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Milícias anti-Balaka deixam o processo de recenseamento

Victor Carvalho

A detenção em França e posterior extradição para Haia do dirigente desportivo Patrice-Edouard Ngaissona, um dos principais líderes das milícias anti-Balaka da República Centro Africana (RCA), está na base da decisão de dois movimentos que fazem parte daquele grupo anunciarem a sua saída do processo de desarmamento, criado em 2017 e que estava numa fase de implementação.

Extradição para Haia do ex-líder está na base no abandono do processo de
Fotografia: DR

“Chegámos à conclusão de que só as anti-Balaka são julgadas e condenadas”, refere um comunicado do grupo de Patrice-Edouard Ngaissona, que também questionou: “Por que são só as anti-Balaka a serem visados pela justiça?” Em comunicado separado, um outro ramo dos anti-Balaka, dirigido por Maxime Mokom, denunciou aquilo que disse ser “uma caça às bruxas”.
Estes comunicados foram depois complementados com a informação de que as duas facções que integram a milícia anti-Balaka apelaram aos seus representantes para que abandonassem o processo de desarmamento, desmobilização e reintegração, cuja primeira fase foi instituída em 2017 e decorria com o apoio das Nações Unidas.
Na base de tudo isto está Patrice-Edouard Ngaissona, detido face a um mandado nesse sentido emitido em seu nome pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), pela alegada responsabilidade em crimes de guerra e contra a Humanidade, praticados no oeste da RCA, entre Setembro de 2013 e Dezembro de 2014.
Ex-coordenador das anti-Balaka, Patrice-Edouard Ngaissona foi também um dirigente do futebol centro africano e de outros clubes em outros países de África.
Esta sua detenção ocorreu menos de um mês depois de um outro antigo chefe miliciano anti-Balaka, Alfred Yekatom, ser também preso por ordem do TPI.
Um outro líder anti-Balaka, Sébastien Wenezoui, porta-voz de Patrice-Edouard Ngaissona, apelou à contenção defendendo a manutenção no processo de paz da União Africana, mas sublinhando que o movimento anti-Balaka foi uma resposta aos abusos do Séléka, designação do antigo movimento rebelde associado aos muçulmanos.
Não obstante o apelo à calma, já se verificaram manifestações violentas de apoiantes das anti-Balaka em pelo menos dois bairros de Bangui, em particular contra a França, antiga potência colonial acusada de ter abandonado a República Centro Africana.
Criadas em 2013, depois da tomada do poder pelos rebeldes da coligação  Séléka, as milícias anti-Balaka pegaram em armas, invocando interesses dos cristãos e promovendo represálias pelos ataques dos grupos armados sob orientação muçulmana. Depois da queda do Presidente Michel Djotodia, que veio das fileiras do Séléka, em 2014, as anti-Balaka lançaram-se numa caça aos muçulmanos na capital da RCA e arredores, provocando centenas de mortos.
Entretanto, o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas decidiu renovar a missão de paz no país até final deste ano, após difíceis negociações entre a França, os Estados Unidos da América (EUA) e a Rússia. Redigida pela França, a resolução foi aprovada por 13 dos 15 membros do Conselho de Segurança, com a abstenção da Rússia e da China, prevendo-se a manutenção da missão na República Centro Africana até ao dia 15 de Novembro.
Antes de assinar o acordo, a administração de Donald Trump pediu para consultar o Congresso e exigiu que nenhum custo adicional fosse gerado para o prolongamento da missão das Nações Unidas. A crítica mais severa para o prolongamento da missão, surgiu da parte da Rússia, que já tinha aumentado no ano passado os seus compromissos bilaterais no país, com o fornecimento de armas, treino de soldados e protecção da Presidência.
A resolução aprovada sublinha “a necessidade de fortalecer a coordenação de todos os esforços e iniciativas sob a liderança da União Africana”. O texto reconhece, também, o papel da Rússia na formação das forças de segurança da RCA.
A República Centro Africana caiu no caos e na violência em 2013, depois do derrube do ex-Presidente François Bozizé por vários grupos juntos na designada Séléka (que significa coligação na língua franca local), o que suscitou a oposição de outras milícias, agrupadas sob a designação anti-Balaka.


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