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Mandela, a presidência, a renúncia e o legado

Santos Vilola

As eleições de 1994 encerraram oficialmente, na África do Sul, um impiedoso reinado da era do regime de segregação racial, conhecido como Apartheid. Com o país em meio a uma guerra civil, a libertação de Mandela encheu os corações dos sul-africanos de alívio e alegria ou, até, de terror, dependendo de onde estava a lealdade de cada cidadão, branco ou negro, durante a guerra civil.

Fotografia: DR

O discurso do primeiro Presidente negro da África do Sul foi o derradeiro capítulo na transição política na África do Sul, que começou com o último Presidente branco, Frederik Willem de Klerk, a libertá-lo da prisão, em 1990. No discurso de investidura, Nelson Mandela afirmou que “as nossas acções diárias como sul-africanos comuns devem mostrar a realidade sul-africana, para reforçar a crença da humanidade na justiça.”
“Nós, o povo da África do Sul, sentimo-nos satisfeitos com o facto de a humanidade ter nos levado de volta ao seu seio, de que nós, que éramos criminosos há pouco tempo, hoje recebermos o raro privilégio de acolher as nações do mundo no nosso país”, acrescentou Mandela, num discurso no Parlamento, depois do juramento conjunto com o seu Vice-Presidente, Thabo Mbeki.
Neste discurso, Tata Madiba, como Nelson Mandela é carinhosamente tratado, usou uma frase que viria a inspirar a Sétima Arte (o cinema) e um livro: “Um longo caminho para a liberdade”. A frase original dizia que “os sul-africanos entendem que não foi um caminho fácil para a liberdade”, a que acrescentou que “nenhum de nós agindo sozinho pode alcançar o sucesso.”
A data é lembrada também como a do nascimento da “Nação Arco-Íris”, por ter marcado o início da convivência entre negros e brancos. “Devemos, portanto, agir juntos como um povo unido. Pela reconciliação nacional, pela construção da nação, pelo nascimento de um novo mundo. Que haja justiça para todos, que haja paz para todos. Que haja trabalho, pão, água e sal para todos”, pedia Nelson Mandela.
O novo Presidente sul-africano garantia que a transição de uma sociedade racista para uma democracia fosse tranquila. Chegou a fazer campanha pelo país, dando garantias de que, apesar de minoritários, os brancos tinham lugar na nova África do Sul que pretendia edificar. A reconciliação foi o tema dominante da sua presidência.
Nelson Mandela passou os primeiros 18 dos 27 anos de prisão na penitenciária de Robben Island. As primeiras eleições multi-raciais aconteceram também há 26 anos, marcando o fim do Apartheid. Mais de um quarto de século depois, as tensões raciais persistem na África do Sul.
“Estamos empenhados em construir uma sociedade em que todos os sul-africanos, negros e brancos, possam andar de cabeça erguida (...) - uma Nação Arco-Íris em paz consigo mesma e com o mundo”, disse Nelson Mandela, no seu discurso de investidura a Presidente, duas semanas depois do escrutínio histórico vencido pelo ANC.
A eleição do primeiro Presidente negro da África do Sul acendeu as esperanças de uma nação inteira, que viveu meio século de políticas segregacionistas. Mas, 26 anos depois, não há um único branco a viver no Soweto. O bairro, criado pelo regime segregacionista do apartheid para acolher negros, ainda reflecte a divisão entre brancos e pretos. Segundo estatísticas oficiais do ano passado, 81% da população é composta por negros, 7,8% são brancos, 2,5% indianos e asiáticos e 8,8% outras raças.
Apesar do surgimento de uma classe média, 20% dos agregados familiares negros vivem em extrema pobreza, em comparação com 2,9% dos agregados familiares brancos, de acordo com o Instituto Sul-Africano de Relações Raciais (IRR). O desemprego afecta 41,5% dos sul-africanos negros, em comparação com 11,7% dos sul-africanos brancos e apenas 10% dos agregados familiares negros têm cobertura médica, em comparação com 71,7% dos agregados familiares brancos.
As desigualdades estendem-se à distribuição da terra. Hoje, a minoria branca (8% da população) ainda possui 72% das fazendas, contra apenas 4% para os negros (80% da população).

