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Joaquim Barbosa apontado como o “salvador da pátria”

Sebastian Smith | AFP

Enquanto os brasileiros anseiam por sangue novo num mundo político completamente desacreditado, o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal do Brasil (STF), Joaquim Barbosa, desponta como uma opção para as eleições de Outubro.

Juiz do caso “Mensalão” é assediado mesmo sem ter ainda definido se é candidato às eleições
Fotografia: DR

Embora Barbosa - que tem origem humilde e começou a sua vida profissional como funcionário de limpeza - ainda não tenha se declarado candidato, o seu nome está no centro de muitas especulações.
Na semana passada, quando participou numa reunião do Partido Socialista Brasileiro (PSB), ao qual se filiou recentemente, o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal foi cercado por um grupo de jornalistas curiosos para saber se pretende ser candidato.
“Eu ainda não consegui convencer a mim mesmo de que deva ser candidato”, declarou, acrescentando que a sua família é contrária a isso. Joaquim Barbosa nunca ocupou um cargo electivo. No entanto, muitos analistas vêem o ex-ministro de 63 anos como um candidato poderoso.
A Justiça do Brasil votou a destituição da Presidente Dilma Rousseff em 2016, com a denúncia do seu sucessor, Michel Temer, por corrupção em 2017 e, agora, a prisão de um dos Presidentes mais populares do país, Luiz Inácio Lula da Silva, também por corrupção. Nesse contexto sombrio, os eleitores anseiam por algo novo, por um “outsider”.
A operação “Lava Jato” continua a fazer estragos no meio político, quatro anos após o seu lançamento. O eleitor agora exige que seu novo Chefe de Estado seja impoluto e lidere firmemente a luta contra a corrupção, que corrói o país. Uma candidatura de Barbosa poderia ser uma resposta a estes anseios.
No STF, ele iniciou uma cruzada contra a corrupção em 2005, com o escândalo do “Mensalão”, que derrubou dirigentes muito próximos a Lula no PT, acusados de um esquema de compra de votos. Além disso, desde a sua aposentação em 2014, o juiz não apareceu muito em público e não teve envolvimento em nenhum escândalo. Para Carlos Siqueira, presidente do PSB, Barbosa é a pessoa que pode curar as feridas abertas do Brasil.
“Trouxemos alguém de fora do mundo da política, mas que não seja contra a política, que entenda que é através da política que nós podemos encontrar uma solução para a crise”, explicou.
“O eleitorado dele, que é o mesmo do partido, é de centro-esquerda, e quer o regresso da normalidade no Brasil”, acrescentou. Uma sondagem do Datafolha divulgada após a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva neste mês garantiu o terceiro lugar, com 10 por cento das intenções de voto, para Joaquim Barbosa, um percentual especialmente animador uma vez que ele ainda não é candidato declarado.

Diplomata e poliglota

Joaquim Barbosa também tem uma história de vida sedutora, capaz de competir com as origens humildes de Lula. Primogénito de oito filhos de pai pedreiro, começou a trabalhar como funcionário de limpeza de um tribunal do trabalho em Brasília.
Estudou Direito na Universidade de Brasília, foi diplomata por um breve período e tornou-se poliglota enquanto galgava o seu caminho para a Suprema Corte, onde se tornou o primeiro presidente negro. Se fosse eleito, não seria o primeiro Chefe de Estado negro do Brasil, tendo sido precedido pelo efémero Presidente Nilo Peçanha há mais de um século (1909-1910).
Mas a chegada à chefia de Estado teria uma forte carga simbólica, num país onde mais de metade da população se define como negra, ou parda, mas o racismo persiste e quase nenhum negro tem posição proeminente na política e nos negócios.
No entanto, os analistas também apontam para as fragilidades de Barbosa, como a aparente falta de clareza nas suas tendências políticas e económicas e sua inexperiência na política. Ele é visto como um centrista que pode conquistar os eleitores que não gostam da esquerda de Lula e da extrema-direita representada por Jair Bolsonaro.
“É difícil saber se ele vai se inclinar mais para a esquerda e tentar capturar o voto de Lula, ou permanecer fiel à sua imagem, e mais de centro-direita”, afirma Michael Mo-hallem, professor de Direito da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
“Mas ele terá que decidir”, enfatiza. O seu temperamento é frequentemente definido como problemático. No STF, muitas vezes foi arrogante e irascível.
A questão é se o homem que já combateu as elites corruptas conseguirá chegar ao topo, uma vez que o favorito dos eleitores, Lula, poderá ser declarado inelegível.
“Hoje, no Brasil, tudo é possível”, diz Sylvio Costa, fundador do site político “Congresso em Foco”.

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