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Mais de 50 milhões de pessoas em risco agravado de fome extrema em África

A estimativa é feita no relatório “O vírus da fome: como a Covid-19 está a aumentar a fome num mundo faminto”, da Organização Não-Governamental Oxfam, que analisa os impactos da doença em países onde a situação alimentar e nutricional das populações era já extrema antes da pandemia.

Fotografia: DR

A organização elaborou uma lista de 10 países/regiões com níveis de “fome extrema” em finais de 2019, onde se contam a República Democrática do Congo (15,6 milhões de pessoas), a Etiópia (8 milhões de pessoas), o Sudão do Sul (7 milhões de pessoas) e o Sudão (5,9 milhões de pessoas). A lista inclui ainda a região ocidental do Sahel, que cobre o Burkina Faso, Mali, Mauritânia, Níger, Chade, Senegal e Nigéria, com uma estimativa de 9,8 milhões de pessoas em situação de fome extrema.

Globalmente, os 11 países africanos concentram 46,3 milhões de pessoas em crise alimentar, mas o estudo projecta que, só na região do Sahel, as medidas tomadas para conter a propagação do novo coronavírus possam atirar mais de 50 milhões de pessoas para situações de insegurança nutricional e alimentar, expondo-as a um maior risco de fome extrema.

“Entre Março e Maio de 2020, estimava-se que cerca de 13,4 milhões de pessoas necessitavam de assistência alimentar imediata em toda a região, empurradas para a fome devido a conflitos, alterações climáticas e ao fracasso dos governos em apoiar os pequenos produtores e distribuir igualmente a riqueza”, aponta-se no estudo.

A violência forçou 4,3 milhões de pessoas a fugirem das suas casas e deixou 24 milhões a precisar de ajuda humanitária urgente, metade das quais crianças. A insegurança afecta também a capacidade das pessoas para cultivarem as terras e manterem o gado, especialmente no Chade, Burkina Faso e Norte do Senegal.

“As medidas para conter a pandemia afectaram o acesso aos mercados, a produção e os preços dos alimentos. O encerramento das fronteiras levou a aumentos acentuados no preço dos alimentos e dos produtos agrícolas importados em toda a região, com o Mali a ver os preços a aumentar em 10 por cento em média, e a Nigéria a registar aumentos de 30 por cento”, adianta a Oxfam.

De acordo com o relatório, as medidas de encerramento impostas em muitas cidades, em resposta à pandemia, tiveram um impacto significativo nos produtores - muitos dos quais são mulheres - com produtos perecíveis como fruta, legumes e leite a ficarem estragados devido ao encerramento dos mercados.

As restrições à circulação impediram também que milhões de pastores conduzissem o gado para pastagens no Sul, entre Março e Junho, ameaçando a sobrevivência de rebanhos inteiros. Neste contexto, alerta a Oxfam, “a pandemia poderá levar mais de 50 milhões de pessoas adicionais a uma crise alimentar e nutricional”, numa altura em que foram mobilizados apenas 26 por cento dos 2,8 mil milhões de dólares (2,47 mil milhões de euros) necessários para a resposta humanitária no Sahel.

“Milhões já estão a lutar para conseguir comer uma vez por dia. As mulheres, que muitas vezes ficam sem comida para poderem alimentar os filhos, correm um risco particular”, adianta a organização.

Sudão do Sul

No Sudão do Sul, o estudo refere que, antes da pandemia, mais de 60 por cento das pessoas enfrentavam níveis diversos de fome e quatro em cada cinco pessoas viviam abaixo do limiar da pobreza, num país há sete anos em conflito e onde 80 por cento das pessoas dependem da agricultura. As Nações Unidas advertiram que a fome ameaça a vida de até 5,5 milhões de pessoas, com as secas e inundações periódicas a destruírem culturas e gado, e a queda dos preços do petróleo a ter “um impacto devastador” num país que depende do sector petrolífero para 98por cento do seu Produto Interno Bruto (PIB).

Por outro lado, a diminuição da assistência humanitária terá também um impacto significativo num país onde 7,5 milhões de pessoas dependem desta ajuda para sobreviver.

África do Sul

O relatório aponta ainda a África do Sul como uma “zona emergente” de fome, adiantando que, antes da pandemia, 13,7 milhões de pessoas que viviam na África do Sul não tinham acesso a alimentos suficientes devido aos elevados níveis de desemprego, à falta de acesso a bens como terra ou licenças de pesca, e ao elevado e crescente preço dos alimentos.

De acordo com a Oxfam, desde o início do confinamento no país, sondagens semanais revelaram que o desemprego e a perda de rendimentos estão a ter um impacto directo na segurança alimentar. “Um em cada três adultos inquiridos disse que ia para a cama com fome e um quinto tinha perdido peso durante o confinamento devido à falta de alimentos”, refere o documento, adiantando que o “problema é particularmente agudo nas zonas urbanas”.

Brasil é “zona emergente”

A Oxfam sinalizou o Brasil como “zona emergente” de fome extrema, adiantando que a pandemia de Covid-19 veio acelerar o crescimento da pobreza e da fome em todo o país. O Brasil surge com esta classificação, juntamente com a Índia e a África do Sul, no relatório “O vírus da fome: como a Covid-19 está a aumentar a fome num mundo faminto”, desta Organização Não-Governamental.

De acordo com a ONG, a situação da pobreza e fome no Brasil começou a deteriorar-se em, 2015 devido “à crise económica e a quatro anos de austeridade”. “Até 2018, o número de pessoas que sofriam de fome no Brasil tinha aumentado em 100 mil para 5,2 milhões graças a um forte aumento da pobreza e do desemprego, e a cortes radicais nos orçamentos para a agricultura e a protecção social”, refere-se no documento, que aponta os cortes no programa Bolsa-Família e, desde 2019, “um desmantelamento gradual” das políticas e instituições destinadas a combater a pobreza.

“A pandemia Covid-19 foi agora acrescentada a esta mistura já tóxica, causando um rápido aumento da pobreza e da fome em todo o país. As medidas de distanciamento social introduzidas para conter a propagação do coronavírus e evitar o colapso do sistema de saúde pública agravaram a crise económica”, acrescenta-se no estudo.

A ONG recorda que milhões dos trabalhadores mais pobres, que têm poucas economias ou benefícios, perderam empregos ou rendimentos, sem que tenham sido beneficiados por apoios governamentais. “Até final de Junho, o Governo federal distribuiu apenas 10 por cento da ajuda financeira prometida aos trabalhadores e empresas, através do Programa de Apoio Emergencial ao Emprego (PESE), com as grandes empresas a obterem mais benefícios do Governo do que os trabalhadores ou micro e pequenas empresas”, aponta a Oxfam.

Da mesma forma, apenas 47,9 por cento dos fundos destinados à ajuda de emergência a pessoas vulneráveis tinham sido distribuídos até ao início de Julho. Por isso, a ONG entende que “o Governo federal está a falhar no apoio às pessoas mais vulneráveis do Brasil”. De acordo com a Oxfam, a implementação do programa de Renda Básica de Emergência regista longos atrasos na resposta aos pedidos de ajuda, recusas injustificadas de ajuda, falta de telemóveis, ligações à Internet e endereço de e-mail para se qualificar a assistência.

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