A morte do cidadão afro-americano George Floyd, há uma semana, por um agente da Polícia, com a cumplicidade de outros três, continua a gerar um vasto movimento de protesto em várias cidades dos Estados Unidos.
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George Floyd, 46 anos, era natural de Minneapolis, Estado do Minnesota (Norte), nos EUA e foi morto por um agente da Polícia local, acto que provocou indignação popular não só nos EUA, mas também no mundo inteiro.
Após a acção policial, deu-se início aos distúrbios que desembocaram em confrontos violentos entre os manifestantes e os polícias que se alastram há vários dias nas principais cidades norte-americanas. George Floyd foi morto depois de ter sido detido sob suspeita de ter tentado usar uma nota falsa de 20 dólares num supermercado da cidade de Minneapolis.
Nos vídeos feitos por transeuntes e difundidos “online”, um dos quatro agentes, que participaram na detenção, aparece com um joelho sobre o pescoço de Floyd, durante mais de oito minutos. De acordo com as últimas notícias difundidas pelos canais noticiosos internacionais, os quatro agentes foram despedidos da força policial e encontram-se detidos.
Os distúrbios começaram tão logo se difundiu o vídeo que mostrava a morte de Floyd nas redes sociais com a invasão de uma esquadra policial em Minneapolis. Um porta-voz da Polícia da cidade confirmou que a terceira esquadra, situada perto do local onde Floyd morreu, foi evacuada “no interesse da segurança do pessoal que mora próximo”.
Na sequência dos acontecimentos, o Presidente norte-americano, Donald Trump, prometeu, ontem, “travar a violência colectiva”, após várias noites de distúrbios tanto em Minneapolis, como em várias cidades de muitos Estados norte-americanos. De acordo com a agência de notícias Associated Press, a Polícia deteve cerca de dois mil cidadãos em 17 cidades e espera-se que este número seja superior, nos próximos dias, tendo em conta o curso dos acontecimentos.
Em Minneapolis, agentes com equipamento anti-motim carregaram sobre manifestantes, que desafiaram o recolher obrigatório, disparando granadas de gás lacrimogéneo e de atordoamento. Em cidades como Nova Iorque, Filadélfia, Los An-geles e Atlanta, Chicago, Mi-ami, Dalas, Las Vegas, Seattle e Memphis, entre outras, foi decretado o recolher obrigatório, porém, e, apesar da pandemia da Covid-19, as populações continuam a desafiar a medida, exigindo justiça.
O Presidente Donald Trump, que denunciou a “morte trágica” de Floyd, atribuiu os confrontos a “grupos da ex-trema esquerda radical” e ao “Antifa” (antifascistas). “Não devemos deixar que um pequeno grupo de criminosos e vândalos destrua as nossas cidades”, declarou.
Também o governador do Minnesota, Tim Walz, denunciou elementos exteriores ao Estado e apontou como possíveis anarquistas, mas também supremacistas brancos ou traficantes de droga. Para controlar a situação na região, Walz anunciou a mobilização dos 13 mil soldados da Guarda Nacional do Estado e pediu ajuda ao Departamento de Defesa.
Em quase todos os Estados, as unidades da Polícia Militar foram colocadas em estado de alerta para uma eventual intervenção em Minneapolis, à medida que se alastram os distúrbios, precisou o Pentágono. A Polícia Militar só pode intervir em território norte-americano em caso de insurreição. Em Washington, junto à Casa Branca, as granadas de gás lacrimogéneo e focos de incêndio marcaram a noite de sábado.
Em Nova Iorque, centenas de pessoas foram detidas, na sequência de confrontos e vários agentes da Polícia ficaram feridos, enquanto em Atlanta ou em Miami, numerosos veículos policiais foram incendiados, lojas de luxo e armazéns foram pilhados.
ONU condena
A alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michele Bachelet, condenou o caso e apelou às autoridades para adoptarem “medidas sérias” para pôr termo a estas mortes de afro-americanos. “Esta foi a última de uma longa série de mortes de afro-americanos não armados cometidas por polícias norte-americanos e auto-justiceiros. As autoridades norte-americanas devem tomar medidas sérias para pôr termo a estas mortes e assegurar que seja feita justiça quando ocorrem”, indicou Michele Bachelet em comunicado.
Polícias obrigados a ver o vídeo
Passaram vários anos desde que, a 20 de Outubro de 2014, um Polícia disparou 16 vezes contra um jovem afro-americano, Laquan McDonald, causando-lhe a morte. Aconteceu em Chicago e o agente em questão, Jason Van Dyke, não foi acusado de qualquer crime, numa primeira fase, para depois ser condenado, em 2019, a quase sete anos de prisão por homicídio em segundo grau. Entretanto, em Chicago, mudou a chefia da Polícia, entre outras autoridades. Agora, a postura é diferente.
Na quinta-feira, o Departamento de Polícia de Chicago emitiu um comunicado relativo à morte de George Floyd, de 46 anos. Começando por estender condolências à família da víti-ma mortal, o chefe da Polícia, David O. Brown, falou numa “perda inimaginável causada pelas acções inaceitáveis de um agente da Polícia”.
Este crime racial aconteceu em Minneapolis, no Estado do Minnesota, mas David O. Brown reconhece que o problema estrutural e a distância entre Minnesota e Illinois, onde fica Chicago, é muito curta. “É sempre a altura certa de fazer o que é certo”, escreveu. “O que aconteceu em Minneapolis no início desta se-mana é absolutamente repreensível e mancha
os distintivos por toda a nação, incluindo aqui, em Chicago”.
