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As “pedras” que se colocam no caminho de Ramaphosa

Victor Carvalho

O novo Presidente da África do Sul, empossado ainda não faz uma semana, sabe que tem pela frente uma série de obstáculos políticos a ultrapassar, de modo a que o início da nova caminhada que ele prometeu no seu discurso sobre o estado da nação, se possa fazer sem sobressaltos de maior.

Substituto de Jacob Zuma tem a grande missão de unificar o partido e alcançar consensos políticos para vitória nas próximas eleições
Fotografia: Rodger Bosch| AFP

Para tirar do caminho as “pedras que estão a ser colocadas, antes do mais, Cyril Ramaphosa tem de arrumar a própria casa, que é como quem diz, tem de mobilizar as diferentes sensibilidades no seio do ANC, para que o partido chegue fortemente unido e mobilizado às eleições do próximo ano.
O afastamento de Jacob Zuma, sobretudo, o modo como ocorreu, não é de modo a satisfazer os que sempre estiveram ao seu lado e lhe deu o ânimo suficiente para que resistisse até ao fim, a pressão para assinar o pedido de demissão. Logo, é propício a fomentar algum espírito de divisão prejudicial, para que o ANC recupere em 2019 alguns dos votos perdidos nas anteriores eleições.
Muitos dos veteranos do ANC, sobretudo, os que estão nas zonas rurais, são apoiantes seguros do antigo Presidente, por muito que lhes digam e por mais provas que se lhes apresentem, sempre duvidam que Jacob Zuma seja mesmo culpado das acusações de nepotismo e corrupção que lhe são imputadas pela justiça.
Entre os apoiantes do antigo Presidente sobressai o nome de Dlamini Zuma, sua antiga esposa e a pessoa que ele queria que o sucedesse, tanto na liderança do ANC como da própria África do Sul.
Dlamini Zuma perdeu para Cyril Ramaphosa a corrida para a presidência do ANC, é uma diplomata de grande prestígio nacional e continental, fruto da longa presença à frente dos destinos da União Africana. Outro adversário, que o novo Presidente vai ter de enfrentar, é Julius Malema, líder do partido Combatentes da Liberdade Económica, mas que já foi o responsável pela forte e influente organização juvenil do ANC.
Não tem grande expressão política, pela sua postura é incómodo para quem quer obter consensos, visto tratar-se do que se costuma de-signar de verdadeiro “des-
mancha prazeres”, muitas das vezes está contra tudo e contra todos, sem que se sabia muito bem porquê.
A fazer jus à fama de “eterno rebelde”, Julius Malema, logo depois do primeiro discurso oficial de Cyril Ramaphosa, foi a público criticá-lo de for-ma particularmente violenta e politicamente gratuita.
Malema ainda goza de uma enorme popularidade junto da juventude sul-africana,  agora também no seio de algumas organizações de trabalhadores, acusou o novo Presidente de não apresentar qualquer plano concreto no seu discurso sobre o estado da nação.
Segundo ele, Ramaphosa limitou-se a dizer o que os sul-africanos queriam ouvir e “não o que vai fazer”. Em tom irónico, quando se referiu à promessa de Cyril Ramaphosa combater a corrupção, Julius Malema disse que para o fazer, “o Presidente vai ter de mandar prender os próprios amigos”.
Julius Malema chegou a ser um dos principais aliados políticos de Jacob Zuma, com quem se desentendeu por problemas raciais, é líder de um partido que tem actualmente 24 deputados.
Ele defende, entre outras coisas, a nacionalização dasminas do país e a redistribuição de terras, sem pagar compensações aos fazendeiros brancos.
Embora o ANC nunca o tenha levado muito à sério, desde que ele deixou o partido, a verdade é que o seu discurso incendiário e de ódio contra os sul-africanos brancos a quem acusa de terem o monopólio da economia, ganha adeptos à medida em que aumentam as dificuldades dos mais desfavorecidos.
Trata-se de um populismo extremamente perigoso, porque apela à divisão entre as pessoas e cataloga-as consoante a cor da pele, o que faz recordar um passado não muito distante que os sul-africanos querem, mas por vezes têm dificuldade de esquecer.

  Trunfos para gerir as fissuras no seio do partido ANC

 Cyril Ramaphosa não está desprovido (longe disso) de trunfos para jogar e capitalizar a seu favor na actual conjuntura, muito marcada pelos problemas que envolvem Jacob Zuma, e das fissuras que eles estão a provocar no seio do ANC, até porque se assim não fosse, não era necessário o desesperado ultimato lançado para que o anterior Presidente apresentasse a demissão, nas circunstâncias em que o fez.
Também nas eleições para a liderança do ANC, a corrida foi muito renhida, com Ramaphosa a vencer a ex-mulher de Jacob Zuma numa disputa cerrada e que até deu origem à recontagem de votos, mais um facto que indicia que o partido está fracturado.
Uma outra bandeira do novo Presidente tem a ver com o combate à corrupção. Neste capítulo, é curioso ver como o ANC vai lidar com o ajuste de contas que Jacob Zuma tem de fazer com a justiça. 
Falar em combater a corrupção e ignorar as acuações contra o antigo Presidente ou tentar camuflá-las com uma amnistia de última hora, pode ser uma contradição com um efeito perverso junto do eleitorado sul-africano.
Um dos grandes trunfos de Ramaphosa resulta do facto de sempre ter querido ser Presidente da África do Sul. Desde a saída de Nelson Mandela que se sentia “injustiçado”, pelo facto de terem sido catapultadas para a presidência outras pessoas, que não ele.
Por isso, durante muito tempo teve a oportunidade de pensar muito no que fazer e no que dizer quando o seu grande dia chegasse e atingisse  o seu objectivo, para o qual se preparou durante longos anos: ser Presidente da África do Sul.
Daí, não ser de estranhar o seu calculadamente ambíguo discurso sobre o estado da nação,  como disse Julius Malema falou mais de uma hora, mas pouco disse de concreto sobre o estado ac-tual da África do Sul e sobre o que pretende para o país, no espaço de tempo que vai até à realização das próximas eleições.
O que parece, é que o novo Presidente sul-africano está a priorizar a articulação interna no seio do ANC,  para  então  avançar com o seu programa de governo e com o nome das pessoas que o vão ajudar na execução.
Um outro trunfo de Cyril Ramaphosa é a elogiada capacidade para o diálogo construtivo, com o objectivo de conseguir consensos que façam as suas propostas andar.
Mais do que nunca, a África do Sul precisa de consensos, tanto no campo político como no social e fundamentalmente, no sector económico.
A larga experiência de lidar com os sindicatos, aliada à profunda inserção no mundo empresarial (é um dos principais empresários do país) dão-lhe os trunfos suficientes para levar de vencido o desafio para a criação de bases que possibilitem redinamizar a economia sul-africana,  que passa também pelo combate à corrupção.

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