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Donald Trump soma e segue

Osvaldo Gonçalves

O facto de os Estados Unidos da América abandonarem o Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas, numa altura em que cresciam, em todo o Mundo, as denúncias de que milhares de crianças, filhas de imigrantes, estavam a ser mantidas separadas dos pais, em celas, nas instalações da guarda de controlo de fronteira no Sul do Texas, leva a questionar se tudo isto é mera coincidência.

Decisão de abandonar Conselho de Direitos Humanos surge quando os EUA sofrem críticas por separar famílias de imigrantes
Fotografia: DR

A decisão foi anunciada na terça-feira, pelo secretário de Estado Mike Pompeo e pela embaixadora dos EUA na ONU, Nikki Haley. Esta disse que a saída vem “depois de nenhum outro país demonstrar coragem para se juntar à nossa luta para reformar esse órgão hipócrita.” Haley reforçou ainda “que esse passo não é um recuo dos nossos compromissos em direitos humanos.”
Os Estados Unidos cumpriram dessa forma a ameaça de abandonar aquele organismo, utilizando para tal o mesmo argumento usado para justificar a saída da Unesco. A Administração de Donald Trump protesta dessa maneira contra o tratamento que o órgão com sede em Ge-nebra dá a Israel, que chama desproporcional.
Nos corredores da ONU, a decisão não constituiu surpresa. A embaixadora dos EUA, Nikki Haley, já tinha ameaçado, há um ano, com a possibilidade de abandono, ao denunciar “uma campanha patológica” contra Israel.
Para diplomatas e funcionários norte-americanos junto das Nações Unidas, era só uma questão de tempo, até Washington executar a decisão de se retirar por completo.
Esse passo foi dado, um dia depois da abertura da sessão plenária para abordar a crise migratória, ocasião em que o alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados, Zeid Ra’ad al Hussein, fez duras críticas aos EUA e à sua política de “tolerância zero” contra a imigração na fronteira com o México.
A nova política seguida pelos Estados Unidos, ini-ciada há cerca de seis semanas, tinha resultado na separação dos familiares de, pelo menos, duas mil crianças.
De acordo com a imprensa mundial, 20 crianças ou mais eram mantidas em cada cela e recebiam garrafas de água, pacotes de batatas fritas e grandes folhas de papel para usarem como cobertores.
A guarda de controlo de fronteira dos EUA autorizou, no passado domingo, os jornalistas a fazerem uma breve visita às instalações onde se encontravam adultos e crianças, depois de terem sido detidos na fronteira com o México, mas não foram autorizados nem a entrevistar os detidos, nem a tirar fotografias.
A guarda assegurou que as pessoas detidas tinham refeições adequadas, acesso a casas de banho e cuidados médicos, mas as denúncias sobre a situação desses menores calou o Mundo inteiro, levando a própria Primeira-Dama norte-americana a reagir.
Em declarações à cadeia de televisão CNN, a directora de comunicação de Melania Trump disse que ela “odeia ver crianças separadas das fa-mílias” e esperava que os dois lados do Congresso pu-dessem chegar a acordo sobre uma reforma da imigração bem-sucedida.”
A posição de Melania Trump, embora possa parecer uma mensagem ao Mundo, soou mais a um recado para den-tro, para as desavenças entre democratas e republicanos no Congresso. Tanto que o abandono do Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas, posição de resto já expectável, veio logo a seguir e com os mesmos argumentos de sempre.
“O nosso pedido de mu-dança não foi ouvido”, disse Nikki Haley. Segundo ela, a retirada poderia ter sido decidida imediatamente, mas os Estados Unidos procuraram apoio entre os países que possuem os mesmos pontos de vista.
“Mas não adiantou e as coisas pioraram”, afirmou. Ela citou o facto de a República Democrática do Congo ter sido eleita como membro e nada ter sido dito sobre a situação na Venezuela e no Irão. Na opinião da embaixadora, o Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas “não merece esse nome.”
A embaixadora afirmou que o organismo das Nações Unidas “é motivado pelo preconceito político e não pelos direitos humanos.” Os EUA vão “continuar a trabalhar nos direitos humanos fora do enganador Conselho de Direitos Humanos”, acrescentou Haley.
Argumentos à parte, a saída dá-se num momento em que a política de “tolerância zero” dos EUA para a imigração — ao abrigo da qual estavam a ser separadas famílias na fronteira dos EUA –, tem sido alvo de debate e várias críticas.

  Reino Unido reprova decisão de Washington

O ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, Boris Johnson, considerou lamentável a decisão dos Estados Unidos de abandonar o Conselho de Direitos Humanos e argumentou que, embora reformas sejam necessárias, o organismo é “fundamental para os Estados prestarem contas” nesta área.
Diplomatas nas Nações Unidas também expressaram rapidamente desapontamento com a retirada dos EUA. O actual presidente do Conselho de Segurança, o embaixador da Eslovénia, Vojislav Suc, disse que o órgão era o único que “responde a questões e casos relacionados com os direitos humanos no mundo inteiro”.
Depois da decisão dos EUA de renunciar, ele disse que “é essencial que nós defendamos um conselho forte e vibrante”.
Diversas instituições de caridade e grupos de apoio criticaram a medida. No Twitter, a União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) afirmou que “a retirada do Governo Trump do Conselho, aliada ao uso abusivo de poder dentro do país apenas confirma o que sempre soubemos - que Trump está a liderar um esforço agressivo e orquestrado para violar os direitos humanos básicos daqueles que mais precisam de protecção”.
A Human Rights Watch - organização internacional não-governamental, com sede em Nova Iorque, que defende e realiza pesquisas sobre os direitos humanos - condenou a decisão dos EUA de deixarem o conselho e considerou a política de direitos humanos do Presidente Trump de “unidimensional”.

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