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Guineenses mais preocupados com caos pós-eleições que com a Covid-19

Mergulhados na crise política que chegou a deixar o país com dois governos e dois Presidentes da República, muitos guineenses não acreditavam que a Covid-19 era real. Com estruturas sanitárias frágeis e com grande parte da população a viver da economia informal, o país já pediu apoio internacional para mitigar os efeitos da pandemia. A reportagem é do Diário de Notícias

Fotografia: DR

Em 2019, a população da Guiné-Bissau mergulhou em dois processos eleitorais que desviou toda a sua atenção do que estava a acontecer no resto do mundo. A classe política guineense aproveitou as legislativas de 10 de Março e a segunda volta das presidências de 29 de Dezembro para espalhar rumores, desinformações e pânico. Toda essa manipulação psicológica na população durante os dois processos eleitorais mergulhou os guineenses num abismo de penúria de ideias. O que os levou a não se preocuparem com as notícias que chegavam na Media internacional sobre uma pneumonia desconhecida que, em Dezembro de 2019, atingiu um mercado na cidade chinesa de Wuhan, na província chinesa de Hubei.

Os guineenses estavam mais preocupados com os resultados da segunda volta das presidenciais, cujo contencioso eleitoral ainda hoje está no Supremo Tribunal da Justiça (STJ). Ainda à espera de saberem quem, de entre os dois candidatos, Domingos Simões Pereira, do Partido Africano para a Independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde (PAIGC), e Umaro Sissoco Embalo, do Movimento de Alternância Democrática - Grupo dos 15 (MADEM-G15), ganhou as presidenciais, chegava a Bissau o novo coronavírus - uma doença invisível e sem cura.

No início, a maioria dos guineenses não acreditava que existia uma doença denominada coronavírus. Mesmo com as primeiras pessoas infectadas, olhavam para a Covid-19 com certa desconfiança popular. Continuaram a aglomerar-se nos grandes mercados de Bissau e nos portos de pescas de Alto Bandim e de Cacheu. Também se aglomeravam nos bares e cafés, sobretudo à noite, para discutirem as sucessivas decisões do Supremo Tribunal da Justiça, sobre o contencioso eleitoral e a reafirmação inequívoca e permanente da Comissão Nacional das Eleições (CNE) da vitória do candidato do MADEM-G15.

Covid-19, governos e Presidentes

Na fase inicial, não havia informação suficiente e credível sobre a forma exacta de transmissão do novo coronavirus na Guiné-Bissau. O contencioso eleitoral que reinava no país criou um cenário complexo e contraditório, que desviava a atenção dos guineenses do combate real à Covid-19. Em declarações ao DN, o director-geral do Centro Operacional de Emergência em Saúde (COES), Dionisio Cumba, sublinhou que “a população não estava consciente da real situação de circulação do vírus no país. Muitos não acreditavam que existe o vírus a circular. Consideravam a situação da pandemia como um fantasma”.

O contencioso eleitoral levou o país a ter dois governos e até houve uns dias em que tinha dois governos e dois Presidentes da República. Assim, houve mais uma espécie da campanha política eleitoral sobre o tema do coronavírus que não teve efeito positivo no país. Enquanto nos outros países africanos da subregião combatia-se a sério a pamdemia, na Guiné-Bissau discutia-se se o governo é ou não legal ou se o Presidente da República é ou não legal.

O actual governo de Nuno Gomes Nabiam, que na altura iniciou as funções, encontrou no coronavírus um tema para mostrar aos guineenses que está a prestar um bom serviço ao país. Ou seja, transformou a Covid-19 num novo tema de campanha dentro do contencioso eleitoral. O seu ministro do Interior, Botche Candé, percorreu todo o país, sem respeitar as regras de não agrupamento das pessoas, para distribuir bens aos militares da Guarda Nacional Motorizada.

Em Bissau, a opinião dos analistas em Saúde Pública é unânime: o facto de o primeiro óbito de coronavírus no país ser de um alto oficial do Ministério do Interior e o próprio secretário de Estado da Ordem Pública ter sido infectado provam que, no inicio, nem os membros do Governo tiveram cuidado em cumprir a sério as regras de luta contra a Covid-19. Os membros dos dois governos que co-existiam no país estavam mais preocupados em trabalhar para conquistar legitimidade na comunidade internacional. Não estavam interessados em cumprir as regras de combater a pandemia.

Por exemplo, o governo de Aristides Gomes, agora no exílio, usava também os temas da pandemia nas redes sociais para tirar dividendos no contencioso eleitoral que ainda se encontra no STJ. Todos os analistas dos assuntos de Saúde Publica na Guiné-Bissau concordam que o país tem naquela sub-região africana uma das mais fracas infra-estruturas sanitárias, fracos meios técnicos e humanos, para poder enfrentar com eficácia a situação de profundo agravamento das infecções.

“A violência com que o vírus age no organismo humano e o número das vitimas mortais que causou nos países muito bem preparados mostram, claramente, que um país como o nosso não tem capacidade para enfrentar o coronavírus”, explicou ao DN Dionisio Cumba. Sublinhando que “temos, a nível nacional, todas as estruturas sanitárias obsoletas e sem os equipamentos necessários”.

