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Condé faz "mea culpa" como mediador da crise

Eleazar Van-Dúnem

Alpha Condé, o Chefe de Estado da Guiné Conacri, admitiu na quinta-feira, em Paris, que na qualidade de presidente em exercício da União Africana, falhou na gestão da mediação da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) e da entidade continental no que se refere à crise guineense e defendeu a necessidade de alterar a Constituição da Guiné-Bissau.

Comunidade internacional volta a manifestar séria preocupação com crise na Guiné-Bissau
Fotografia: Seyllou |AFP

Em declarações à imprensa francesa, Alpha Condé lamentou não ter anunciado em Conacri o nome do primeiro-ministro que fora acordado para a Guiné-Bissau. Disse não o ter feito para respeitar a soberania da Guiné Bissau e para preservar o seu homólogo, José Mário Vaz, que não está a cumprir um Acordo com o qual todas os actores políticos guineenses concordaram.
“Na Constituição da Guiné-Bissau, o Presidente não tem poderes, é um pouco como a rainha de Inglaterra ou o presidente alemão. E isto quando ele é eleito por sufrágio universal, o que já é uma contradição”, afirmou.
A CEDEAO, admite, falhou a oportunidade. “Devíamos durante a transição ter ajudado a Guiné-Bissau a modificar a Constituição. Mas há acordos que foram assinados: é o partido maioritário guineense que designa o primeiro-ministro. No caso o PAIGC. Convencêmo-los a prescindir deste direito e que o presidente apresentasse nomes”.
Para Alpha Condé, trata-se de aplicar os Acordos de Conacri que não foram aplicados pelo actual Presidente da Guiné-Bissau. Ou seja, defende que é preciso voltar ao Acordo de Conacri, que foi aceite por todos.
“Admito que haja uma parte minha de culpa: para respeitar a soberania da Guiné-Bissau não quis anunciar o nome do primeiro-ministro em Conacri. Deixei essa tarefa para o presidente. Enganei-me ao fazer isso. Se toda a gente lá se encontrava, mais valia ter anunciado o nome do primeiro-ministro. Tanto mais que toda a gente estava de acordo com isso. Pequei por falta de vigilância, mas fi-lo por respeito para com o presidente Vaz que ainda assim é o presidente da Guiné-Bissau”.
A solução, reiterou, passa por um regresso ao Acordo de Conacri “porque este é a sequência dos acordos anteriores de Bissau, Conacri só o veio confirmar. Ou seja, a solução passa por um regresso ao Acordo de Conacri”.
Se o Presidente em exercício da União Africana fala no regresso ao Acordo de Conacri, o primeiro-ministro da Guiné Bissau diz que “não sei se ainda vale a pena falar do Acordo de Conacri”.
Em declarações proferidas à agência Deustche Welle, Umaro Sissoco crítica a liderança do PAIGC e afirma que este é que não quer cumprir o Acordo de Conacri . Para o primeiro-ministro, a crise na Guiné-Bissau precisa de “uma solução interna”.
À margem da Conferência da ONU sobre o Clima, que terminou ontem, a DW África entrevistou Umaro Sissoco que cumpre, hoje, o seu primeiro ano em funções como primeiro-ministro.
O Chefe do Governo guineense mostrou-se confiante na melhoria da crise política com a realização das eleições do próximo ano e afirmou que, para a Conferência da ONU sobre o Clima de 2018, o “Parlamento já está a funcionar na sua plenitude”.
Umaro Sissoco Embaló diz que “já nem fala do Acordo de Conacri” porque foi a actual administração do PAIGC que o “desrespeitou”. Por isso, acrescenta: “não sei se ainda vale a pena estarmos a falar do Acordo de Conacri porque ninguém tem nada de substância”.
Uma visão que não é partilhada pela comunidade internacional, que voltou a manifestar a sua preocupação com o aumento da tensão política no país.
Num comunicado divulgado após mais um encontro, o  P5 – integrado pela União Africana, Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental  (CEDEAO), Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, União Europeia e Nações Unidas - volta a reafirmar que o “Acordo de Conacri, assinado em Bissau a 10 de Setembro de 2016, continua a ser o principal quadro para uma resolução da crise” e pede aos políticos guineenses para colocarem “os interesses da Nação no centro das suas acções”, para demonstrarem “contenção e moderação” e expressarem os seus “pontos de vista e de discórdia de forma pacífica”.

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