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António Guterres propõe reinício do processo de paz em Chipre

As duas entidades da ilha dividida de Chipre elogiaram hoje a intenção do secretário-geral da ONU de reiniciar o processo de paz, mas ainda não é seguro que este esforço implique conversações globais sobre a reunificação.

Secretário-geral da ONU, António Guterres
Fotografia: DR

O secretário-geral da ONU, António Guterres, repetiu hoje que pretende convocar uma reunião informal entre os líderes cipriotas grego e turco na presença das potências "garantes" da independência em 1960 - Grécia, Turquia e Reino Unido, logo após as eleições para a liderança cipriota turca, que decorrem em 11 de Outubro.

Na madrugada de 20 de julho de 1974, cinco dias após uma tentativa de golpe de Estado promovida por ultranacionalistas cipriotas gregos apoiados pela Junta Militar no poder em Atenas e destinado a impor a Enosis (a união de Chipre à Grécia), a Turquia invadiu Chipre, impondo a divisão da ilha. A operação foi justificada pela necessidade de proteger a população cipriota turca (cerca de um terço dos habitantes da ilha) das perseguições infligidas pela guerrilha dos ultranacionalistas cipriotas gregos da EOKA-B.

Planeada em duas fases, implicou a partilha do território e serviu para confirmar a ingerência e manipulação das grandes potências, numa região de decisiva importância estratégica. A autoproclamada República Turca de Chipre do Norte (RTCN), anunciada em 1983 e que ocupa o terço norte da ilha), é apenas reconhecida pela Turquia, que mantém no terreno mais de 35.000 soldados.

As numerosas rondas negociais que se prolongam há quase meio século não conduziram a resultados concretos e a última tentativa em 2017 terminou em ambiente de hostilidade. Guterres apelou a medidas destinadas a fomentar a confiança mútua e exortou as partes envolvidas a "evitarem qualquer acção unilateral que possa comprometer o sucesso futuro" das conversações.

"Estou totalmente comprometido na revitalização do processo político", disse Guterres. O Governo da República de Chipre, a "parte grega" da ilha internacionalmente reconhecida e Estado-membro da União Europeia (UE) desde 2004, saudou as observações de Guterres.

No entanto o porta-voz governamental adjunto, Panayiotis Sentonas, disse que as negociações não podem ser iniciadas enquanto a Turquia transgredir a lei internacional através do prosseguimento das prospeções de hidrocarbonetos na zona económica exclusiva (ZEE) de Chipre e ameaçar estabelecer-se em Varosha, um subúrbio abandonado da cidade de Famagusta situado junto à "linha verde", que separa as duas entidades.

O líder cipriota turco Mustafa Akinci, que enfrenta um forte desafio de candidatos da direita e do centro-esquerda, disse na sua conta oficial no Facebook que permanece empenhado em garantir um acordo de paz. Hami Aksoy, porta-voz do ministro turco dos Negócios Estrangeiros, considerou por sua vez que a iniciativa de Guterres não significa o regresso "automático" às conversações de paz.

"Não existem bases nem uma visão comum para um acordo entre as duas partes da ilha", disse Aksoy. O mesmo responsável indicou que a Turquia não participará numa nova ronda de conversações caso os cipriotas gregos não decidam previamente acordar uma partilha dos poderes de decisão com os cipriotas turcos a todos os níveis, num eventual governo federal. E indicou que a alternativa será o início das negociações com base num acordo entre dois Estados separados.

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