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Ataques armados dificultam combate ao ébola em Beni

Oito civis foram mortos entre domingo e ontem, na cidade de Beni, no leste da República Democrática do Congo (RDC), durante um novo ataque atribuído ao grupo rebelde Forças Armadas Aliadas (ADF), disse um porta-voz do Exército à Lusa.

Forças governamentais lançaram ofensiva contra grupos rebeldes no Nordeste do país
Fotografia: DR


Alguns moradores da cidade, em protesto, atearam fogo, ontem pela manhã, à sede da autarquia, na província de Kivu do Norte, perto de Uganda, de acordo com um jornalista da AFP.
Os moradores da cidade denunciaram, há alguns dias, a inacção do Exército congolês e das Forças de Paz das Nações Unidas no país (Monusco), presentes na região, frente às ADF. Um manifestante e dois polícias foram mortos, no sábado na região, noticiou ontem a rádio Okapi.
Cerca de 70 civis foram massacrados em Beni e arredores pelo ADF, em represália à ofensiva do Exército congolês contra as suas bases a 30 de Outubro. Originalmente, as ADF eram rebeldes muçulmanos ugandeses hostis ao Presidente Yoweri Museveni, que acabaram por se estabelecer no leste da actual RDC em 1995.
O Exército congolês lançou as operações militares contra o grupo sem pedir o reforço dos capacetes azuis da Monusco. “Não podemos participar nas operações das FARDC (Exército congolês) se não nos convidarem”, disse, no domingo, o representante especial adjunto do Secretário-Geral da ONU na RDC, François Grignon.
“As operações lançadas a 30 de Outubro são as que o Exército congolês entendia como nacionais, sem apoio, sem planeamento, sem execução conjunta com a Monusco”, acrescentou o mesmo responsável nas duas declarações à rádio Okapi.

Efeitos no combate ao ébola
As autoridades da Saúde estão preocupadas com as consequências da insegurança e tensão em Beni na luta contra a epidemia de ébola na região. As várias manifestações que se têm realizado no nordeste, contra o massacre de civis, levaram as autoridades a suspenderem as actividades dos centros de controlo da doença nas cidades de Beni e Butembo.
“Todas as nossas actividades estão em causa: sensibilização, vacinação e enterros seguros”, afirmou o chefe do Comité Multissetorial de Resposta ao Ébola (CMRE), Jean-Jacques Muyembe, garantindo que o trabalho não irá parar. “Continuaremos presentes”, disse à agência France-Press.
A Polícia e o Exército congoleses recorreram a gás lacrimogéneo e tiros de aviso para dispersar os manifestantes que atacaram uma base de capacetes azuis à entrada de Beni.
Os manifestantes culpabilizam as Nações Unidas e as autoridades congolesas pela impotência face aos massacres atribuídos ao grupo armado das Forças Democráticas Aliadas, que alegadamente matou mais de 60 civis na região desde o início do mês de Novembro. No restante território, as operações de combate ao ébola, incluindo vacinação, decorreram com normalidade.
Jean-Jacques Muyembe adoptou uma posição mais moderada face à do Presidente do país, Félix Tshisekedi, que acredita ser possível erradicar a epidemia até ao final do ano. “Nunca disse que o vírus foi erradicado, mas, sim, que está sob controlo. Actualmente, o número de casos diminuiu significativamente”, referiu o responsável pelo CMRE.
O médico explicou que as autoridades estão a acompanhar 10 casos novos que surgem semanalmente, que indicam uma redução significativa desde Julho, quando o número alcançava 90 casos por semana.
“Há esperança de que até ao final do mês vamos controlar a epidemia”, reforçou, citado pela AFP.
A presença do vírus ébola na RDC foi reconhecida no início de Agosto de 2018, pelo então ministro da Saúde, Oly Ilunga. Desde então, este evoluiu para a segunda epidemia de ébola mais mortífera de sempre, com 2.197 mortos devido ao vírus, dos quais 2.079 destes confirmados em laboratório, de acordo com o mais recente relatório sobre a evolução da epidemia, divulgado pelo Ministério da Saúde da RDC.
O documento, com dados de 20 de Novembro, diz haver registo de 3.296 casos de infecção (3.298 confirmados em laboratório) desde Agosto de 2018. Desde o início da campanha de vacinação, em 8 de Agosto do ano passado, foram vacinadas 254.768 pessoas.

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