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Facebook junta-se ao Twitter na censura aos posts intempestivos de Trump

Vanessa de Sousa

Se pensarmos que Mark Zuckerberg pode ser o homem que está entre Joe Biden e a Casa Branca, percebemos melhor as hesitações do fundador da maior rede social do mundo, com mais de 3 mil milhões de utilizadores

Fotografia: DR

“Quando começa o saque, começa o tiroteio” (“When the looting starts, the shooting starts”), é uma expressão atribuída a um polícia de Miami, em 1967, durante as manifestações do movimento pelos direitos civis (1954/1968), e que o Presidente Donald Trump replicou no Twitter. E os norte-americanos sabem o que significa.

E é também por isso que Jack Dorsey, o CEO do Twitter, viu o tweet como favorável a “um clima de medo e de violência contra os cidadãos negros” e o ocultou debaixo do aviso “este tweet violou as regras do Twitter sobre o incitamento à violência, no entanto, o Twitter determinou que pode ser do interesse público que permaneça acessível”.

A mesma mensagem de Trump foi publicada no Facebook e no Instagram, com Mark Zuckerberg a fazer a defesa do direito do Presidente a publicar. Em entrevista à Fox News, Zuckerberg disse que o papel das empresas privadas não é serem “árbitros da verdade”.

No entanto, a posição do CEO do Facebook caiu muito mal. A pressão foi enorme, não só na opinião pública, mas, e principalmente, juntos dos seus funcionários. “Se o Facebook for cúmplice do discurso de ódio, ficará do lado errado da história”, disse Timothy J. Aveni, um quadro da empresa que, entretanto, pediu a demissão. E não foi o único. Owen Anderson, engenheiro, escreveu no LinkedIn que sentia “orgulho” por já não ser empregado do Facebook. Outro engenheiro, Brandon Dail, optou por usar a própria rede para escrever: “É claro como água que a liderança [do Facebook] se recusa a ficar ao nosso lado”, post que também publicou no Twitter.

Outros dos argumentos de Zuckerberg foi de que se o post de Trump fizesse incitamento à violência, a rede social o teria eliminado através dos seus mecanismos internos. Mas, e de acordo com o The Wall Street Journal, Zuckerberg terá dito numa reunião que considerou “profundamente ofensivas” as publicações de Trump, mas que “não é motivo para que as empresas privadas interfiram no discurso político, e suprimir o debate é pior do que realizá-lo publicamente”.

Num longo post no Facebook escreveu que “pessoalmente, tenho uma reacção visceral a esse tipo de retórica inflamatória e divisionista (...) mas acredito que as pessoas devem ser vistas como são, porque, e em última análise, a responsabilização daqueles que têm posições de poder só pode ser feita se o seu discurso for escrutinado de uma forma aberta”. O que Zuckberg não disse, mas pode ler-se numa reportagem do The Washington Post, é que a polarização do discurso traz maior interacção e mais utilizadores para o Facebook.

Não é a primeira vez que a rede social é permeável e permissiva com o chamado “discurso de ódio”. Foi usada, em 2007, por budistas extremistas e militares de Myanmar (ex-Birmânia) para incitar ao ódio e à violência contra a minoria muçulmana rohingya, que culminou numa “limpeza étnica” (expressão da ONU) - assassínio de 25 mil rohingyas e o deslocamento forçado de mais de 700 mil. O Facebook acabaria por admitir esse erro no ano seguinte, eliminando 18 contas e cerca de 50 páginas de ou ligadas aos militares de Mynanmar.

Zuckerberg sob pressão

Uma semana depois da polémica decisão, na sexta-feira (5 de Junho), Mark Zuckerberg reposiciona-se e reposiciona o Facebook. Atendendo à pressão generalizada, diz que será revista a política de conteúdos e anunciou que o Facebook vai desenvolver acções que levem à promoção de uma maior justiça étnica.

The Washington Post divulgou, na semana passada, documentos internos do Facebook que davam conta que milhares de funcionários se opuseram à decisão do seu CEO, usando até o Twitter (rede social rival) para manifestarem o seu desagrado, a que acrescentaram uma paralisação virtual - uma vez que a maior parte está em teletrabalho - para se juntarem nas ruas aos protestos pela morte de George Floyd.

