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África do Sul declara estado de catástrofe

Victor Carvalho

A braços com uma profunda seca, que se prolonga há vários meses, a África do Sul está a atravessar um momento particularmente difícil da sua história.

População começou a recorrer a canais públicos de abastecimento de água e usar reservatórios nas suas residências
Fotografia: Rodger Bosch |AFP


A região mais afectada é aquela onde se situa a Cidade do Cabo, que está seriamente ameaçada de ficar sem uma gota de água potável a partir de meio do ano.
Para fazer face a essa situação e minimizar os riscos que advêm dos efeitos da seca, o governo decidiu proclamar o estado de catástrofe natural, estendendo-o a toda a extensão do território.As agências internacionais referem que a decisãofoi tomada  após uma “reavaliação da amplitude e da gravidade da seca actual”.
A partir de agora serão postos em prática “os planos de emergência, desencadeada a ajuda imediata e tomadas as medidas de construção necessárias”, refere o decreto assinado pelo chefe do Centro Nacional de Gestão de Situações de Emergência, Mmaphaka Tau.
A Cidade do Cabo, a segunda maior da África do Sul, tem sido a mais afectada por esta catástrofe natural que resulta da pior seca do último século, estando as reservas de água de tal forma baixas que se prevê que as torneiras fiquem secas a partir de meio deste ano.
Há duas semanas, as autoridades sul-africanas tinham apontado o dia 11 de Abril como o primeiro em que faltaria água nas torneiras, tendo depois feito uma reavaliação que aponta para o dia 11 de Maio.

População reduz o consumo


Preocupada e sensibilizada com a situação, a própria população decidiu dar o seu contributo reduzindo de forma substancial a média de consumo do precioso líquido, numa resposta a diversas campanhas lançadas pelas autoridades.
Como consequência, o prazo para a total falta de água voltou a ser dilatado no tempo, estando agora fixado no dia 4 de Junho. O sucesso desta acção popular está a ser politicamente reivindicado pelo principal partido da oposição sul-africana, a Aliança Democrática, que governa toda a região do Cabo Ocidental, onde está localizada a Cidade do Cabo.
Por isso, não é de estranhar que o líder dessa formação partidária, Mmusi Maimane, tenha proferido uma declaração pública de exaltação, devidamente citada pela agência EFE. “Celebramos juntos a notícia de que o \'Dia Zero\' foi empurrado para 4 de Junho de 2018 como resultado do consumo médio mais baixo até ao momento, de 529 milhões de litros por dia, durante a semana passada”, disse num agradecimento aos consumidores e certamente a pensar já nas eleições do próximo ano.
Mas, como sempre acontece, o sucesso tem um segredo. Neste caso o sucesso da campanha ficou a dever-se, essencialmente, à redução no uso de água para fins agrícolas, porque muitas quintas nalgumas províncias, que incluem a própria cidade, escolheram usar as reservas que lhes foram disponibilizadas em vez de utilizar água corrente.
Pelo sim pelo não, e para evitar que a situação piore ainda mais, as autoridades avisaram os habitantes para que continuem a cumprir as indicações oficiais, que limitam o uso diário de água a 50 litros por pessoa.
Algumas organizações de ajuda humanitária sedeadas na África do Sul temem que o resultado da seca possa fazer com que a Cidade do Cabo venha a ser a primeira grande cidade do mundo a ficar sem água.
Esta grave seca que atinge a zona, segundo os especialistas, é um fenómeno invulgar, já que não só resulta da escassez de precipitação que caracterizou a passada estação de chuvas, como do facto de o nível de chuva ter sido particularmente baixo também nos dois anos anteriores.
A Cidade do Caboé um importante pólo comercial e industrial, tendo um dos principais portos do país. A sua economia é baseada nos sectores de refinação de petróleo, automóveis, alimentar, químico, têxtil e construção naval. Por isso mesmo é considerado um dos principais centros financeiros da África do Sul, ficando atrás apenas de Joanesburgo.
Em 2007, altura do último recenseamento efectuado, a cidade tinha 3,5 milhões de habitantes. A área da Cidade do Cabo estende-se por 2455 quilómetros quadrados, sendo maior do que outras cidades da África Austral, resultando numa menor densidade populacional, cerca de 1.425 habitantes por quilómetro quadrado.

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