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Filho honra pai com funeral de Estado

João Dias | Kinshasa

Mais de dois anos depois da sua morte por embolia pulmonar, aos 84 anos, num hospital de Bruxelas, Bélgica, finalmente o antigo Primeiro-Ministro da República Democrática do Congo (RDC) Etienne Tshisekedi wa Mulumba, agora aclamado “pai da democracia congolesa, da liberdade e grande herói nacional”, tem um funeral de Estado e digno da pessoa que foi para o povo congolês, com realce para Kinshasa, considerada fortaleza da União para a Democracia e Progresso Social (UDPS) durante quase 40 anos.

Fotografia: DR

O filho honrou o pai. Finalmente, “Tshitshi”, o ícone da oposição congolesa, que esperou vinte e sete meses antes de ter direito a um enterro digno no país que o viu nascer e pelo qual lutou durante anos, repousa desde sábado num Mausoléu construído em N’sele, a 30 quilómetros de Kinshasa.
Apelidado de “Vieux” (O Velho, em francês) pelos partidários da UDPS, Etienne Tshisekedi wa Mulumba, pai do actual Presidente da RDC, foi Primeiro-Ministro em três efémeras ocasiões nos anos 90 e durante quase quatro décadas insurgiu-se e sempre denunciou os sucessivos abusos do Governo, primeiro sob o autoproclamado "marechal-presidente" Mobutu Sese Seko, depois Laurent-Desiré Kabila e, finalmente, pelo filho deste último, Joseph Kabila.
Félix Tshisekedi, actual Chefe de Estado da RDC, não poupou esforços para homenagear o pai, numa cerimónia de quase três dias marcada por várias fases. Destas, despontam as do Aeroporto de N’Djili, quando os restos mortais vindos da Bélgica e transportados por um avião cedido pelo Presidente do Togo, Faure Gnassingbé, chegaram à capital ao anoitecer, no dia 30. Milhares de congoleses, visivelmente emocionados, vestiram-se de branco, a simbolizar que Etienne “tinha pureza e não se tinha envolvido em actos de corrupção”. A mobilização estava feita. Cada um a seu jeito prestou tributo a Etienne Tshisekedi, a quem também consideram “lenda da RDC e do mundo”.
Outra etapa foi a homenagem pública no Estádio dos Mártires de Pentecostes, em Kinshasa, marcada por grande comoção, mas também de alguma desorganização e atraso. A derradeira etapa teve lugar no Mausoléu de N'sele, a 30 quilómetros de Kinshasa, onde repousam, desde sábado, 1 de Junho, os restos mortais de Etienne Tshisekedi wa Mulumba.
As exéquias começaram logo que a urna com os restos mortais de Etienne Tshisekedi wa Mulumba foi depositada no Aeroporto Internacional de N’Djili, ao cair da noite de 30 de Maio. As homenagens começaram no local sob o olhar de membros da família, do Governo, da Assembleia Nacional, Forças Armadas, igrejas e população. Das 17 horas, a cerimónia, rica em simbolismos litúrgicos, só viria a terminar próximo da meia-noite. A um dado momento, o Presidente Félix Tshisekedi sai de onde estava e vai até à urna do pai, coberta com a Bandeira Nacional, e dá duas “palmadinhas” sobre o caixão, simbolizando “batedinhas” às costas sobre a vitória alcançada, como que a dizer “pai, finalmente conseguimos”.
No dia seguinte, 31, a cerimónia continuou no Estádio dos Mártires, em Kinshasa, onde a homenagem foi pública. O estádio tinha uma multidão que atendeu ao chamado e mobilizou-se para a derradeira homenagem a Wa Mulumba, “O Velho”. Pela Rádio Televisão Nacional do Congo (RTNC), alguns comentaristas chegaram mesmo a afirmar que Etienne Tshisekedi tinha atingido uma dimensão política, solidária e humanista que ultrapassa Nelson Mandela. “Heresia” ou não, estas foram as expressões de jornalistas congoleses para elogiar o ícone e líder da oposição.
Vários Chefes de Estado, nomeadamente João Lourenço, de Angola, Dennis Sassou Nguesso, da República do Congo, Edgar Lungo, da Zâmbia, Faure Gnassingbé, do Togo, Alpha Condé, da Guiné Conacri, Paul Kagame, do Rwanda, Faustin-Archange Touadéra, da República Centro Africana (RCA), Jovenel Moïse, do Haiti, bem como representantes de diversas partes do mundo marcaram presença na homenagem pública, que começou por volta das 11horas e só terminaria por volta da meia noite. No dia 1, sábado, o programa de homenagens teve lugar no Mausóleu, construído em tempo recorde para “guardar” os restos mortais de Etienne Tshisekedi.
Entre os milhares de congoleses que foram dar o último adeus ao eterno líder da oposição congolesa estava Júnior N’Donkolo, funcionário público reformado e membro da UDPS, partido fundado por Etienne Tshisekedi no início dos anos 80. Para Júnior N’Donkolo, o nível de cidadania que o povo tem hoje resulta do facto de Tshisekedi pai “nos ter ensinado sempre a não temer e a lutar pelos nossos direitos”. À semelhança de milhares de compatriotas, N’Donkolo é também de opinião que, infelizmente, Wa Mulumba não teve a oportunidade para colher os frutos da sua luta.
Além de momentos religiosos de grande introspecção e longos discursos de representantes do Estado, de partidos políticos e de líderes tradicionais da região de Mbujimay, o funeral foi marcado pela evocação de rituais da tradição congolesa.

