Mundo

Resultados provisórios das eleições na RDC são divulgados no domingo

A Comissão Nacional Eleitoral Independente (CENI) inicia a divulgação dos resultados provisórios das eleições gerais na RDC no próximo domingo, dia 6. Antes dessa data, os meios de comunicação social e de outra natureza estão proibidos de publicar qualquer tipo de sondagem, visto ser essa prerrogativa exclusiva da CENI, conforme sublinha o órgão, através de um comunicado.

Presidente da Comissão Nacional Eleitoral Independente da RDC, Corneille Nangaa, pede respeito às normas definidas
Fotografia: DR

De acordo com a legislação eleitoral congolesa, a divulgação oficial do nome do novo Presidente, bem como dos deputados nacionais e provinciais, deve ser feita até ao dia 15 do corrente. Por sua vez, as cinco  missões internacionais que observam as eleições prevêem, para amanhã, um balanço preliminar sobre o processo, com incidência para o dia da votação, que foi no domingo.
Os observadores abstiveram-se de emitir declarações relevantes sobre as incidências do acto eleitoral. Depois do fecho das assembleias de voto, os integrantes das diferentes missões, incluindo a SADC, coordenada pela an-golana Elizabeth Rank Frank, quadro de alto escalão da Po-lícia Nacional, acompanharam a contagem dos votos, tendo ontem dado sequên-cia à actividade. Hoje, o trabalho continua.   
A jornada dos observadores abrange a apreciação das actas, compilação de relatórios das equipas espalhadas pelo país e a confirmação, ou despiste, de eventuais irregularidades. Só assim estarão em condições de reportar até que ponto as eleições terão sido livres e justas.

Queixas

De vários pontos do país continuam a chegar informações sobre o mau funcionamento das máquinas eleitorais, abertura tardia de assembleias de voto e outras situações anómalas. O grau de gravidade e o percentual de irregularidades comprovadas são determinantes para a avaliação da lisura do processo.
À margem de posicionamentos oficiais, observadores independentes do pa-
norama político congolês estimam que os problemas relatados não impedem que estas sejam consideradas as eleições menos turbulentas do país, que nunca conheceu uma transição pacífica ao longo dos 58 anos de independência.
Joseph Kabila está, pois, na iminência de ser o primeiro ex-Presidente a transferir o poder ainda vivo. O próprio substituiu o pai, Laurent Desire Kabila, vitimado por um atentado mortal.
Dezenas de canais televisivos locais, jornais diários, agências de notícias e demais plataformas mediáticas destacam a possibilidade de a RDC viver momentos inéditos. Os meios de comunicação social simpáticos ao Governo e partido, que não são poucos, convergem num ponto: a acalmia registada na maioria das cidades do país é atípica em períodos eleitorais.
Positivamente atípica, embora seja difícil monitorar um território com 2.344,858 quilómetros quadrados, divididos em 26 províncias. As principais urbes do país estão tranquilas. Em Kinshasa, a vida segue o curso normal. Ontem, as instituições públicas funcionaram, as praças estiveram movimentadas, autocarros e táxis circularam normalmente. Havia engarrafamentos monumentais em várias artérias. Apesar de ser véspera do Ano Novo, os estabelecimentos comerciais, de pequeno e grande porte, encerraram por volta das 18 horas. A vida prossegue depois das eleições.
A grande incógnita é o que se segue à divulgação dos resultados. “A imprevisibilidade é grande. Esta é a marca da RDC. Nada pode ser dado como certo. As análises va-riam muitas vezes durante o dia, porque os dados simplesmente mudam.”
A apreciação vem de um académico que pede para não ser identificado. Mostra no telemóvel dezenas de mensagens e vídeos recebidos em tempo real. É demasiada informação para ser processada tão rapidamente.
O melhor a fazer, sugere o académico, é analisar friamente os dados. “Não nos sobrepormos aos acontecimentos e esperar”. O barril de pólvora é latente, mas ainda é possível evitar  que o rastilho seja aceso.
Vale recordar que Emmanuel Ramazany Shadary, do partido governamental “Frente Comum para o Congo”, reivindicou vitória momentos após exercer o direito de voto.  “Logo à noite, serei proclamado novo Presidente da República do Congo”. Evidentemente, isso não aconteceu. Os prazos legais não o permitiriam.
Martin Fayulu, líder da coligação Lamuka, apontado vencedor do escrutínio em diferentes sondagens publicadas antes das eleições, denuncia um suposto esque-ma de fraude, montado desde o início.
Nas ruas, cidadãos comuns auguram a paz. De resto, sobram receios e teorias de conspiração assustadoras. O certo é que o eclodir de um conflito pós-eleitoral teria repercussões negativas nos nove países vizinhos, entre os quais Angola, que parti-lha uma vasta fronteira com a RDC.
   
