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Saída de Soumeylou Maiga abre crise política no Mali

Victor Carvalho

O Primeiro-Ministro do Mali, Soumeylou Boubèye Maiga, apresentou a sua demissão ao Chefe de Estado, Ibrahim Boubacar Keita, que a aceitou de imediato, revela um comunicado da Presidência.

Chefe de Estado maliano aceitou o pedido de demissão de Boubèya Maiga (na foto)
Fotografia: Dr

O pedido de demissão de Soumeylou Boubèye Maiga, que arrasta consigo todo o Executivo, no cargo há cerca de 16 meses, abre uma já esperada crise política no país uma vez que surge poucas horas antes de ser aceite para discussão na Assembleia Nacional uma moção de censura ao Governo.
Esta moção, que agora deve ser retirada, foi apresentada por deputados da oposição, mas também contava com o apoio de alguns parlamentares da maioria, o que já deixava perceber estar-se perante uma crise política extensiva ao próprio partido no poder.
Devido ao avizinhar desta crise, o Primeiro-Ministro apresentou a demissão, bem como a dos seus ministros, com o Presidente Ibrahim Boubacar Keita a aceitá-la de imediato e a agradecer pela “lealdade” ao longo dos 16 meses em que permaneceu em funções.
“Um Primeiro-Ministro será nomeado em breve e um novo Governo estabelecido, após consulta com todas as forças políticas da maioria e da oposição”, salienta o comunicado da Presidência da República do Mali.
Mas, os problemas do país estão longe de ser apenas políticos e ainda recentemente, a responsável do Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), Ute Kollies, tinha referido que o Mali “vive entre o caos e a esperança”. Numa conferência de imprensa realizada em Genebra para fazer frente à situação que resulta de conflitos constantes entre comunidades, ataques de “jihadistas”, mas também dos efeitos das alterações climáticas, Ute Kollies disse que é necessário considerar o in-vestimento em ajuda humanitária como se fosse um investimento em segurança.
O OCHA estipulou este ano para o Mali uma ajuda avaliada em 296 milhões de dólares, mas a verdade é que desde Janeiro o país apenas recebeu nove por cento desta verba. De acordo com o OCHA, 2,7 milhões de pessoas estão neste momento em situação de insegurança alimentar e 660 mil crianças com menos de cinco anos em risco de desnutrição aguda.
“Um homem com fome é um homem com raiva e é im-portante que os homens tenham algo para comer, assim como as suas famílias, a fim de estabilizar a população e regressar a uma situação mais favorável à mediação”, destacou na ocasião a referida responsável.
A comunidade interna-cional “olha para o Mali sob a lente do terrorismo e da imigração ilegal e, por isso, fornece uma resposta baseada, sobretudo, no reforço da segurança”, segundo Kollies.

A luta continua

O Exército maliano e a força francesa “Barkhane” anunciaram no fim-de-semana a neutralização de um grupo composto por 15 “jihadistas”, no centro do Mali, junto à fronteira com o Burkina Faso. O Exército maliano não mencionou a localização da operação e a participação da “For-
ça Barkhane”, mas fontes militares malianas afirmaram à AFP que a operação foi realizada com o apoio das Forças Armadas francesas, na fronteira com o Burkina Faso, a leste de Mopti.
Um oficial maliano na zona explicou que há uma semana que operações coordenadas tem sido levadas a cabo conjuntamente pelas tropas malianas e francesas contra alvos na fronteira com o Burkina Faso.
Uma outra fonte militar maliana indicou que a operação teve lugar na localidade fronteiriça de Petedougou, no Burkina Faso.
As Forças Armadas burkinabes e nigerinas estão informadas da operação conjunta FAMA/Barkhane, sublinhou a mesma fonte, confir-
mando o balanço do comunicado militar.
O Estado-Maior francês não comentou a operação, mas recentemente anunciou a extensão, desde o inicio do ano, da acção de Barkhane em Gourma (centro).
Ainda no fim-de-semana, um capacete azul foi morto e quatro outros feridos na sequência da explosão de um engenho no eixo Douentza-Boni, no centro do país, segundo um comunicado da Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização do Mali (Minusma).
Desde o desdobramento da Minusma em 2013, quase 200 capacetes azuis foram mortos, dos quais 16 desde o início deste ano de 2019, o que faz desta missão de manutenção da paz das Nações Unidas a mais perigosa no mundo.

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