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China anuncia nova era na relação com África

Miguel Gomes | Pequim

A oitava edição do Fórum de Centros de Pesquisa Chi-na-África teve início ontem no complexo estatal Diaoyutai, em Pequim, na China. A agenda do encontro é marcada pelo anúncio de uma nova era na relação entre o continente africano e o gigante asiático.

China acolhe Fórum de Centros de Pesquisa de África
Fotografia: DR

Pretende-se que a nova fase seja marcada por uma maior aproximação entre a academia africana e chinesa com o objectivo de reforçar o conhecimento mútuo e melhorar a cooperação entre as duas partes. Também a comunicação social foi convocada a participar neste esforço contra aquilo que os chineses e alguns africanos classificam de “campanhas de desinformação com origem nos países ocidentais”.
O fórum foi inaugurado pelo vice-ministro das Relações Exteriores da China, Chen Xiaodong, que advogou por um novo “estatuto nas relações entre a China e o continente africano, com um maior envolvimento das universidades e centros de pesquisa”.
“Defendemos ainda um maior engajamento da c-municação social chinesa e africana para contrapor as histórias e campanhas negativas que são publicadas sobre a relação entre as duas partes”, frisou o dirigente chinês.
A doutrina e a retórica do regime chinês em relação à cooperação com o continente africano actuam qua-se sempre em oposição ao postulado ocidental: a China defende os princípios da não-interferência no sistema político e não condiciona o relacionamento à implementação de determinadas directrizes políticas.
No entanto, os novos rumos da cooperação sino-africana - que começaram a ser implementados nos últimos anos - também parecem ser motivados pelas críticas de alguns sectores africanos e internacionais, que acusam aquele país asiático de aproveitamento da mão-de-obra local, da falta de respeito pelo ambiente e da exploração excessiva dos recursos naturais africanos.
Nos últimos dez anos, a China tornou-se no maior parceiro comercial do continente africano e destinou mais de 110 mil milhões de dólares para diferentes países e projectos.
O representante da União Africana (UA) na China, Rahamatalla Mohamed Osman Elnor, frisou que o encontro visa também reforçar a implementação da Declaração de Pequim, assinada em Setembro de 2018 durante o Fórum de Cooperação China-África.
A declaração de intenções foi desenhada com as contribuições das duas partes e está alinhada com a Agenda 2063 da União Africana, que genericamente defende um forte investimento em infra-estruturas, a paz e a segurança no continente, ao mesmo tempo que pretende reforçar a recém-criada Zona Africana de Comércio Livre.
Além dos discursos oficiais, o pesquisador sul-africano Philani Mthembu, director-geral do Instituto para o Diálogo Global, aproveitou a ocasião para lembrar que, apesar da convergência de interesses com a China, o continente africano pode continuar a diversificar as suas fontes de financiamento.
“Segundo o Banco Mundial, África vai necessitar de 170 mil milhões de dólares anualmente para atingir os objectivos de investimento em infra-estruturas. Por isso, devemos explorar os relacionamentos triangulares que promovam novas oportunidades, porque a China não terá possibilidades de acompanhar este nível de necessidades”, disse Mthembu durante o seu discurso.
João Salvador Neto, embaixador de Angola na China desde Fevereiro de 2018 (sucedeu ao embaixador Garcia Bires), representa o país no encontro.
Estão ainda presentes jornalistas, professores universitários e pesquisadores de mais de 40 países africanos.

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