Décadas de luta
Ao longo de dois anos, os restos mortais de Etienne Tshisekedi foram mantidos em Bruxelas a aguardar por repatriamento. Segundo membros da família, o repatriamento dos restos mortais do “Velho” depois da saída do regime de Kabila e a vitória da oposição é o reconhecimento do triunfo da causa que Tshisekedi vinha defendendo: maior liberdade, mais direitos e ampliação do espectro democrático na RDC. “Estamos aqui hoje num misto de alegria e consternação porque, finalmente, Etienne está de regresso a casa. Alegria pelo regresso e tristeza porque a morte sempre causa dor. Mas, tudo isso não seria possível se o filho, Félix Tshisekedi, não tivesse sido proclamado vencedor das eleições presidenciais de Dezembro de 2018, a mais alta magistratura da RDC. Podes crer que não”, desabafa Angel Falone, membro da UDPS. “Nós os africanos precisamos crescer muito e reconhecer o outro como irmão”, sublinha Angel Falone, enquanto procurava um lugar para se sentar no Estádio dos Mártires, com capacidade para 88 mil pessoas, inaugurado em 1994 na partida entre os “Leopardos do Zaíre” - equipa nacional, e a selecção de futebol do Malawi. Durante dois dias, tempo que durou o funeral oficial, o actual Presidente da RDC não fez qualquer pronunciamento público, apenas cumpriu a promessa feita desde que está no cargo: honrar o pai.

Estádio lotado
Com os 88 mil lugares ocupados, a homenagem pública destinada ao estádio foi “deslocada” às ruas, onde milhares de pessoas aguardaram horas e horas para ver o carro fúnebre branco, transparente e completamente iluminado passar, transportando os restos mortais numa urna preta coberta com as bandeiras da RDC e da UDPS. Era muita gente ao longo da boulevard Lumumba, nos dois sentidos. “Se for ao estádio, não vou poder testemunhar bem a homenagem ao nosso pai”, disse uma cidadã que estava no meio de uma multidão ávida para ver o carro fúnebre passar bem perto de si. Como ela, alguns milhares de pessoas abdicaram do lugar no Estádio dos Mártires do Pentecostes para fugir de uma eventual desordem e não poder ver de perto o cortejo fúnebre.
Martin Fayulu, um dos candidatos à presidência, que continua a contestar os resultados, prestou homenagem à “luta pela democracia e justiça” de Etienne, mas recusou-se a comparecer no funeral. O fundador da UDPS foi a enterrar num mausoléu de 2,5 milhões de dólares.O Presidente da República do Congo Brazzaville), Denis Sassou Nguesso, esteve o tempo todo, durante os dois dias, ao lado de Félix Tshisekedi na homenagem ao pai.
“O veterano líder da oposição era teimoso, temperamental e persistente”, disse Sephora, uma jovem entusiasta em estudos de fenómenos políticos, sublinhando que, ainda assim, “O Velho” deixou uma legião de seguidores que não abriram mão à derradeira homenagem, mesmo em condições adversas. No seu percurso político, Etienne Tshisekedi sofreu do regime de Kabila um exílio interno, na sua terra natal, 700 quilómetros a oeste de Kinshasa, de onde faria o regresso triunfal em 2003.

Félix Tshisekedi
Depois de mais de 100 dias do Presidente Tshisekedi no leme dos destinos da RDC, o país já não tem apenas uma réstia de esperança, tem esperança que se agiganta à medida que problemas concretos são resolvidos. Já não é apenas fé, é certeza, dizem os congoleses. Existe um trabalho real a acontecer, embora problemas como o desemprego e saneamento são ainda gritantes. Da imobilidade e paralisia de vários anos, o Governo do Congo ataca as causas do engarrafamento e os problemas que mais profundamente afectam o quotidiano dos habitantes da capital, Kinshasa. Para contrapor o trânsito caótico das principais vias de Kinshasa, o Governo de Tshisekedi assinou contratos com empreiteiras para a construção de viadutos nas zonas de “engarrafamento endémico”.
Nas principais vias, onde há uma acumulação de resíduos sólidos, dezenas de camiões enfileirados são postos em diferentes locais para remover montanhas de lixo. De “zonas de retrete” e chiqueiros a céu aberto a locais limpos ainda vai uma grande distância. Mas, a pouco e pouco, o problema é vencido. Apesar destas boas iniciativas, a economia sofre ainda com a inflação. O câmbio mantém-se quase inalterável há alguns meses. Cada dólar são 16 mil francos congoleses, ou seja, por cada 100 dólares são 160.000 francos congoleses.

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