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Independentistas sem apoio suspendem o "movimento"

Altino Matos

O líder da Catalunha, Carles Puigdemont, colocou o movimento pela saída do reino de Espanha numa encruzilhada, ao fazer a declaração de independência com carácter de suspensão e sugerindo a Madrid que aceite dialogar com a região.

Líder da Catalunha Carles Puigdement obrigado a esclarecer se declarou mesmo a independência ou fez uma declaração para iniciar conversações
Fotografia: Lluis Gene | afp

A imprensa espanhola refere que Carles Puigdemont trocou “as mãos pelos pés” e anunciou uma caminhada pela independência, que ele próprio e os seus colaboradores sabem que não tem espaço para “andar.” “Puigdemont apenas não quis desagradar aos seus e aos poucos que querem sair de Espanha”, lê-se num dos textos do “El País”.
A declaração de Carles Pugdemont no parlamento da Catalunha foi antecedida de um movimento contrário aos desejos de independência, que derivou na retirada de grupos económicos, financeiros e comerciais que deslocaram as suas sedes para outras regiões do reino de Espanha, um método usado pelos decisores para que não fossem apanhados em contra-mão.
A Catalunha, a partir daí, entrou numa fase de grande indecisão, que pôs os catalãs a pensar no dia seguinte à independência, “o que seria de nós?” Em linha com esse movimento, vieram as declarações políticas da União Europeia, dos Estados Unidos e de figuras de grande influência na arena internacional a pedir diálogo entre as partes mas, algo não menos importante, a dar a conhecer aos líderes catalãs que não teriam apoio nem deviam contar com o reconhecimento político das instituições internacionais.      
O movimento independentista, que já havia “esticado a corda de mais”, com o referendo do dia um de Outubro arrancado a “ferro e fogo” e que deixou centenas de feridos como resultado da batalha campal com a Polícia Nacional, não tinha mais volta a dar, senão avançar com declaração de independência, de tal sorte, e sem capital político para a pôr em marcha.
Os líderes independentistas assinaram um documento declarando a independência da Catalunha perante a Espanha, mas não ficou claro se o documento teria algum valor legal. “A Catalunha restaura hoje (terça-feira) a sua plena soberania”, informa o documento, designado “declaração dos representantes da Catalunha.” 
“Pedimos a todos os Estados e organizações internacionais que reconheçam a República catalã como um Estado independente e soberano. Solicitamos ao governo catalão que tome todas as medidas necessárias para tornar possível e efectiva esta declaração de independência e as medidas contidas na lei de transição que funda a República”, reza a declaração. O líder catalã, Carles Puigdemont, disse no Parlamento  que os efeitos da declaração seriam suspensos para dar tempo para que as negociações alcancem uma solução negociada para o impasse sobre a região. Uma contradição a que Madrid disse não ter nexo e demonstrar a grande irresponsabilidade dos seus mentores.

Apelos ao diálogo
O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, pediu ao líder do governo da Catalunha, Carles Puigdemont, que reconsidere a sua posição, abandone a ideia de independência e respeite a ordem constitucional de Espanha. “Peço ao senhor que respeite a ordem constitucional e que não anuncie uma decisão que tornaria esse diálogo impossível”, disse Tusk, num pronunciamento no Comité das Regiões da União Europeia (UE), depois de lembrar que no dia dois de Outubro foi pedida uma conversa com o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy.
Depois de citar os desafios que a UE enfrenta, como a crise migratória e o ‘brexit’, ele dirigiu-se a Puigdemont. “Dirijo-me ao senhor não só como o presidente do Conselho Europeu, mas também como alguém que acredita fortemente no lema da UE: 'unidos na diversidade' e como membro de uma minoria étnica, como regionalista”, disse o presidente da Comissão, Donald Tausk, que também já foi primeiro-ministro da Polónia.

Governo afirma que o respeito pela Constituição é a solução

O primeiro-ministro da Espanha, Mariano Rajoy, afirmou ontem que o governo solicitou à Catalunha um pedido formal de esclarecimento se ela declarou ou não independência, depois do discurso do líder catalão, Carles Puigdemont, feito na terça-feira sobre o referendo realizado no dia um de Outubro.
Puigdemont disse, na terça-feira, que milhões de catalães apoiam a independência da região, contudo, adicionou que Barcelona estaria pronta para suspender a proclamação para continuar a negociar com Madrid.
O Governo espanhol exige que as autoridades da Catalunha expliquem se declaram ou não a independência, avisando, assim, sobre a possibilidade de aplicar o artigo 155º da Constituição do país que admite suspender a autonomia, afirmou o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy. “O governo exigirá que as autoridades catalãs expliquem se declaram ou não a independência”, afirmou. De acordo com Rajoy, “esta exigência é necessária para se poder aplicar o artigo 155º da Constituição. “Desta forma, queremos deixar os nossos cidadãos confiantes”, acrescentou Rajoy.
“A resposta da generalidade da Catalunha vai definir as decisões que serão tomadas pelo Governo espanhol nos próximos dias”, esclareceu o primeiro-ministro. Madrid considera ilegítimo o referendo sobre a independência da Catalunha, realizado em de Outubro. Durante o dia do referendo, em várias zonas eleitorais, confrontos entre a Polícia e participantes da votação vieram à tona; pessoas saíram feridas, tanto polícias como votantes. De acordo com as autoridades catalãs, 90,18 por centro votaram a favor da independência da região.

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