Cumba, que é também director-geral do Instituto Nacional de Saúde Pública (INSA), assegurou que “mesmo o Hospital Nacional Simão Mendes, considerado de referência nacional”, não tem meios de diagnóstico. Quanto às restantes estruturas sanitárias do país, não estão equipadas com ventiladores, nem com unidade de cuidados intensivos. Apenas o Hospital Nacional Simão Mendes tem, na sua orgânica, um serviço de cuidados intensivos, mesmo assim sem, o equipamento adequado. Quanto à central de produção do oxigénio está, neste momento de pandemia, avariada.

Mais médicos de clínica geral

O director-geral do COES, que preside aos trabalhos dos testes do coronavírus, no Laboratório Nacional de Saúde Pública, reconhece que a Guiné-Bissau “tem muitos médicos de clínica geral, mas poucos médicos especializados e nenhum em cuidados intensivos”.

“De certeza que, se a situação continuar a piorar, os técnicos que o país tem não vão poder fazer face à propagação da contaminação comunitária”, lamentou. E foi nesta óptica que o “COES orientou o governo de Nuno Gomes Nabiam a solicitar o apoio internacional dos profissionais de Saúde especializados”, para reforçar os nacionais no combate à Covid-19. O director-geral do COES lamenta que “o país esteja a enfrentar enormes dificuldades, porque a Covid- 19 é uma nova patologia que estamos todos a aprender e a experimentar”. Mas Cumba disse acreditar que a única arma da Guiné-Bissau, para fazer face à pandemia, “é o facto de a maioria da sua população ser jovem, uma camada considerada como tendo uma certa resistência ao vírus”. Todavia, reconhece que “as fragilidades do sistema de Saúde do país” justificam a contaminação exponencial que está hoje a verificar-se na Guiné-Bissau.

Um país importador

O economista guineense Abdulai Sombille Djaló alerta para o facto de o país importar tudo do estrangeiro. Por isso, a pandemia terá, economicamente, um efeito no aumento dos preços dos produtos e dos bens da primeira necessidade.

“Se olharmos para o nosso tecido sócio-económico e a nossa estrutura comercial, importamos tudo do estrangeiro”, alertou o economista, que é também docente na Universidade Lusófona da Guiné. Explicou ainda que “todos estes factores farão com que exista um aumento exponencial dos preços dos produtos e dos bens da primeira necessidade”.

O economista considerou igualmente que, de uma forma ou outra, os factores económicos e financeiros estão profundamente ligados às estruturas familiares que vivem o dia-a-dia sem um rendimento regular, nem as vendas regulares. O que, no seu entender, causará, por exemplo, uma quebra na procura da energia eléctrica, uma vez que as famílias só terão dinheiro disponível para comprar os produtos da primeira necessidade. O que, na sua visão, irá instaurar no país a “lei da sobrevivência”.

Ainda de acordo com o economista, haverá enormes perdas para a Empresa de Electricidade e Águas da Guiné-Bissau (EAGB), o que levará, consequentemente, aos cortes de energia eléctrica , que irão afectar as famílias.

Por outro lado, Abdulai Djaló prevê que o impacto económico da Covid-19 leve os portos comercial de Bissau e da Pesca de Alto Bandim a perderem a dinâmica económica, financeira e comercial. O confinamento limitou a circulação “de bens e de produtos”. Esta paralisação dos dois maiores portos do país poderá, de acordo com Abdulai Djaló, ter maior impacto económico e social na vida dos guineenses, uma vez que 80 por cento da população do país depende directa ou indirectamente da comercialização da castanha de caju.

“Se tomarmos em consideração que 80 por cento da nossa população vive da comercialização da castanha de caju, com a ausência dos empresários indianos e dos vietnamitas para comprar o nosso produto estratégico, haverá quebras nas nossas finanças públicas. A crise económica e social aumentará em todo o país”. explicou.

No entender de Abdulai Djaló, o Governo de Nuno Gomes Nabiam ainda “possui reserva de título do tesouro público para fazer face às situações de urgência” salarial na Função Pública, que até agora tem recebido os salários.
O economista garantiu, por outro lado, que a portuguesa GALP, empresa de combustível e de energia, já garantiu ao executivo de Bissau uma reserva de combustível suficiente para fazer face ao momento.

Mulheres afectadas

A presidente da Rede de Paz e Segurança para as Mulheres no Espaço da Comunidade Económica dos Estados de África Ocidental (CEDEAO), Antena da Guiné-Bissau (REMPSECAO-GB), Elisa Tavares Pinto, disse ao DN que o Estado de Emergência decretado pelo Presidente Umaro Sissoco Embaló, que proibiu a circulação das pessoas e a abertura dos estabelecimentos comerciais, “está a ter um enorme impacto na vida das mulheres comerciantes dos mercados em todo o país”.