Sem Net
Ao fim da manhã de ontem, as autoridades congolesas bloquearam o serviço de Internet em todo o território nacional. Servidores públicos e privados não estão acessíveis. A excepção vai para instituições e meios de comunicação social estrangeiros que dispõem de comunicação por satélite. Não havia, até ontem, qualquer informação oficial sobre o assunto.

  Quatro mortes e tensão marcam eleições

A RDC iniciou ontem a tensa espera pelo resultado final das presidenciais, que deve ser divulgado em 15 de Ja-neiro. Quatro pessoas, in-cluindo um polícia e um agente eleitoral, foram mortas no domingo, revelam agências internacionais.
Segundo o influente Conselho de Bispos Católicos da República Democrática do Congo, após dois anos de atrasos no país notoriamente instável, as eleições de do-mingo prosseguiram com “relativa calma”. Mas há relatos de confrontos nas assembleias de voto no leste da província de Kivu do Sul.
Embora a votação possa resultar na primeira transição pacífica do líder desde que o país conquistou a independência da Bélgica em 1960, analistas alertaram que a ameaça de reviravolta foi grande - devido a problemas na organização e desconfianças em relação ao actual Presidente cessante, Joseph Kabila, que se recusou a deixar o poder em 2016, após dois mandatos expirados.
Em Beni, Butembo e Yumbi, no leste da RDC, as eleições haviam sido canceladas pelo Governo por causa da situação de insegurança e sob o argumento de ameaça do vírus ébola. Mesmo assim, cidadãos improvisaram votação, confirmou o correspondente da DW no local, John Kanyunyu.
Durante o período pré-eleitoral, a credibilidade da eleição também foi prejudicada por atrasos e acusações de que as máquinas de votação electrónicas ajudariam a fraudar os resultados. Apesar das controvérsias, Kabila apareceu na televisão pública no domingo para felicitar os congoleses por terem votado “em paz e dignidade”.

Violência na votação

Na noite de domingo, a violência irrompeu numa assembleia de voto na área de Walungu, na província de Kivu do Sul, depois de um funcionário eleitoral ter sido  acusado de tentar manipular a votação a favor do candidato de Kabila, segundo informou o chefe de campanha da oposição.
“Uma multidão agitada entrou em confronto com a Polícia. Um agente da Polícia foi morto, o que lamentamos profundamente”, disse Vital Kamerhe, que fazia campanha paara Félix Tshisekedi.
O candidato de Kabila, Emmanuel Ramazani Shadary, mostrou-se optimista em declarações ao site de notícias Actualite.cd no do-mingo: “Vocês viram como eu fiz a minha campanha, e tudo o que aconteceu. Eu serei eleito. Serei Presidente”. 
Já o candidato da oposição, Félix Tshisekedi, um dos maiores rivais de Shadary e chefe do veterano partido da oposição União para a Democracia e o Progresso Social (UDPS), previu: “A vitória é nossa".

Favorito

As pesquisas de opinião fazem de Martin FAyulu - até recentemente um legislador pouco conhecido e ex-executivo do sector de petróleo - o claro favorito.
Fayulu obteve cerca de 44 por cento das intenções de voto, seguido por Tshisekedi, com 24 por cento, e Shadary com 18 por cento, de acordo com Jason Stearns, do Centro de Estudos do Congo, com  sede em Nova Iorque. Se as eleições forem “livres e justas”, um candidato da oposição certamente vencerá. No entanto, “o potencial de violência é extremamente alto”, alertou Stearns.
Metade dos entrevistados disseram que rejeitariam o resultado se Shadary - um ex-ministro do Interior de Kabila, que enfrenta sanções da União Europeia por repressão a manifestantes - fosse declarado vencedor.

 

Tempo

Multimédia