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Merkel e Schultz chegam a acordo

Victor Carvalho |

A chanceler alemã, Angela Merkel, e o líder do Partido Social Democrata (SPD), Martin Schulz, chegaram ontem de manhã a um princípio de acordo para uma nova coligação, que resolverá o impasse político que se arrastava na Alemanha desde Setembro do ano passado.

 

Chanceler Angela Merkel e Martin Schulz (à direita) superam desentendimento político e lançam as bases para a formação de um Governo de coligação
Fotografia: Kay Nietfeld | DPA | AFP

Depois de alguns desentendimentos entre os diversos intérpretes da política alemã, Angela Merkel e Martin Schulz decidiram esta semana regressar a um período que denominaram de “conversações exploratórias” para avaliarem da eventual existência de bases que levem ao início de uma “conversação formal”.
O que ontem ficou acordado foi a existência dessas bases, passando agora os dois partidos para a fase das “negociações formais” que, ninguém acredita, inviabilizarão a formação de um novo Governo.
Por isso, a partir de agora os cristãos democratas de Merkel e os sociais democratas de Schulz  irão centrar as suas atenções na criação de um programa de governo que não comprometa as promessas que ambos os partidos fizeram durante a campanha para as eleições de Setembro de 2017.
No essencial existem duas grandes diferenças nos dois programas partidários que deverão passar a ser a partir de agora o centro de todas as preocupações. Trata-se das questões que se prendem com os impostos, a imigração e a União Europeia.
No fim de semana passado a chanceler Angela Merkel, numa reunião partidária, disse que estava na disposição de ceder na questão do aumento de impostos, mas que permaneceria intransigente no que toca à fixação de uma taxa para o número de imigrantes que considera aceitável acolher anualmente no país. Será, pois, na capacidade de ceder num lado para ganhar no outro (impostos e imigração) que se basearão as negociações para a formulação de um programa de governo que, segundo a imprensa alemã, deverá estar concluído dentro de duas semanas. A questão da União Europeia será rapidamente ultrapassada.
Porém, o recurso aos sociais-democratas foi mesmo a derradeira tentativa que a chanceler fez para voltar a formar um governo por si liderado.
Logo depois das eleições, Merkel tentou seduzir os liberais e os ecologistas, mas as negociações falharam e a chanceler ficou num impasse que só poderia ser resolvido através de um acordo com o SPD, com quem governou no executivo anterior (2013-2017). O Governo de coligação entre os democratas-cristãos e os sociais-democratas permanece em exercício de gestão, mas as divergências entre os dois maiores partidos da Alemanha em temas como a imigração, os impostos ou a UniãoEuropeia dificultaram a primeira fase das negociações. Até ontem, o cenário mais previsível era o da realização de novas eleições, visto que Angela Merkel, a mais votada em Setembro, nunca aceitou liderar um Governo minoritário.
Martin Schulz, quando foram conhecidos os resultados das eleições de Setembro, jurou a pés juntos que não aceitaria uma coligação com Angela Merkel, sublinhando que o seu partido iria optar por fazer uma “oposição forte” ao futuro governo. “Preferimos liderar a oposição do que estar no governo a fazer o programa dos democratas-cristãos”, disse na ocasião o líder dos sociais-democratas recordando as “tradições históricas” que o seu partido tem na Alemanha. “Acho que vamos ver os democratas-cristãos a trabalhar com a FDP e os Verdes“, acrescentou.
A própria Angela Merkel sempre deixou para segundo plano a possibilidade de um acordo com Martin Schulz, mas após o fracasso das negociações com o Partido Democrático Liberal e os Verdes viu-se obrigada a lançar um convite oficial aos sociais-democratas para formar um “Governo estável”.
O resultado do convite está aí: acordo para formar Governo e de mais conversações para a elaboração de um programa que satisfaça os aspectos fundamentais da política dos dois maiores partidos alemães.

Chanceler Angela Merkel e Martin Schulz (à direita) superam desentendimento político e lançam as bases para a formação de um Governo de coligação


Na política alemã  e, para se ser justo, comparativamente a outros países democráticos, o segredo para o êxito de um Governo de coligação é a arte da negociação e o compromisso que os parceiros aceitam para colocar os interesses nacionais acima dos partidários.
Foi precisamente para estabelecer as balizas em que se enquadra a arte da negociação e o compromisso comum a ser assumido perante o país que equipas lideradas por Angela Merkel e Martin Schulz se reuniram desde domingo passado.
Cada uma das partes disse até onde podia abdicar do programa que foi sufragado nas eleições de Setembro de 2017.
Os democratas-cristãos de Merkel, mais conservadores, não abdicam de um corte nos apoios à imigração nem da inviabilização de uma lei sobre a reunificação das famílias dos refugiados que já se encontram na Alemanha.
Tal como Donald Trump nos Estados Unidos, também Angela Merkel na Alemanha quer impedir que os refugiados que já estão legalizados possam chamar os familiares que ainda se encontram nos seus países de origem.
Por sua vez, os sociais-democratas de Martin Schulz defendem que a Alemanha deve liderar o processo de criação dos “Estados Unidos da Europa”.
Schulz defende ainda um substancial aumento dos impostos.
Ambos os partidos estão de acordo no sentido de que a prioridade da Alemanha deve ser o aumento nos investimentos em infra-estruturas.
Será, pois, à volta destes temas que deverão decorrer as “conversações formais” para a formulação do programa para o futuro governo do bloco central que governará a Alemanha nos próximos anos.
Trata-se, assim, de esgrimir com arte os argumentos políticos para consolidar o compromisso que permitirá a elaboração do programa que pautará a acção do bloco central que passará a governar a Alemanha.
De sublinhar que a Alemanha foi dos países europeus que mais cresceu em 2017, cerca de 2,2 por cento. Este é o valor que está previsto também para 2018.

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