A activista das mulheres no espaço da CEDEAO garantiu também que o “funcionamento dos mercados, de apenas três horas por dia”, não compensa as despesas diária das mulheres vendedoras e das peixeiras nos portos do Alto Bandim e do Cacheu. Elisa Pinto defendeu que o mesmo acontece também com as mulheres que “vendem hortaliças e legumes” nos mercados em todo o país, cuja maioria comprou, no Senegal, produtos para cultivar.

“Há várias mulheres vendedeiras de legumes e de hortaliças que já estamos a apoiar, porque, com o Estado de Emergência, já não têm clientes a quem vender os seus produtos. Assim, elas não têm rendimentos para sustentar a família”, explicou.

Necessidades económicas e sanitárias

Neste contexto de pandemia, para poder implementar uma estratégia de resposta sanitária eficiente, a Guiné-Bissau precisa de 18,8 mil milhões de Francos CFA (2,8 milhões de Euros). É com este valor que o país poderá dar uma resposta eficaz aos desafios necessários para erradicar a doença.
O actual Presidente da República, Umaro Sissoco Embaló, já reconheceu que, só para intervenção social, o país necessita de 16,3 mil milhões de Francos CFA (2,4 milhões de Euros), e para os custos de financiamento da recuperação económica a Guiné-Bissau precisa de 102,5 mil milhões de Francos CFA (15,5 milhões de Euros).

É sob este cenário económico difícil, criado pela pandemia, que o ministro das Finanças, João Aladje Fadia, enviou uma carta ao Fundo Monetário Internacional (FMI), a pedir um financiamento de crédito rápido. O governante acredita que o FMI irá conceder à Guiné-Bissau um empréstimo que pode atingir os 50 por cento da sua quota na instituição financeira internacional.

“Vamos ter a possibilidade de conseguir um empréstimo que pode ir até 50 por cento da quota da Guiné-Bissau no FMI”, explicou João Fadia, que está esperançado em obter resposta positiva do FMI rapidamente, para que o Governo possa fazer face aos custos de financiamento da recuperação económica da pandemia. O ministro das Finanças reconheceu que a Guiné-Bissau está a sofrer um “impacto económico muito significativo”, com a pandemia de Covid-19, o que terá este ano uma enorme repercussão na campanha de castanha de caju. Ao nível das Finanças Públicas, o impacto da pandemia deverá levar a Guiné-Bissau a perder 1,5 por cento do seu Produto Interno Bruto e “perdas (40 milhões de Euros)” em pagamentos.

Crise pode favorecer pesca ilegal nas águas guineenses, diz associação

O porta-voz dos pescadores artesanais de Cacheu, no Norte da Guiné-Bissau, avisou ontem que a crise provocada pelo novo coronavírus pode estar a favorecer a pesca ilegal nas águas do rio Cacheu.
De acordo com Armando Djatá, há mais de 20 anos, de cada vez que há um problema político no país, as águas do rio Cacheu, uma das principais zonas de pesca na Guiné-Bissau, “são invadidas por pescadores industriais ilegais”.

Desta feita, notou, a situação poderá ter a ver com a crise provocada pela pandemia da Covid-19, que levou as autoridades a decretarem o Estado de Emergência sanitária, obrigando ao encerramento de vários serviços públicos e à limitação da circulação de pessoas.
“Pensamos que a situação agravou-se com esta doença. Há muitos navios a pescar de forma ilegal” nas águas do rio Cacheu, disse o representante dos pescadores artesanais.

A Lei Geral de Pesca da Guiné-Bissau admite a pesca artesanal em águas interiores e no mar territorial do país e toda a actividade piscatória realizada dentro das 12 milhas a partir da costa e proíbe a mesma actividade aos operadores da pesca industrial naquela zona.
Armando Djatá afirmou, no entanto, que a Associação de Pescadores Artesanais do rio Cacheu, em várias ocasiões, deu conta das ilegalidades que têm sido cometidas por pescadores industriais, mas, comentou, as autoridades ainda não tomaram qualquer diligência.

Desde o início deste mês, por determinação da lei da pesca guineense, é proibida a faina no rio Cacheu, em observância do período de repouso biológico das espécies durante três meses.
Para garantir o sustento, os pescadores artesanais navegam, com canoas equipadas com motores fora do bordo, para outras zonas, em direcção à Varela, por exemplo, mas Armando Djatá disse ser “um espectáculo a quantidade de navios industriais” naquelas paragens, o que acredita ser ilegal.

O dirigente da Associação de Pescadores Artesanais relata ainda “os abusos dos navios industriais” com que se deparam de cada vez que se fazem ao rio Cacheu, nomeadamente abalroamentos.
“São malvados. Entram em zonas proibidas por lei e ainda atacam as nossas canoas, sem parar para ver se fazem vítimas ou não”, observou Armando Djatá.

Como técnica para evitar os abalroamentos, os pescadores artesanais do rio Cacheu têm estado a usar garrafas com gasolina que ateiam fogo logo que vislumbrem um navio de pesca industrial vindo em direcção às canoas.
“Isso tem resultado, pois ficam com medo de incendiarem o seu navio”, declarou Djatá.
A par da agricultura, a pesca é a principal actividade geradora de renda da grande maioria da população rural guineense e também produto de exportação do país.

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