Perdão e reconciliação

Quando os sul-africanos, com a chegada de Nelson Mandela ao poder, esperavam por uma vingança sectária contra a minoria branca, o Presidente faz da reconciliação o tema principal da sua agenda política. Começa por manter sul-africanos brancos na sua guarda republicana, contra a resistência da maioria negra.
Vítima do sistema cujos princípios assentavam na discriminação e desigualdade a favor da maioria branca, ao invés da vingança, Nelson Mandela apareceu com uma mensagem muito diferente.
“Chegou a hora de curar as feridas. Chegou o momento de colmatar os abismos que nos dividem”, disse Mandela, no dia 10 de Maio de 1994.
O ópio do povo sul-africano é o râguebi e a sua chegada ao poder coincide com a realização do primeiro Campeonato do Mundo da modalidade no continente africano. A maioria negra defendia a mudança do nome do conjunto nacional, de Springboks, designação do tempo do apartheid, para Proteas. Mandela interfere e convence o povo a manter o nome original.
Foi no estádio Loftus Versfeld onde, brancos e negros sul-africanos “inauguraram” a “Nação Arco-Íris” baptizada com o fim do regime segregacionista do apartheid. Mas negros e brancos concordaram, entretanto, em manter o nome original “Mzanzi”, Sul ou o país do Sul.
O estádio, localizado na cidade de Tswane (nome tradicional da capital do país, Pretória), província de Gauteng, que compreende também Joanesburgo, acolheu a cerimónia de abertura do primeiro Campeonato do Mundo de Râguebi, em 1995, um ano depois de Nelson Mandela ter sido eleito primeiro Presidente da República pôs-apartheid.
Na festa mundial do desporto mais popular na África do Sul, Mandela esteve na cerimónia de abertura, percorrendo o relvado. Tinha o país apenas um ano do fim do apartheid, que o isolava do mundo.
Os sinais de reconciliação vão desde o uso da camisola verde dos Springboks, um símbolo da supremacia branca, na final da Campeonato do Mundo de Râguebi, no estádio Ellis Park, em Joanesburgo, ao chá com os seus ex-carcereiros, além de visitar Betsie Verwoerd, em Orania.
Elizabeth "Betsie" Verwoerd foi a esposa do Primeiro-Ministro da África do Sul de 2 de Setembro de 1958 até o assassinato de seu marido Hendrik Verwoerd, a 6 de Setembro de 1966. Hendrik Frensch Verwoerd foi um político da África do Sul, criador e principal implantador do regime de segregação racial conhecido como apartheid, que categorizava os negros e outras etnias do país como uma "sub-classe" de cidadãos.
“Nunca, nunca e nunca mais esta bela terra experimentará novamente a opressão uma da outra e sofrerá a indignidade do mundo. Deixe a liberdade reinar”, disse Nelson Mandela no discurso.

A retirada, 5 anos depois

Uma das marcas da governação de Nelson Mandela foi a instituição da Comissão da Verdade e Reconciliação, que investigou os crimes do Apartheid, de ambos os lados, e tentou curar as feridas de um passado sombrio e cruel.
O modelo da Comissão criada por Nelson Mandela foi exportado para outros países atingidos por conflitos armados sangrentos. Várias individualidades integraram a Comissão, dirigida pelo arcebispo anglicano Desmond Tutu.
Cinco anos depois de assumir a presidência do país, Nelson Mandela surpreendeu o mundo, sobretudo África, ao anunciar a sua aposentação da política. Aos 80 anos, o “Pai da Nação Arco-Íris” deixava o poder para o seu Vice-Presidente, Thabo Mbeki.
Entre acções de beneficência é uma vida virada à humanidade, Mandela fez a sua última aparição pública, doente, em cadeira de rodas, em 2010, na cerimónia de abertura do primeiro Campeonato do Mundo de Futebol da FIFA, realizado naquele país.
Nelson Rolihlahla Mandela nasceu a 18 de Julho de 1918, filho do conselheiro-chefe do chefe supremo do povo Thembu em Transkei. Mandela escolheu dedicar a sua vida à luta contra o Governo da minoria branca. Estudou na Universidade Fort Hare, numa faculdade para a elite negra, em 1940. Pouco depois de concluir os estudos, ingressou no Congresso Nacional Africano (ANC), fundando o braço juvenil do partido. Marcado como terrorista pelas autoridades do apartheid, Mandela pagou um preço muito alto pelo seu activismo político.
Acusado de sabotagem e conspiração para derrubar o Governo, Mandela foi condenado a prisão perpétua, em 1964, isolado de milhões dos seus compatriotas, sofrendo opressão e violência do regime do Apartheid.
Mas a violência e a discriminação não cessaram quando ele estava por detrás das grades. Assim que o regime percebeu que era hora de negociar, depois de anos de violência e opressão, foi a Mandela que recorreu. De 1994 a 1999, Mandela concentrou-se em tentar curar as feridas da Nação segregada por décadas.
Em 1999, entregou o poder a líderes mais jovens, que considerava bem equipados para dirigir uma economia em rápido crescimento e em rápida modernização - um exemplo raro num líder africano que se afasta voluntariamente do poder.
“Deixo para o público decidir como eles devem se lembrar de mim", disse, em directo, na televisão nacional sul-africana, antes de se aposentar.
“Mas eu gostaria de ser lembrado como um sul-africano comum, que, juntamente com outros, fez sua humilde contribuição”, concluiu humildemente o seu discurso.

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