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Renamo ameaça abandonar negociações de paz em curso

Victor Carvalho

A Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), principal partido da oposição, colocou no sábado à noite o país em alvoroço ao dizer que está na disposição de abandonar as negociações de paz devido àquilo que diz ser a “manipulação de resultados nas eleições autárquicas de quarta-feira passada”.

 

Coordenador interino da Renamo, Ossufo Momade, acusa Governo de manipular os resultados
Fotografia: DR

“Se o voto popular não for respeitado, a Renamo vai romper com as negociações e as consequências que daí advierem serão de inteira responsabilidade do Presidente Filipe Nyusi”, disse de modo peremptório o coordenador interino da Renamo, Ossufo Momade, através de uma teleconferência a partir da Serra da Gorongosa que teve uma enorme difusão por parte da imprensa local.
Segundo a análise que a Renamo faz do modo como decorreram as recentes eleições autárquicas, divulgada na referida teleconferência, o processo de votação foi “um verdadeiro fiasco”, com situações em que os presidentes das mesas entregavam vários boletins de voto a um eleitor previamente identificado como membro da Frelimo.
O responsável do principal partido da oposição em Moçambique acusou directamente o chefe de operações do Secretariado Técnico de Administração Eleitoral (STAE) em Marromeu, província de Sofala, e a Polícia Nacional, de serem responsáveis pela retirada ilegal de dez mesas de voto para “falsificar resultados”. Se-gundo a Renamo, as principais irregularidades tive-
ram lugar nos municípios de Alto Molocue, na Zambézia, e Vila de Monapo, em Nampula, onde os órgãos eleitorais locais, alegadamente, falsificaram editais quando notaram que o partido estava em vantagem.
De acordo com Ossufo Momade, a Renamo não quer a guerra, mas também não aceita “qualquer tentativa de pôr em causa a vontade popular”.
 
Últimos resultados oficiais
Os últimos dados divulgados na Internet pelo STAE e pela Comissão Nacional de Eleições revelaram os resultados finais das eleições autárquicas em 34 dos 53 municípios, com a Renamo a vencer em quatro (incluindo uma capital provincial, Nampula) e a Frelimo a dominar o resto do mapa.
De acordo com essa mesma informação, as contas estão fechadas em quatro de onze províncias: Cabo Delgado, Niassa, Manica e Gaza.
Os 19 municípios cujos resultados finais estão por divulgar incluem vários pertencentes às províncias mais populosas, Nampula e Zambézia, assim como da capital, Maputo.
A lentidão do processo de contagem de votos, agora contestado pela Renamo, prende-se com a necessidade que os organizadores das eleições sentiram de não criar factos que pudessem alimentar polémicas em relação aos números que vão sendo conhecidos.
Isto acontece para evitar os problemas políticos que a Renamo está a levantar e para os quais terá que apresentar as provas factuais, de modo a que esta posição não seja entendida como uma manifestação de mau perder.
Entre 2014 e 2015, Moçambique registou um agravamento da tensão entre o Governo e a Renamo, com a ocorrência de confrontos militares que provocaram um número indeterminado de mortos.
Essa tensão só veio a baixar com a declaração de tréguas assinada em Dezembro de 2016 pelo então líder da Renamo, Afonso Dhlakama, que morreu a 3 de Maio deste ano, devido a complicações de saúde.
A Frelimo e a Renamo chegaram a um entendimento, cuja primeira parte tinha como principal ponto a descentralização do poder, consumada em Maio com alterações à Constituição e consequente adaptação das leis eleitorais, com as quais o principal partido da oposição se disponibilizou para disputar nas urnas a liderança dos municípios e províncias do país.

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