David O. Brown prossegue, escrevendo que “este comportamento não é aceitável em Chicago”, que será “intolerável” sob o seu comando, numa altura em que o Departamento “está a trabalhar arduamente para restabelecer relações autênticas e restaurar a confiança”.
Protestos em Berlim e Londres
Milhares de pessoas juntaram-se, sábado, na Embaixada dos Estados Unidos (EUA) em Berlim, Alemanha, em protesto pela violência policial contra os afro-americanos exigindo justiça para George Floyd. A acção, convocada espontaneamente através das redes so-ciais, decorreu sem incidentes e, segundo as fontes policiais berlinenses, respeitando as normas de distanciamento social, impostas pela pandemia da Covid-19.
Acto similar ocorreu, também, ontem, em Londres, Reino Unido, Toronto, Canadá e muitas outras cidades do mundo, com milhares de cidadãos de várias origens a condenar a violência racial nos Estados Unidos. O protesto na capital alemã foi mais um entre as múltiplas concentrações realizadas em Berlim, a maioria das quais contra as restrições na via pública devido ao coronavírus, exigindo o levantamento total.
Enquanto essas acções tiveram um eco bastante limitado, a da embaixada norte-americana excedeu as expectativas das forças de segurança de Berlim. Os manifestantes carregavam cartazes alusivos à morte de Floyd e contra esse novo caso de violência policial sobre um afro-americano.
Ainda ontem, algumas Embaixadas dos Estados Unidos no continente africano fizeram declarações críticas, dizendo que ninguém está acima da lei. O presidente da Comissão da União Africana, Moussa Faki Mahamat, condenou o “assassinato” de Floyd e disse, na sexta-feira, que a organização continental rejeita “a continuação das práticas discriminatórias contra os cidadãos negros nos EUA”.
Em resposta a uma crítica nas redes sociais, o embaixador norte-americano na República Democrática do Congo, Mike Hammer, disse estar “profundamente perturbado com a morte trágica de George Floyd” e que as “forças de segurança de todo o mundo deveriam ser responsabilizadas”, já que “ninguém está acima da lei”.
Declarações semelhantes foram publicadas pelas embaixadas dos EUA no Quénia, Uganda e Tanzânia. Em comunicado, a família de Floyd saudou, ontem, a detenção do agente, apesar "de tardia" e insuficiente: "queremos uma acusação de homicídio voluntário premeditado e queremos que os restantes agentes sejam detidos". As autoridades de Minneapolis lançaram vários apelos à calma.
Biden lidera sondagens
O previsto candidato democrata, Joe Biden, lidera as intenções de voto nas eleições presidenciais dos Estados Unidos com cinco pontos de diferença de Donald Trump, mas o actual Presidente leva vantagem em Estados decisivos que podem definir o colégio eleitoral, de acordo com uma nova pesquisa conduzida pela CNN com a SSRS.
No levantamento, 51 por cento dos eleitores registados em todo o país apoia Biden, enquanto 46 por cento prefere Trump. Nesses Estados decisivos, 52 por cento favorece Trump e 45 Biden. Os partidários mantêm-se entrincheirados, com 95 por cento dos democratas que apoia Joe Biden e a mesma percentagem dos democratas defende Trump. Os dois candidatos estão próximos entre os que se declaram independentes (50 por cento preferem Trump e 46 por cento Biden, uma diferença dentro da margem de erro), mas a vantagem de Biden é que uma parcela maior dos eleitores identificam-se como democratas.
Os estados decisivos são os 15 em que a decisão na eleição de 2016 foi por oito pontos ou menos. São eles: Arizona, Carolina do Norte, Colorado, Flórida, Geórgia, Maine, Michigan, Minnesota, Nevada, Nova Hampshire, Novo México, Ohio, Pensilvânia, Virgínia e Wisconsin. A pesquisa da CNN foi conduzida pela SSRS entre 7 e 10 de Maio, entre uma amostra nacional e aleatória de 1.112 adultos, entrevistados por telefone. Desses, 1.001 eram eleitores registados, 583 em estados decisivos. Os resultados têm margem de erro de mais ou menos 3,7 pontos percentuais.
A maior vantagem de Trump sobre Biden é na gestão da economia. A maioria dos eleitores, 54 por cento, dizem que confiam mais no Presidente para comandar a economia do país, enquanto 42 por cento prefere Biden. A pesquisa revelou que a percepção do público da economia é a pior desde 2013, com uma parcela crescente que acredita que o dano causado pela Covid-19 pode ser permanente. No entanto, Biden é considerado mais confiável para liderar a resposta à pandemia (51 por cento Biden a 45 Trump) e em assuntos de saúde (54 por cento Biden a 42 Trump).
Violência
O candidato democrata à Casa Branca Joe Biden condenou a violência nos Estados Unidos, na sequência dos protestos contra a morte de George Floyd, afirmando que os americanos têm o direito de se manifestar contra a brutalidade policial.
“Manifestar-se contra tal brutalidade é um direito e uma necessidade", afirmou o candidato em comunicado. Contudo, o candidato presidencial advertiu que "incendiar cidades e provocar a sua destruição gratuita ou a violência que põe vidas em perigo já não é (um direito)”, defendeu.