Na sequência dessa onda interna de contestação, Zuckerberg colocou várias perguntas aos seus funcionários, a quem pediu um “feedback honesto”, e, entre elas, temos: “Podemos mudar a nossa política no que tem a ver com a liberdade de expressão?” ou “A verificação de dados e a remoção do discurso do ódio não deve deixar os políticos de fora?”

De fora, vieram, também, inúmeras críticas de líderes de direitos civis, que revelaram nas redes sociais, artigos de opinião ou nos jornais, o seu “desapontamento” e “surpresa com as incompreensíveis explicações” de Mark Zuckerberg para o facto dos posts de Trump não terem sido eliminados, acrescentando que ele não estava a ver a dimensão histórica do problema e que estava a “facilitar o apelo de Trump à violência contra os manifestantes”. Zuckerberg acabou por admitir que os últimos tempos foram particularmente “dolorosos” para ele.

The Guardian revelou, recentemente, que o Facebook criou um conselho de supervisão independente que inclui académicos, políticos e ex-jornalistas, de todo o mundo, para funcionarem como uma espécie de “tribunal supremo” sobre os conteúdos que a rede social passará a permitir. Este conselho de supervisão só começará a funcionar no Outono, depois da campanha eleitoral para a presidência nos Estados Unidos. Um dos membros do conselho adiantou ao jornal britânico que “estamos a trabalhar de forma intensa para configurar o conselho e para começar a funcionar ainda este ano” e “tomaremos decisões sem considerar os interesses económicos, políticos ou de reputação do Facebook, de uma forma justa, transparente e politicamente neutra.”

Uma decisão inconstitucional, e daí?

O Presidente Trump assinou, também na semana passada, uma ordem destinada a limitar a imunidade de que gozam as empresas que detêm as redes sociais, que não podem ser responsabilizadas pelos conteúdos que os utilizadores partilham nas suas contas, e daí que as empresas tenham criado regras próprias de funcionamento. É o ataque de Trump contra as tecnológicas, porque, e escreveu na ordem executiva, “não existe precedente na história dos Estados Unidos em que um número tão pequeno de corporações controle uma tão grande parte das interacções humanas”.

Vai mais longe, “ordeno que minha administração desenvolva políticas e procedimentos para garantir que os dólares dos contribuintes não vão para nenhuma empresa de redes sociais que reprima a liberdade de expressão”. “Twitter, Facebook, Instagram e YouTube possuem um imenso, se não inédito, poder de moldar a interpretação dos acontecimentos públicos; de censurar, apagar ou fazer desaparecer informação; e de controlar aquilo que as pessoas vêem ou não”, escreveu ainda o Presidente no decreto.

“Trump não tem autoridade para fechar uma companhia que não está a violar a lei” explica Herbert Hovenkamp, professor de direito da Universidade da Pensilvânia, à Bloomberg, e sugere que a norma viola a Primeira Emenda da Constituição americana, que protege a liberdade de expressão. Mas não há um consenso.

Os mais próximos ao jornalismo acham que esse equilíbrio entre liberdade e aplicação de políticas é o mais correcto: “Muitos especialistas recomendam uma combinação de políticas claras, aplicação consistente e respostas à desinformação, que foquem em limitar interacções e proporcionar informação, no lugar de supressões directas”, diz Rasmus Nielsen, director do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo. “O Twitter equivocou-se, entraram sozinhos em campo”, diz David Maeztu, advogado especializado em direito de Internet, e explica: “Estamos numa linha muito difusa e complexa, mas talvez fosse mais correcto fechar a conta por transgressão das normas, porque no momento em que se acrescenta algo, está a alterar-se o conteúdo”.

O primeiro dos posts publicado pelo Presidente norte-americano, e que levou o Twitter a reagir, foi em 26 de Maio e aí se insinua que as eleições marcadas para 3 de Novembro podem ser fraudulentas com a instituição do voto por correspondência em alguns estados, de forma a contornar as limitações impostas pela Covid-19. “Não há MANEIRA NENHUMA (ZERO!) de que os votos por correio sejam nada menos do que substancialmente fraudulentos”, escreveu Trump, sugerindo que podiam ser roubados, forjados ou “até impressos ilegalmente e assinados de forma fraudulenta”.

