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Irão escapa a novas sanções

Victor Carvalho |

Os Estados Unidos da América (EUA) anunciaram ontem a decisão de manter em vigor, por mais 60 dias, o acordo nuclear com o Irão, respondendo assim a um apelo feito pela União Europeia (UE) e pelas Nações Unidas no sentido de não criar um novo foco de potencial conflito internacional.

Governo do Irão diz que vai manter todas as actividades nucleares previstas pelo acordo em vigor
Fotografia: Abubeker | AFP

O Irão já reagiu e o ministro dos Negócios Estrangeiros disse que o seu país considera que os EUA “cruzarão a linha vermelha” se aplicarem novas sanções ao seu país.
A Casa Branca havia anunciado há uma semana a intenção de anular o acordo e impor novas sanções ao Irão como forma de pressionar o seu Governo a rever uma série de decisões que, segundo o seu ponto de vista, colocam em causa a liberdade e os direitos humanos dos iranianos e ameaçam a estabilidade regional.
Entre as medidas de sanção previstas pelos EUA está a de considerar o Ayatollah Sadeq Larijani, líder do poder judiciário iraniano, e mais 14 personalidades, como directamente responsáveis de terem cometido o crime de “abuso dos direitos humanos”, interditando por isso as suas viagens internacionais para determinados destinos. As autoridades iranianas disseram que se isso suceder, irão retaliar, não especificando de que forma nem sobre que alvos.
Depois de várias ameaças de que ia “rasgar” o acordo de 2015, assinado entre o Irão, os EUA, Rússia, China, Reino Unido, França e Alemanha, que pôs fim às sanções contra Teerão em troca de uma limitação do programa nuclear iraniano, Donald Trump disse ser esta a “última vez” que mostra alguma contenção em relação ao que se passa naquele país.
Os EUA querem que os restantes signatários do acordo nuclear com o Irão aceitem também manter até 2025 as medidas agora em vigor sobre as restrições ao programa deste país sobre o enriquecimento de urânio e, eventualmente, aprovar outras que se tornem necessárias. O Governo norte-americano vai tomar uma nova decisão sobre se prescinde ou não das sanções contra Teerão dentro de 60 dias. Até lá, disse um alto responsável dos EUA, Washington pretende “trabalhar com os parceiros europeus” sobre novos termos do acordo, para endurecer as condições do texto que foi assinado em 2015. Três altos responsáveis da Casa Branca indicaram ontem que, apesar de prescindir de aplicar agora as sanções, Donald Trump também deixou uma ameaça de que vai mesmo sair do acordo se não houver uma renegociação dos termos até à Primavera no Hemisfério Norte.
O último argumento que Donald Trump tem exibido para “rasgar” o acordo com o Irão está relacionado com as manifestações populares contra o regime a pretexto de uma luta contra o aumento dos preços de bens essenciais.
Durante mais de uma semana, vários milhares de populares saíram às ruas de diferentes cidades iranianas para expressarem a sua condenação em relação às medidas anunciadas pelo Governo, numa acção que rapidamente se transformou numa manifestação contra o próprio regime.As autoridades reagiram com violência matando cerca de duas dezenas de pessoas e detendo mais de mil, muitas delas ainda a aguardar pela sua libertação.
Os EUA criticaram directamente o Governo iraniano pela situação e exigiram a libertação imediata das pessoas que haviam sido presas, ao mesmo tempo que ameaçaram rever o acordo nuclear caso essas manifestações fossem impedidas.
As autoridades iranianas ignoraram os “avisos” norte-americanos e numa acção que apanhou o Mundo de surpresa anunciou a condenação à morte de pessoas acusadas de tráfico de droga.
Acontece que o Irão tinha anunciado, na altura da assinatura do acordo nuclear, que já não estava a aplicar a pena de morte no país, sendo este anúncio entendido pelos EUA como uma forma de resposta aquilo que considera ser a “ingerência do Ocidente” nos seus assuntos internos. Organizações internacionais de defesa dos direitos humanos têm denunciado que o Irão executa secretamente todos os anos centenas de pessoas acusadas de crimes relacionados com a droga.

Proibido o ensino da língua inglesa

O Governo iraniano acaba de proibir o ensino da língua inglesa nas escolas primárias, considerando que o país está a ser vítima de uma “invasão cultural”.
O Ministério da Cultura anunciou esta decisão sublinhando que os alunos das escolas primárias se devem concentrar em aprender a língua persa e a cultura islâmica e não se deixarem afectar por esta “invasão cultural”.
No actual sistema de ensino iraniano, o inglês é a principal língua estrangeira de opção, começando oficialmente a ser ensinada a partir dos 12 anos.
Porém, a sua popularidade estava a fazer com que em muitas instituições de ensino do país ela fizesse parte das disciplinas de algumas escolas primárias, sobretudo em Teerão.
Esta proibição, que se estende ao ensino particular e privado, é apenas mais uma das medidas isolacionistas que o Irão tem vindo a adoptar para não deixar “contagiar” a sua população pela cultura ocidental.
O presidente Hassan Rouhani, considerado um liberal rodeado de ayatollahs (líderes religiosos) radicais, havia referido há dois meses que a língua inglesa deveria ser aprendida desde cedo nas escolas para que as pessoas possam fazer frente aos desafios das novas tecnologias e assim ajudar o país a desenvolver-se.
Opinião contrária e pelos vistos mais decisiva, foi depois expressa pelo Ayatollah Khamenei, líder do clérigo, que criticou a expansão do ensino do inglês nas escolas primárias. Segundo ele, “o desenvolvimento do ensino de línguas estrangeiras às nossas crianças insere-se na estratégia ocidental de adulterar a nossa cultura”.

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