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Julgamento de Jacob Zuma começa hoje em Durban

Victor de Carvalho

O ex-Presidente sul-africano, Jacob Zuma, começa hoje a ser julgado em Durban num processo onde está acusado por vários crimes de corrupção, abuso de poder e branqueamento de capitais.

Julgamento do ex-Chefe de Estado sul-africano mobiliza milhares de pessoas em Durban
Fotografia: DR

Este julgamento, que foi antecedido de uma vigília popular de apoio que mobilizou milhares de pessoas à porta do tribunal onde decorrem as sessões, está a concentrar as atenções da opinião pública em todo o mundo, não só pelos crimes em si mas, sobretudo, pelo impacto político que vai ter na África do Sul a um ano da realização de eleições.
O facto de o julgamento decorrer em Durban, capital do estado de onde ele é natural, joga claramente a favor de Jacob Zuma não só pelo apoio popular que lhe será dado pelos seus conterrâneos como também pelos rumores que circulam sobre a possibilidade de o antigo Presidente da República poder estar a alimentar o aparecimento de uma nova formação política.
Estes rumores, não obstante o desmentido recentemente feito por Jacob Zuma, têm sido alimentados por pessoas do seu círculo político íntimo, onde se destacam Mazibuyele Emasisweni e Reggie Ngcobo, deputados do ANC pelo Kwazulu Natal e fiéis aliados de longa data.
Aliás, Reggie Ngcobo, em declarações prestadas esta semana à imprensa, disse mesmo que “ainda não temos uma decisão sobre a formação, ou não, de um novo partido político”.
Segundo Reggie Ngcobo, só daqui a 30 dias é que ha-verá uma certeza em relação à eventual constituição de um novo partido e se ele será eventualmente liderado por Jacob Zuma.
Mas, não foi por um mero acaso que os rumores sobre a eventualidade de Jacob Zuma apadrinhar uma nova formação política surgem com maior intensidade a poucos dias do arranque do seu julgamento.

Estratégia de politização
Desde o início do processo, quando ele ainda estava em fase de investigação, o antigo Presidente da República optou por uma estratégia que visava a politização do mes-mo, numa tentativa de colagem ao ANC de modo a não perder o apoio dos actuais dirigentes, incluindo o de Cyril Ramaphosa.
Perante alguma indiferença manifestada pelos principais dirigentes do partido, Jacob Zuma “refugiou-se” entre os seus aliados políticos do Kwazulu Natal para mostrar que está politicamente vivo.
A seu favor joga o facto do julgamento decorrer em Durban, onde desde logo sabe que não lhe faltará o conforto do apoio popular, que certamente aproveitará para enviar “mensagens” políticas para as fileiras do ANC.
A forma como Jacob Zuma aproveitar a mediatização deste julgamento será absolutamente determinante para avaliar o seu futuro político e, também, o papel que poderá desempenhar, tendo em conta as eleições do próximo ano, dentro ou fora do ANC.
O próprio ANC está nesta altura dividido e hesitante entre manter o actual distanciamento em relação à situação incómoda em que se encontra o seu antigo líder, ou em dar sinais de alguma solidariedade traduzidos num apoio e acompanhamento discreto sobre o modo como decorrerá o julgamento.
É que, na verdade, o peso político de Jacob Zuma não pode ser ignorado quando as eleições estão apenas a um ano de distância.
O ANC tem consciência disso e sabe que o seu antigo líder joga no julgamento que hoje se inicia uma importante cartada política a que junta o trunfo da possibilidade de criar um novo partido para com ele concorrer às eleições de 2019.
Por isso, as 16 acusações de ter efectuado 783 transacções irregulares enquanto Presidente da República, são para Jacob Zuma como que um “argumento” que aproveitará para esgrimir a sua defesa e, com ela, apresentar um “manifesto político” que tanto pode servir o ANC como o partido que ele eventualmente patrocinar.
Tudo isto num “filme” que arrebatará paixões e mobilizará a opinião pública, através da imprensa para a antecâmara daquilo que serão as eleições de 2019 em termos de liderança política.

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