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Marcelo Rebelo de Sousa reconhece crime de Batepá

O Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, homenageou, quarta-feira, pela primeira vez na história do seu país, os mártires são-tomenses do massacre de Batepá, um episódio sangrento do colonialismo que provocou mais de mil mortos, durante uma cerimónia no quadro da visita de três dias que efectuou a São Tomé e Príncipe e que terminou ontem.

Chefe de Estado português interagiu com vários dirigentes e recebeu carinho das crianças
Fotografia: DR

Marcelo Rebelo de Sousa teve um encontro com o lado sombrio da história do colonialismo português, no segundo dia da visita de Estado a São Tomé e Príncipe, quando depositou uma coroa de flores no monumento dos Mártires da Liberdade, em Fernão Dias.
Naquela localidade, num campo de prisioneiros e em seu redor, a partir de Fevereiro de 1953, morreram mais de mil são-tomenses, alguns torturados até à morte durante uma ofensiva militar comandada pelo governador português Carlos Gorgulho, naquilo que ficou na história como o massacre de Batepá.
Nesta primeira vez, um Chefe de Estado português juntou-se aos são-tomenses na evocação daquilo que é, para este país, o marco do início da revolta contra a ocupação colonial portuguesa, há 65 anos.
Marcelo Rebelo de Sousa não pediu desculpas, mas reconheceu responsabilidades do regime colonial, no fundo, pelo massacre de são-tomenses, a 3 de Fevereiro de 1953, num campo de prisioneiros junto à praia de Fernão Dias.
Foi junto ao mar, no monumento que evoca as vítimas - há cerca de 400 nomes inscritos em seis placas de metal viradas para o mar, mas relatos de testemunhas da época falam em mais de um milhar de vítimas em diferentes zonas da ilha -, que Marcelo Rebelo de Sousa depositou uma coroa de flores e fez um minuto de silêncio com o ministro da Cultura são-tomense ao lado.
O monumento imita em betão o movimento das ondas do mar, onde os são-tomenses acreditam que foram parar alguns dos desaparecidos. A história, escondida pelo regime em Lisboa e nunca verdadeiramente assumida por Portugal, foi agora plenamente assumida por Marcelo, o primeiro Presidente português a visitar o local e a falar do tema.
“Vim aqui homenagear todos aqueles que lutaram pela liberdade e em particular todos os que morreram pela liberdade faz agora precisamente 65 anos”, disse.
Adoptando um tom semelhante ao que já tinha usado durante um jantar oferecido pelo Presidente de São Tomé e Príncipe, na terça-feira, primeiro dia da visita, Marcelo foi o mais claro possível. “Portugal assume a sua história naquilo que tem de bom e de mau e assume, nomeadamente, neste instante e neste memorial aquilo que foi o sacrifício da vida e o desrespeito da dignidade de pessoas e comunidades. Assume essa responsabilidade olhando para o passado, mas ao mesmo tempo para o presente e o futuro”.
O Presidente português terminou ontem a visita oficial de três dias a São Tomé e Príncipe com uma deslocação à ilha do Príncipe.
Além dos encontros oficiais com as autoridades locais, Marcelo Rebelo de Sousa visitou o Pólo Cultural Português e a escola secundária Padrão.
O Presidente luso visitou ainda o Parque da Biodiversidade, uma zona protegida com cerca de 85 quilómetros quadrados rica tanto pelo ecossistema terrestre, como marinho, e onde se estuda, entre outros temas, a diversidade de plantas medicinais.
A ilha do Príncipe foi classificada em Julho de 2012 como Reserva da Biosfera mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).
Nos primeiros dois dias da visita, o Chefe de Estado repetiu que São Tomé é prioritário para Portugal e anunciou que vai ser assinado um acordo económico global durante a visita que o primeiro-ministro, António Costa, vai efectuar ao país até meados deste ano.
Além dos contactos oficiais, Marcelo visitou vários projectos da cooperação portuguesa e destacou a sua importância no país, em resposta às críticas que o primeiro-ministro são-tomense, Patrice Trovoada, fez dizendo que a cooperação com Portugal não está a um nível desejável e que devia ser repensada “com alguma criatividade”.
São Tomé e Príncipe é o quinto país lusófono que Marcelo Rebelo de Sousa visita  desde que tomou posse, em Março de 2016, depois de Moçambique, Cabo Verde, Brasil e Angola.

Oposição pede ajuda
para superar crise

O presidente do Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe - Partido Social Democrata (MLSTP-PSD), principal força política da oposição, pediu a ajuda de Portugal para ultrapassar a actual crise política no seu país, devido ao “impasse político e  institucional” com a formação do Tribunal Constitucional autónomo e a respectiva eleição dos seus juízes.
“Temos eleições este ano e temos que ter um tribunal constitucional que de facto sirva a democracia”, disse Aurélio Martins, que foi recebido por Marcelo Rebelo de Sousa juntamente com outro membro da direcção do seu partido.
“Enquanto constitucionalista e presidente de um país que é um dos principais parceiros de desenvolvimento do nosso país, pedimos os bons ofícios do Presidente Marcelo para que nos ajude a encontrar uma solução para sairmos da crise institucional em que o país está mergulhado”, acrescentou Aurélio Martins.

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