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Cyril Ramaphosa quer seguir o exemplo de Nelson Mandela

Victor Carvalho

O novo Presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, proferiu sexta-feira à noite no parlamento um discurso no qual fez uma exposição sobre aquilo que deveria ser o actual estado da nação sul-africana, mas que acabou por se transformar na apresentação das linhas básicas do seu programa de governo.

Chefe de Estado Cyril Ramaphosa já delineou o seu caminho usando os feitos do antigo líder Nelson Mandela para dar conforto
Fotografia: Nsiep Manie | Pool | AFP

Ramaphosa, que estava a ler o discurso num moderno Ipad, o que de forma simbólica pode marcar um novo estilo de governação, arrancou fortes aplausos dos deputados quando começou por agradecer a paciência que o povo sul-africano teve para suportar tudo o que se passou durante a última semana, marcada por uma grande “turbulência política”.
Ainda nos agradecimentos, agora sublinhado por fortes assobios, o novo Presidente não deixou de falar em Jacob Zuma, sublinhando e enaltecendo o seu “gesto patriótico” de apresentar a demissão a favor da “unidade do povo sul-africano e do próprio ANC”.
Perante dignatários provenientes de todo o mundo, entre os quais estava o presidente do parlamento angolano, Fernando da Piedade Dias dos Santos, Cyril Ramaphosa, que no dia anterior havia sido eleito no parlamento como novo Presidente da África do Sul, sublinhou a necessidade dos sul-africanos se juntarem a si para continuarem juntos a “longa caminhada” iniciada por Nelson Mandela, de modo a promover o combate contra a corrupção, a pobreza, a divisão racial, a promoção da igualdade entre homens e mulheres e a geração de emprego para a juventude.
“Estou pronto para continuar, com todos vós, a longa caminhada que iniciei ao lado de Nelson Mandela para a construção de uma sociedade na qual todos possamos ser livres e iguais perante a lei”, sublinhou naquilo que pode ser encarado como uma alusão indirecta aos problemas que o seu antecessor provavelmente vai ter que resolver com a justiça.
Ramaphosa, disse ainda que está empenhado em trabalhar para a melhoria dos serviços de saúde e na promoção de uma melhor e mais célere distribuição da terra, de modo a que “todos os sul-africanos possam aspirar a ter uma vida melhor”.
Desde que assumiu a liderança do Congresso Nacional Africano, Cyril Ramaphosa  colocou sempre especial ênfase na criação de uma plataforma contra a corrupção, recorrendo a uma ideia que já havia sido avançada por Nelson Mandela, mas que os seus sucessores, Thabo Mbeki e Jacobe Zuma, foram deixando morrer. “Dediquei este último ano a recordar a memória de Nelson Mandela e a rever nos seus exemplos e ensinamentos a inspiração para que possamos construir uma sociedade mais justa e igualitária”, referiu.
Ramaphosa, apontou também a criação de emprego como uma prioridade básica para a promoção do bem estar das famílias e para o início de um amplo processo de reestruturação da economia sul-africana.
“Quase metade da nossa juventude está no desemprego. Trata-se de uma situação inaceitável e contra a qual todos teremos de trabalhar”, sublinhou. Mas, pelo que se viu, aquilo que era para ser um discurso sobre o “estado da nação” acabou por se transformar na apresentação de um programa de governação com o qual Cyril Ramaphosa agora se compromete perante o povo sul-africano.

Programa de governo
Este compromisso, na falta de tempo para ser mais objectivo, pois apenas na véspera havia sido eleito como Presidente da República, assenta em pegar naquilo que foi o pensamento de Nelson Mandela, adequá-lo aos dias e às necessidades de hoje e dar-lhe um certo cunho pessoal.
Depois da decepção que para si constituiu o facto de não ter sido escolhido por Nelson Mandela como seu sucessor natural, Cyril Ramaphosa está agora empenhado em mostrar que está bem preparado para desempenhar esse papel.
Essa preparação foi conquistada pelo tempo e pela experiência que viveu fora da política, quando se transformou num dos empresários mais ricos do país e  numa personalidade com uma forte ligação aos sindicatos.
A simbiose entre a classe empresarial e os trabalhadores, por via dos sindicatos, coloca-o numa situação amplamente privilegiada para redinamizar com êxito a economia e assim aumentar o número de empregos, sobretudo para os jovens.
Ao mesmo tempo, Ramaphosa sabe que não pode deixar de erguer a bandeira do combate à corrupção, até para marcar a diferença em relação ao seu antecessor. Por isso aguarda-se na África do Sul, com grande expectativa, pelos próximos dias para se saber quem ele irá escolher para o governo.
Pelos nomes que indicar se saberá até que ponto está disposto a ir para honrar o tal legado que Mandela não lhe deixou mas que ele agora quer recuperar.
Outro indicador, este mais ao nível do partido que dirige, será dado pelo modo como o ANC irá tratar os múltiplos problemas que envolvem Jacob Zuma, uns judiciais e outros políticos. Trata-se de um importante teste à coesão interna do partido que governa o país e que foi recentemente colocada à prova com o braço de ferro mantido durante demasiado tempo entre os apoiantes do presidente do partido (Cyril Ramaphosa) e os do ex-presidente da República (Jacob Zuma).
A oposição, essa, está à espreita e não deixará escapar qualquer oportunidade para que o ANC prossiga a sua tendência de queda de popularidade, acentuada nas últimas eleições com a perda nas grandes cidades, à excepção da Cidade do Cabo onde venceu graças, curiosamente, à enorme popularidade que lá na altura tinha Jacob Zuma.

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