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Militares aceitam eleições num prazo de três meses

Victor Carvalho

O vice-presidente do Conselho Militar de Transição, Mohamed Hamdan Daglo, surpreendeu tudo e todos ao dizer, em Cartum, que a junta não se opõe à realização de eleições antecipadas dentro de três meses, mas sublinhou que cabe ao povo decidir e não à oposição se esse é mesmo o melhor caminho para o país.

Vice-presidente do Conselho Militar de Transição do Sudão, Mohamed Hamdan Daglo
Fotografia: DR

“As eleições são para eleger um Governo, a ser escolhido pelo povo, e não por essas pessoas”, disse referindo-se aos membros da Aliança pela Liberdade e Mudança (ALC, oposição) que têm liderado os protestos que desde quinta-feira voltaram a encher as principais ruas do país.
Falando à Polícia na Faculdade de Direito e Ciências Policiais em Cartum, aquele responsável sublinhou que a composição do Governo deve basear-se na percentagem de representantes eleitos do partido e por cada um dos concorrentes.
O oficial-general sudanês, acusou a ALC de querer excluir o Exército e as forças regulares da cena política.
Neste momento, as negociações entre os militares e a oposição evoluíram para um beco sem saída por causa das divergências sobre a composição e a liderança do futuro Conselho Soberano.
Esta semana, os trabalhadores sudaneses cumpriram dois dias de greve, convocada por diversos sindicatos e associações. Esta forma de protesto contra o actual poder militar, que teve uma forte adesão popular, ficou a dever-se, precisamente, ao fracasso das negociações que pretendem a transferência do poder para os civis.

Militares encerram estação de televisão
Milhares de sudaneses voltaram às ruas na quinta-feira para reclamar a transição do poder militar para os civis. Nesse mesmo dia, as autoridades militares ordenaram o encerramento do canal televisivo, Al-Jazeera.
A decisão inclui também o confisco dos passes de trabalho dos correspondentes e do pessoal da rede da Al-Jazeera, supostamente pelo facto de o canal divulgar “falsas notícias” relacionadas com as manifestações e com o processo negocial entre militares e civis.
Depois de pedirem ajuda militar contra o Presidente Omar al-Bachir, derrubado a 11 de Abril, os movimentos civis que lideram as manifestações exigem agora a retirada dos generais que tomaram o poder.
Num comunicado publicado na quinta-feira à tarde, o Conselho Militar de Transição ameaçou “agir consoante a lei para proteger os cidadãos, propriedades e controlar actos anárquicos.”
“Perante os desenvolvimentos que ameaçam a segurança pública, as forças da ordem vão agir consoante a lei para garantir a segurança dos cidadãos e controlar os actos anárquicos”, advertem os militares.
As negociações entre o Conselho Militar de Transição e a ALC foram suspensas no dia 21 de Maio por causa das contínuas divergências, muitas delas criadas por exigências de última hora impostas por ambas as partes.
Tanto os militares como os civis pretendem tomar a direcção do país e obter a maioria dos assentos e a liderança de um futuro Conselho Soberano, que vai assegurar a transição política nos próximos três anos.
O chefe do Conselho Militar no poder, general Abdel Fattah al-Burhane, está desde quinta-feira na Arábia Saudita, para participar em vários encontros bilaterais com dirigentes dos países árabes.
Nesses encontros, o general Abdel Fattah al-Burhane tentará obter apoios logísticos e políticos necessários para ganhar uma posição de maior força perante os movimentos civis.
Um dos aliados dos militares sudaneses é o Presidente egípcio, Abdel al-Sisi que a nível da Liga Árabe exerceu a pressão necessária para que a visita à Arábia Saudita fosse possível.

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