Mundo

Tshisekedi, o senhor que se segue

Victor Carvalho

Félix Tshisekedi declarou ontem que será “ Presidente de todos os congoleses”. Pelos resultados provisórios anunciados pela Comissão Eleitoral (CENI), o líder da oposição na RDC  ganhou com mais de 38 por cento dos votos. Martin Fayulu, provisoriamente  em segundo lugar, anunciou que vai recorrer para o Tribunal Constitucional sobre o “golpe eleitoral”.  Bélgica  e França consideraram  o escrutínio “duvidoso” e o antigo colonizador  anunciou  mesmo  que vai levar “os surpreendentes” resultados  ao  CS da ONU, enquanto no terreno há o registo de quatro mortes.  

Líder opositor da União para a Democracia e o Progresso Social eleito para suceder a Kabila na Presidência da República
Fotografia: DR

Os congoleses foram confrontados às três horas da manhã de ontem com o anúncio oficial dos resultados provisórios das eleições presiden-
ciais de 30 de Dezembro, com a CENI a indicar Félix Tshisekedi como vencedor com mais de sete milhões de votos, o que lhe dá uma percentagem de 38,57 por cento dos votos.
Atrás dele, com menos um milhão de votos, ficou o outro candidato da oposi-ção, Martin Fayulu, seguido de Emmanuel Shadary, da “maioria presidencial” que teve o apoio de quatro milhões de votantes.
“Tendo obtido 7.051.013 votos válidos, ou 38,57 por cento, é proclamado provisoriamente eleito Presidente da República Democrática do Congo, o Sr. Tshisekedi Tshilombo Félix”, disse o presidente da comissão eleitoral, Corneille Nangaa,  a meio da madrugada.
Martin Fayulu, apontado até ontem como potencial vencedor das eleições por diversas organizações civis que acompanharam todo o processo eleitoral, obteve um total de 6.366.732 votos (34,83 por cento), enquanto Emmanuel Shadary arrecadou 4. 357.359, equivalentes a 23,84 por cento.
Segundo os dados da CENI, a taxa de participação foi de 47,56 por cento, o que equivale a dizer que dos cerca  de 40 milhões de congoleses que estavam aptos para votar apenas 18.329.318 o fizeram.
Estes resultados provisórios terão que ser oficialmente publicados até ao próximo dia 15, decorrendo até  a esta data um período para a apresentação de eventuais recursos.
As eleições de 30 de De-zembro, com 21 candidatos presidenciais, não se realizaram em todo o território, uma vez que a comissão eleitoral decidiu adiar para 19 de Março o acto eleitoral nas cidades de Beni, Butembo e Yumbi, devido à epidemia do ébola e aos conflitos dos grupos armados.
Inicialmente previstas para 2016, as eleições de 30 de Dezembro tinham sido adiadas duas vezes. O ainda Presidente Joseph Kabila governa desde 2001 um país rico em recursos naturais, mas marcado por sucessivas crises políticas e por um conflito armado que já provocou milhões de deslocados.

Sucessivos adiamentos

A reunião durante a qual a CENI aprovou os resultados provisórios foi longa e bastante cansativa, tanto para os que nela participaram como para os jornalistas e para uma enorme multidão que aguardava pela saída do “fumo branco”.
Antes da divulgação dos resultados, a imprensa foi chamada por três vezes para uma sala onde aguardou longas horas em vão pela chegada de Corneille Nangaa, o fleumático presidente da CENI que nos últimos dias mereceu uma atenção especial por parte da imprensa nacional e internacional.
Segundo uma fonte diplomática que acompanhou a proclamação dos resultados, durante duas horas os jornalistas e observadores eleitorais tiveram que ouvir os relatores da CENI darem números referentes às eleições provinciais, que se realizaram em 23 das 26 províncias do país, uma opção que causou alguma contestação mais musculada que teve que ser moderada pela intervenção da Polícia.
No exterior das instalações da CENI, a secretária-geral da coligação que apoia Martin Fayulu, Eve Bazaiba, gritava que a “população congolesa tinha já escolhido o seu Presidente da República, que todo o mundo conhece”.
Um dia antes da proclamação dos resultados provisórios, a Conferência Epis-
copal, num comunicado conjunto com a Igreja Cristo do Congo (protestante), apelava contra a fraude, o Papa Francisco pedia o respeito pelos resultados e até o Presidente Denis Sassou Nguesso insistia na calma e respeito pelo veredicto popular.
Aconteça o que acontecer a partir de hoje, a verdade é que a proclamação destes resultados reveste-se de um carácter histórico para a RDC, uma vez que sublinha o respeito pela Constituição que não permite mais do que dois mandatos presidenciais consecutivos.

  Martin Fayulu promete recorrer

Martin Fayulu, provisoriamente classificado em segundo lugar nas eleições da RDC, segundo a contagem da CENI, anunciou que vai recorrer ao Tribunal Constitucional.
Em declarações à imprensa internacional, Fayulu considerou que se está perante um “golpe eleitoral” que “altera a vontade que o povo expressou nas urnas”.
Para este candidato, a CENI cedeu à tentação de “travar” a vontade do povo e recordou que há poucos dias realizou-se uma reunião entre elementos da campanha de Tshisekedi e do gabinete de Joseph Kabila para acertos de uma estratégia comum para o período pós-eleitoral.
“Os resultados divulgados pela CENI não têm nada a ver com aquela que é a vontade do povo”, disse Martin Fayulu duas horas depois de saber dos resultados anunciados  pela comissão eleitoral.
Fayulu pediu também à Igreja Católica para divulgar os resultados que obteve da sua equipa de 40 mil observadores que registaram as estatísticas de votação publicadas em cada um dos centros de votação. O candidato denunciou que sabia da existência de um acordo para declarar Tshisekedi como vencedor. “Em 2006, a vitória de Jean-Pierre Bemba foi roubada. Em 2011, a vitória de Etienne Tshisekedi foi roubada. Em 2018, a vitória não será roubada a Martin Fayulu”, disse.
O Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, através de um comunicado do seu gabinete, exortou todas as partes, regionais e internacionais, para se absterem de fazer especulações de modo a que a “CENI possa conduzir o processo com a recomendável lisura”. Mais contundente, o ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Jean-Yves Le Drian, rotulou de “duvidosos” os resultados provisórios divulgados pela CENI, enquanto o presidente da Comissão da União Africana, Moussa Faki Mahamat, endereçou “felicitações ao povo e a todos os actores políticos, à sociedade civil e às instituições competentes e apelou para que consolidem a paz e a democracia no país”.
Para ele, é importante que toda a contestação aos resultados agora divulgados seja feita de forma pacífica e com recurso ao que está previsto na lei. A Conferência Episcopal, numa primeira reacção, disse que os resultados divulgados pela CENI não correspondem aos que estão na sua posse.
Admitia-se ontem em Kinshasa que a Igreja Católica pudesse convocar uma conferência de imprensa para então assumir uma posição mais consubstanciada.
Na rede social Twitter, o Secretário-Geral das Nações Unidas,  António Guterres, felicitou o povo congolês e garantiu o apoio da organização para a paz e a estabilidade no país.
Pouco depois, em Nova Iorque, a porta-voz, Stéphane Dujarric, afirmou que Guterres tinha também apelado a que todas as partes se abstenham de qualquer acção que viole a Constituição.


Tempo

Multimédia