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Auto-afirmação do Curdistão assusta a Turquia e o Iraque

Altino Matos

O Irão e a Turquia advertiram a comunidade internacional que não vão permitir a auto-afirmação dos curdos por pôr em risco a estabilidade da região, numa altura em que os principais actores estão alinhados com o esforço desenvolvido na Síria e no Iraque para derrubar os grupos extremistas.

Forças iraquianas começaram a tomar posições desde ontem os territórios dominados pelos curdos
Fotografia: AHMAD AL-RUBAYE | AFP


Neste momento, iranianos e turcos, que mantêm uma grande diferença política e ideológica, com grande pendor religioso, fizeram pequenos acertos técnicos ao nível operacional, como o encerramento das suas fronteiras, para impedir a circulação dos curdos e dificultar a criação de condições objectivas para sua auto-afirmação.
O secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irão, Ali Shamkhani, disse que os países da região devem ser os primeiros a reconhecer que não existem condições políticas para a Independência dos curdos, porque, justificou, “abriria caminho a uma desgovernação que levaria a descalabro total, de forma tão paradoxal, dentro do esforço desenvolvido pela estabilidade do Iraque e da Síria.” A agência iraniana de notícias “Irna”, confirma que o Governo de Hassan Rohani está a trabalhar para manter a sua fronteiras seguras e longe de qualquer ameaça de grupos extremistas ou de forças curdas.  
Em resposta à preocupação dos Governos turco, iraniano ou iraquiano, o Governo Regional do Curdistão (KRG) disse que nunca teve a intenção de entrar em guerra com o Exército do Iraque, nem tão-pouco pôr em perigo os países limítrofes do seu território encravado principalmente no Iraque.
O ministro das Relações Exteriores curdo, Falah Mustafa Bakir, em entrevista à CNN, garantiu não e o Iraque está em desacordo em relação ao referendo pela independência curda, considerado como ilegal por Bagdad, o que deu lugar a uma intervenção militar iraquiana na cidade de Kirkuk.
Falah Mustafa Bakir disse  ser “necessário que um diálogo entre o Governo Regional do Curdistão e o Iraque para que se chegue a um mútuo entendimento". O ministro acrescentou que a disputa não é sobre petróleo ou a bandeira nacional mas sobre o futuro das duas nações. O KRG e o Governo central liderado pelos xiitas em Bagdad estão em desacordo desde o referendo de 25 de Setembro e seu forte apelo à independência curda. As tensões entre as duas partes  espalharam-se pela cidade petrolífera multiétnica de Kirkuk, que as forças de Peshmerga (curdas) tomaram conta em 2014 quando as forças de segurança iraquianas entraram em colapso diante de uma investida do Estado Islâmico.
As autoridades do Curdistão iraquiano rejeitaram no domingo a exigência do Governo iraquiano de anular os resultados do recente referendo sobre a independência da região como pré-condição para as futuras negociações de paz. Os líderes curdos, reunidos para discutir a crise na cidade de Dokan, reiteraram a sua proposta de “resolver pacificamente” a crise entre a região e Bagdad, afirmou Hemin Hawrami, assessor do presidente do Governo regional curdo, Masoud Barzani, no seu Twitter. O encontro em Dukan entre o Partido Democrático do Curdistão (KDP) e a União Patriótica do Curdistão (PUK) terminou. “A boa notícia é que reiteramos a nossa unidade nacional perante toda a pressão. Estamos disponíveis para alcançar uma solução pacífica para o actual impasse na área, mas rejeitamos uma opção militar, apesar de estarmos preparados para nos defendermos”, disse Hemin Hawrami.
Segundo a Reuters, no encontro compareceram o actual presidente da região do Curdistão iraquiano, Massoud Barzani, o presidente iraquiano Fuad Masum e Hero Talabani, viúva de Jalal Talabani, líder curdo que morreu nesse mês.
Apesar de renovar a sua proposta de resolução pacífica, as autoridades curdas descartaram aquilo que consideram como “ameaças militares” por parte das tropas iraquianas em relação às forças peshmerga e se comprometeram a defender o território curdo.

  Bagdad pôs em marcha programa para controlar o território

O Governo iraquiano acusou as autoridades curdas no domingo de levarem combatentes dos separatistas do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) para a cidade de Kirkuk, que está sob disputa, e disse que considerava o movimento uma “declaração de guerra”.
Vahal Ali, um assistente de imprensa do presidente do Governo Regional do Curdistão (KRG), Massoud Barzani, negou a acusação. “Isso é falso, não há PKK em Kirkuk, apenas Peshmerga”, disse à Reuters, referindo-se às forças militares KRG.
Num comunicado publicado após uma reunião presidida pelo primeiro-ministro Haider al-Abadi em Bagdad, e atendido por altos comandantes militares e de segurança, o Governo do Iraque disse que procuraria impor a sua autoridade sobre Kirkuk e outras áreas em disputa. A liderança curda do Iraque rejeitou no domingo uma demanda do Governo iraquiano para cancelar o resultado de um referendo de independência como condição prévia para conversas para resolver a disputa.
Barzani e outros líderes curdos, que se reuniram para discutir a crise na cidade de Dokan, renovaram a sua oferta de “resolver pacificamente” a crise com Bagdad.
Eles rejeitaram o que eles descreveram como “ameaças militares” das forças iraquianas contra combatentes de Peshmerga curdos e se comprometeram a defender o território curdo em caso de ataque. O KRG e o Governo central liderado pelos xiitas em Bagdad estão em desacordo desde o referendo de 25 de Setembro e seu forte apelo à independência curda. 
As tensões entre as duas partes se espalharam pela cidade petrolífera multi-étnica de Kirkuk, que as forças de Peshmerga controlavam.

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