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Covid-19: Vendedores de rua desafiam a doença para fugir à fome em Maputo

Em todo o mundo, as recomendações são de distanciamento devido à Covid-19, mas os vendedores de rua em Moçambique desafiam a doença, vão ao encontro de quem passa e juntam-se em mercados informais, procurando fugir à fome.

Fotografia: DR

Com os produtos em sacos de plástico ou nas mãos, homens, mulheres, adolescentes e até crianças circulam por avenidas, ruas, paragens de transportes e outros lugares movimentados para conseguir “levar algum dinheiro para casa”. “A minha loja, agora, são as minhas mãos”, lamenta Jorge Olímpio, 36 anos, pai de quatro filhos e com a mulher grávida do quinto, enquanto segue um grupo de jovens que passa pela rua, exibindo as sapatilhas que tem nas mãos.

“De tanta fome, quase levei a minha família até ao posto da polícia do meu bairro para pedir abrigo e comida”, revela o vendedor de sapatos, que tinha uma banca no passeio da avenida Guerra Popular, na baixa da capital moçambicana. 

A 13 de Março, o Conselho Autárquico de Maputo ordenou a retirada de todos os comerciantes que exerciam actividades em locais impróprios, desde passeios, estradas e muros na cidade, o que levou, na altura, a um motim dos vendedores em protesto da medida.

Em Maputo, vende-se um pouco de tudo nas ruas: bolos, salgados, frutas, ovos cozidos, ginguba torrada, castanha de caju, sumos, água, sapatos, produtos de limpeza, roupas, cosméticos e até acessórios para carros. Alguns produtos vão carregados à cabeça, outros pendurados no ombro e pescoço e uns tantos nas mãos.

“As minhas filhas cresceram graças a este negócio”, conta Jorge Olímpio. Desde que se proibiu a venda nos passeios, a polícia moçambicana tem estado nas ruas e avenidas a expulsar os vendedores que insistem em voltar e até apreende-lhe os produtos. Sempre que vêem o fardamento da polícia, os vendedores arrumam os produtos à pressa em sacos de plástico e escondem-se.

“Corremos da doença, corremos da polícia, sob risco de ser atropelados”, desabafa Jorge Olímpio, enquanto volta a retirar as sapatilhas brancas do saco de plástico, logo depois de os agentes passarem. A renda de casa está atrasada há quatro meses e durante as consultas pré-natais a médica reclamou da desnutrição da esposa. “Eu olhei para ela e perguntei: o que vou fazer? Isto está uma desgraça”, conta.

Marta Samuel, viúva e mãe de três filhos, tem medo de ser apanhada pela polícia, que já levou os seus dois baldes de chamuças (cada uma a cinco meticais, seis cêntimos de euro), mas ainda assim volta à rua. “Só vendo praticamente para as pessoas que já me conhecem e gostam das minhas chamuças”, disse, sem esconder o receio: “Ando assustada por causa da polícia”.

O marido era a única fonte de rendimento e quando morreu, há dois anos, Marta, 36 anos, apostou na venda de chamuças para manter a casa.
Nas ruas, vendia um balde de 150 chamuças em menos de duas horas, mas actualmente leva mais de três e, às vezes, ainda regressa a casa com algumas.

Ao invés de se afastar, o vendedor de rua tem de se aproximar cada vez mais das pessoas para vender. Disso sabe bem um adolescente de 18 anos, que prefere o anonimato, que vende 'matoritori', um doce feito à base de côco ralado, num terminal de transportes da baixa de Maputo. Natural da província de Gaza, viajou para a capital atrás de melhores oportunidades para poder ajudar a família, depois de cedo ter perdido o pai.

“Sempre que consigo algum dinheiro, envio para a minha mãe e quando posso vou até lá entregar pessoalmente”, conta, acompanhado de outros quatro rapazes que também vendem 'matoritori'. Confessa que não tem conseguido mandar dinheiro nos últimos tempos, pois sequer consegue ganhar o suficiente para se alimentar.

“Não há dinheiro por causa do coronavírus”, lamenta um dos adolescentes. Se antes conseguiam voltar a casa às 14:00 com a venda feita, hoje, com a Covid-19, só conseguem sair das ruas pelas 21:00, às vezes sem dinheiro e sob risco de não encontrar transporte.

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