O risco de fraude é quase inexistente, o objectivo do Presidente é outro. A popularidade de Trump tende a ser menor nas grandes cidades, onde a Covid-19 pode funcionar como dissuasor no momento de ir votar, o que não acontece nos meios rurais, onde conta com maior apoio, logo, se o voto for presencial, o votarão, e se os eleitores urbanos ficarem em casa, será mais favorável a Trump. Os seus dois tweets sobre o assunto foram mais uma tentativa de suscitar dúvidas sobre a fiabilidade do voto por correspondência. Mas agora, e pela primeira vez, o Twitter colocou um link por baixo das mensagens com a frase: "Get the facts about mail-in ballots" (obtenha os factos sobre os votos por correspondência). O link leva a uma página com informações e artigos sobre o assunto.

A plataforma dirigida por Jack Dorsey é uma espécie de “sala oval” digital. Pelo Twitter passa o que de mais importante Donald Trump tem para dizer ao mundo, mesmo quando o mundo não o quer ouvir. Na rede social já promoveu inúmeras teorias da conspiração ou insultou adversários em tweets que permaneceram em linha, com o argumento de que as comunicações de um líder mundial tinham interesse noticioso. Por estes dias, as coisas mudaram.

"O Twitter está a interferir na Eleição Presidencial de 2020", escreveu agora Trump. "Estão a dizer que a minha declaração sobre os Votos por Correspondência está incorreta, baseada em fact-checking da CNN das Fake News e do Washington Post da Amazon (...) Está completamente a abafar a LIBERDADE DE EXPRESSÃO e eu, enquanto Presidente, não vou permitir que isso aconteça!", escreveu Donald Trump no lugar de sempre, o Twitter.

Uma das acusações que alguns quadros do Facebook fizeram ao CEO é que ele continuava a encontrar desculpas para não afrontar Trump. A Bloomberg revelou que Zuckerberg terá falado ao telefone com Trump sobre a situação, e que o CEO do Facebook terá manifestado ao Presidente norte-americano a sua decepção.

As redes sociais, bem ou mal, têm tido um papel crescente no debate público. O Twitter, Facebook e Youtube eram ferramentas importantes em 2012, quando Obama foi reeleito, mas não eram ainda tão essenciais como acabariam por se relevar em 2016. Com ou sem a ajuda dos russos, o uso massivo das redes sociais na campanha de Trump é, para muitos, uma das principais razões da sua eleição.

Nos Estados Unidos vive-se um ano eleitoral decisivo. Trump já terá gasto 62 milhões de dólares entre o Facebook e o Google, e a pré-campanha mal começou. Joe Biden, o candidato dos democratas, anda pelos 22 milhões de dólares gastos pelo mesmo motivo. E o que temos aqui não é só uma questão de dinheiro.

“Trump quer manter as coisas como estão e assegurar-se de que o ‘tratamento de tapete vermelho’ que recebeu até agora, especialmente do Facebook, continua”, escreveu Zeynep Tufekci, académica e especialista em implicações sociais das novas tecnologias, na The Atlantic.

John Naughton, jornalista e académico, especialista em tecnologias de informação, num artigo de opinião publicado este fim-de-semana no The Guardian, escreveu que entre Joe Biden e a presidência dos Estados Unidos está Mark Zuckberg. Naughton refere-se a Trump como um “déspota narcisista” (o que é um bocado redundante) e considera que em 20 de Janeiro de 2021 o pesadelo terá terminado, quando Trump entregar o poder a Joe Biden.

No entanto, não dá nada como garantido, e à semelhança do que aconteceu em 2016, volta a reforçar o papel das redes sociais neste jogo político. Nessa altura, e enquanto Trump usava freneticamente o Twitter, uma equipa liderada por Brad Parscale (director da campanha digital) fazia uma certeira utilização do Facebook.

Se tudo continuar como está, sem convenções ou comícios de massas, e de acordo com as sondagens, Joe Biden vai ganhar as eleições para a Casa Branca, em Novembro. A única coisa que pode alterar essa possibilidade é, justamente, o Facebook.

Zuckberger controla a empresa que fundou há 15 anos, e apesar da recente tensão com os seus colaboradores, o que ele decidir fazer com os posts de Trump pode ser decisivo.

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