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Atentado de Bulawayo é teste à estabilidade

Victor Carvalho

A cidade de Bulawayo, velho bastião da oposição à ZANU-PF, partido que governa o Zimbabwe desde a proclamação da Independência, foi palco no sábado de um atentado à bomba contra o Presidente Emmerson Mnangagwa.

O atentado à bomba fez dois mortos e mais de 41 feridos incluindo a esposa do Presidente
Fotografia: DR

Bulawayo, cidade natal do grande rival de Robert Mugabe no período anterior à Independência, Joshua Nkomo (que deu o nome ao aeroporto local), situada muito perto da fronteira com o Botswana, é uma localidade onde a oposição sempre dominou, conquistando importantes vitórias nas anteriores eleições.
A explosão da bomba que matou duas pessoas e deixou feridas dezenas de outras, entre as quais a esposa do Presidente, Auxilia Mnangagwa, não atingiu qualquer vice-Presidente como foi erradamente relatado pela imprensa internacional, mas não deixa de ser um acontecimento de relevante importância, sobretudo pelo facto de se estar a pouco mais de um mês da realização das eleições, previstas para 30 de Julho.
E, a importância mais relevante do atentado, resulta do facto dele ser, nesta altura, um verdadeiro teste à estabilidade no país, quer pelo efeito de contágio que pode ter, tornando mais perigosas as actividades de campanha eleitoral, quer pelo modo como as autoridades poderão reagir.
Para já, numa primeira reacção a este atentado, o vice-Presidente Kembo Mohadi, que foi erradamente dado como tendo ficado ferido, garantiu que o Governo está habituado a lidar com este tipo de situações, confidenciando não ser a primeira vez que Emmwerson Mnangagwa é vítima de um atentado desde que está no poder.
Estas palavras, tranquilizadoras para quem temia uma série de acções de represália físicas sobre a oposição, são uma tentativa das autoridades para passarem a mensagem de que a estabilidade não está ameaçada e que o período que se segue até à realização de eleições não será substancialmente alterado.
 
Politização dos generais

Mas, a verdade é que este atentado surge numa altura em que, nunca como agora, os generais zimbabweanos tiveram tanto poder, não obstante o facto de terem trocado as fardas por fatos de fino recorte, as casernas por modernos gabinetes e as armas por modernos telefones celulares através dos quais acompanham tudo o que se passa no país e no Mundo.
Esta nova classe de políticos, promovidos pelo Presidente Emmerson Mnangagwa, também com um preenchido passado militar, tem no ministro dos Negócios Estrangeiros, Sibusiso Moyo, a sua expressão mais relevante por ser ele que tem a missão de gerir a política e a imagem externa do país e, por inerência de funções, a coordenação de um vasto programa que visa a captação de investimentos estrangeiros.
Este facto obrigou-o a suavizar o discurso, adoptando-o a uma linguagem diplomática menos imperativa mas suficientemente incisiva para passar a imagem de um novo Zimbabwe.
Nas últimas eleições, realizadas há cinco anos, o actual ministro dos Negócios Estrangeiros era mais conhecido como o major-general Moyo, comandante do Exército responsável pelas operações militares nas províncias, especialmente na cidade de Bulawayo onde aconteceu  o atentado.
A pouco mais de um mês da realização de eleições, antigos militares como o major-general Moyo são os novos heróis do Zimbabwe, as pessoas em quem o povo parece confiar para cicatrizar as feridas do passado.
Muitas dessas feridas, curiosamente, foram feitas precisamente por homens como o novo ministro dos Negócios Estrangeiros num passado a que ninguém parece querer voltar, mas que alguns ainda não conseguiram esquecer.
Centenas de observadores internacionais e de jornalistas estrangeiros são esperados em Harare para acompanharem as eleições de 30 de Julho, tendo-lhes já sido garantida pelo Governo  uma total liberdade de movimentos durante o exercício do trabalho.
Tendo em conta que o Zimbabwe, no passado, sofreu os efeitos de uma extrema violência eleitoral, as garantias agora dadas pelo Governo foram bem recebidas pelas organizações internacionais que vão estar representadas no país, mas acabam de ser colocadas duramente à prova pelo rebentamento de uma bomba num estádio de futebol em pleno bastião da oposição.

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