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“Bandeira do apartheid” pode abandonar as ruas

Victor Carvalho

A Fundação Nelson Mandela entregou  num tribunal de Joanesburgo um processo judicial para que seja proibida a exibição em público da bandeira sul-africana que vigorava  no tempo do apartheid.

Bandeira representa para milhões de sul-africanos tempos de discriminação e vergonha
Fotografia: Marcelo Casall Jr.

Na base desta decisão a Fundação Nelson Mandela diz estar o facto de que essa bandeira, que ainda é usada em actividades públicas nalgumas regiões da África do Sul, representa para milhões de sul-africanos o “símbolo da discriminação e da vergonha” e mais não é do que uma apologia aos “crimes contra a humanidade que foram cometidos pela minoria branca num determinado período da história do país”.
Nalgumas regiões sul-africanas foram já anteriormente desencadeadas tentativas junto da Justiça para proibir a exibição dessa bandeira, mas todas elas fracassaram com o argumento de que isso representaria uma “limitação” da liberdade de expressão.
A questão da utilização, que ainda é permitida, da bandeira que vigorou no período do apartheid, que parecia estar adormecida, voltou à ribalta quando re-centemente ela foi profusamente exibida como um símbolo numa marcha denominada “Domingo Negro”, realizada para protestar contra a morte de alguns fazendeiros brancos em Outubro do ano passado.
Essas mortes ocorreram na sequência de protestos por parte dos trabalhadores de diversas fazendas que  exigiam salários mais altos e melhores condições de trabalho.
Durante os debates que se seguiram a essa marcha a Fundação Nelson Mandela, perante o silêncio das autoridades, lamentou que “alguns sul-africanos ainda não se tenham convencido de que o apartheid, por si só, foi um enorme crime cometido contra a humanidade” sendo, por isso, “gratuito exibir símbolos que celebram a humilhação de milhares de vítimas”.

Criada em 1928


A bandeira com as cores laranja, branca e azul foi criada em 1928, acabando por ser um símbolo da era do apartheid inspirada na bandeira da Holanda.
Foi a bandeira oficial da África do Sul até 1994, quando foi substituída por outra mais colorida e que representa a “Nação Arco-Íris”, nome pelo qual o país passou a ser conhecido depois do fim da era da apartheid, com reconhecimento e a aprovação oficial do então Presidente Nelson Mandela e de Cyril Ramaphosa, que na altura era um alto dirigente do Congresso Nacional Africano.
Recentemente, uma organização que representa a comunidade “afrikaans” disse compreender que a bandeira do apartheid pode “ofender uma parte da população”, mas defende que ela não deve ser banida porque “representa um período importante da história da África do Sul”.
Em 2010, por ocasião da realização do Campeonato do Mundo de Futebol na África do Sul, a bandeira do apartheid foi impedida de ser exibida no Estádio da Cidade do Cabo por decisão então tomada pelas autoridades locais.
“A antiga bandeira sul-africana não é reconhecida como bandeira nacional", declarou na altura à imprensa local Dan Plato, responsável do governo local, reconhecendo que essa bandeira provocou uma “certa vergonha” no passado.
Pegando no exemplo do que então se passou na Cidade do Cabo, a própria FIFA decidiu estender a todos os outros estádios sul-africanos que acolheram jogos do mundial a proibição de exibição dessa bandeira.
Esta decisão da FIFA surgiu depois de se verificar alguma divisão dos responsáveis locais sul-africanos em relação a esse assunto. Enquanto uns, como na Cidade do Cabo, decidiram proibir a exibição da bandeira, outros estavam a autorizá-la. Por isso, a FIFA decidiu estender a proibição a todos os estádios, sob o argumento de que o Mundial de 2010 era considerado um “marco da luta contra o apartheid”.
Dentro de dias se saberá se essa bandeira continuará a ser exibida de modo envergonhado por alguns saudosistas do passado ou se, como defende a Fundação Nelson Mandela, passará a ser uma peça que apenas tem lugar nos museus.

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