capital do estado de Borno.
As autoridades nigerianas, que nos últimos anos repetiram ter vencido os jihadistas do Nordeste, foram criticadas pela impotência em acabar com a violência e as atrocidades cometidas contra as populações civis.
Desta feita, Abuja anunciou a compra de caças americanos com o objectivo de reforçar as capacidades das Forças Armadas.
O Presidente da Nigéria, Muhammadu Buhari, anunciou recentemente a instalação de vídeos de vigilância ao longo das auto-estradas, com o objectivo de identificar os autores dos assassinatos nas vias que ligam o país.
O anúncio é uma resposta às lamentações das populações do Sudoeste e de outros estados palcos de todo o tipo de violência.
Os dispositivos facilitarão o trabalho da Polícia nos inquéritos relativos a tais crimes, disse.

Novo ataque
Apesar da declaração de vitória, a realidade parece ser bem diferente. A AFP noticiou ontem que confrontos entre o Exército e o grupo ISWAP (Grupo do Estado Islâmico na África Ocidental) causou dezenas de mortos, incluindo, pelo menos, 25 soldados e mais de 40 combatentes islâmicos na sexta-feira em Baga.
Os rebeldes “mataram 20 soldados nigerianos e cinco soldados do Chade em combates intensos”, disse uma fonte militar que não quis ser identificada em declarações à agência France Press.
De acordo com a agência, os combatentes do ISWAP, ligados ao Boko Haram, chegaram em camiões à cidade de Baga, nas margens do Lago Chade, no extremo Nordeste da Nigéria e efectuaram um primeiro ataque à base militar antes de serem repelidos.
Os confrontos aconteceram entre os jihadistas e elementos que integravam um comboio militar que chegava da capital do estado de Borno, Maiduguri. A base naval militar de Baga, nas margens do Lago Chade onde os combatentes jihadistas estão localizados foi atacada várias vezes desde 2014, os últimos ataques aconteceram em Dezembro de 2018.
Desde Julho de 2018, a ISWAP intensificou os ataques contra as bases militares no Nordeste da Nigéria e causou centenas de mortes nos Exércitos regionais.
“A posição do Governo nigeriano é que o terrorismo do Boko Haram foi reduzido e derrotado, e o verdadeiro Boko Haram que conhecemos foi derrotado”, disse a Presidência num comunicado divulgado no dia 23 de Julho.
Desde 2009, o número de vítimas mortais provocadas pelo grupo ultrapassou os 30 mil, com alguns observadores a estimarem mais de 70 mil mortos como consequência directa dos conflitos. O grupo alcançou maior reconhecimento internacional em 2014, com o rapto de 276 raparigas de escolas na cidade de Chibok, Estado de Borno. Estima-se que o grupo conte com seis mil militantes na região.

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