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Militares lançam gás lacrimogéneo para evitar saída de venezuelanos

Militares venezuelanos lançaram ontem gás lacrimogéneo contra os milhares de compatriotas que tentavam passar a fronteira para a Colômbia para irem trabalhar, segundo agências internacionais de notícias.

Exército venezuelano reforça controlo das fronteiras com a Colômbia e Brasil devido à crise
Fotografia: DR

Um enviado especial da Reuters disse ter presenciado a situação em primeira mão, o que foi confirmado pela AFP.
O lançamento do gás lacrimogéneo teve lugar na cidade de Urena na fronteira entre a Venezuela e a Colômbia.
Ontem foi a data limite dada por Juan Guaidó para a entrada de ajuda humanitária no país que se encontra actualmente a viver uma crise económica, financeira, social e política grave.
O Presidente Nicolás Maduro mandou encerrar as fronteiras, primeiro com o Brasil, e depois com a Colômbia e denunciou que a entrega de alimentos e medicamentos é apenas uma desculpa para que os Estados Unidos da América levem a cabo uma intervenção militar no país.
A situação de incerteza mantém-se, assim, na Venezuela. Se Maduro garante que não entrará ajuda humanitária oriunda dos Estados Unidos no país, Juan Guaidó - que foi reconhecido como Presidente interino por 50 países - assegura que a mesma chegará ao país por “ar, mar e terra”.
Enquanto isso, pelo menos quatro membros da Guarda Nacional Bolivariana venezuelana desertaram ontem na fronteira entre a Venezuela e a Colômbia, e pediram a protecção das autoridades na cidade colombiana de Cúcuta, revelaram fontes colombianas.
“Três membros da guarda venezuelana acabaram de desertar da ditadura de Nicolás Maduro na Ponte Internacional Simón Bolívar e solicitaram ajuda da Migração da Colômbia”, anunciou o serviço de estrangeiros colombiano numa curta mensagem enviada à imprensa.
Mais tarde, a Migração da Colômbia acrescentou que um sargento venezuelano também desertou das fileiras na Ponte Francisco de Paula Santander.
O incidente teve lugar no dia em que o Presidente colombiano, Iván Duque, decidiu levar ajuda humanitária à Venezuela, juntamente Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional e autoproclamado Presidente interino do país.
Juan Guaidó fez a sua primeira aparição internacional na região de Cúcuta na sexta-feira, durante o concerto “Venezuela Live Aid”, organizado pelo bilionário Richard Branson para apoiar a entrada de ajuda humanitária na Venezuela.
A crise política na Venezuela agravou-se em 23 de Janeiro, quando Juan Guaidó se autoproclamou Presidente interino da República e declarou que assumia os poderes executivos do Presidente Nicolás Maduro.
Guaidó, 35 anos, contou de imediato com o apoio dos Estados Unidos e prometeu formar um Governo de transição e organizar eleições livres.
Nicolás Maduro, 56 anos, no poder desde 2013, recusou o desafio de Guaidó e denunciou a iniciativa do presidente do parlamento como uma tentativa de golpe de Estado liderada pelos Estados Unidos.
A maioria dos países da União Europeia, incluindo Portugal, reconheceram Juan Guaidó como Presidente interino encarregado de organizar eleições livres e transparentes.
A repressão dos protestos antigovernamentais desde 23 de Janeiro provocou já dezenas de mortos, de acordo com várias organizações não-governamentais.
Esta crise política soma-se a uma grave crise económica e social que levou cerca de 3,4 milhões de pessoas a fugirem do país desde 2015, segundo dados da ONU.
Em 2016, a população da Venezuela era de aproximadamente 31,7 milhões de habitantes.

Embaixador de Maduro nega legitimidade a Juan Guaidó

O embaixador da Venezuela em Portugal, Lucas Rincón, afirmou ontem que Juan Guaidó, autoproclamado Presidente interino no país, “não é nenhum presidente”, mas garante que “respeita” e tem “boa relação” com o Governo português.
“Guaidó não é nenhum Presidente para mim, temos apenas um Presidente, que venceu com mais de 6.248.000 votos. O senhor Guaidó quantos votos teve? Quando concorreu para Presidente? Em que eleições? Foi eleito, com cerca de 90 mil votos, para ser deputado por um círculo eleitoral, em que ficou em segundo”, disse Lucas Rincón em declarações à agência Lusa, depois de questionado sobre o facto de Guaidó ter nomeado um outro embaixador para Portugal.
Lucas Rincón, que esteve presente na iniciativa “Pela Paz! Solidariedade com a Revolução Bolivariana”, que decorreu em Lisboa, defendeu que Nicolás Maduro é o Presidente legítimo da Venezuela.
“O nosso Presidente legítimo é Nicolás Maduro, que ganhou com mais de 67 por cento. Não existe nada que discutir, ele (Guaidó) pode falar, falar, falar... Ele não é dono de nada, é presidente do quê?”, questionou.
O embaixador da Venezuela em Portugal recusou falar sobre as tomadas de posição do Governo português, adiantando, contudo, que mantém boas relações com o Executivo.
“Não quero falar da política interna de Portugal, porque sou respeitoso. Posso dizer que respeito os assuntos internos de Portugal e de qualquer outro país. Respeito tudo o que venha do Governo, tenho muito boa relação com o Governo e os seus governantes e tenho muito apreço, carinho e respeito pelo ministro dos Negócios Estrangeiros”, frisou.
A iniciativa “Pela Paz! Solidariedade com a Revolução Bolivariana”, que juntou centenas de pessoas, teve várias organizações na sua promoção, contando com intervenções de Ilda Figueiredo, presidente do Conselho Português pela Paz e Cooperação, de Augusto Praça, membro da Comissão Executiva da CGTP, de Mercedes Martinez, embaixadora da República de Cuba, e também Lucas Rincón.
“Estas iniciativas são uma defesa do povo venezuelano, da justiça e da paz, que é o que queremos. Não estamos a fazer nada de mal, estamos a cumprir tudo como se deve fazer e está a ser cometida uma grande injustiça”, afirmou Lucas Rincón.
O autoproclamado Presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó, nomeou na terça-feira José Rafael Cotte para o cargo de embaixador da Venezuela em Lisboa.
O Governo português aguarda que a Assembleia Nacional venezuelana comunique formalmente a intenção de alterar o representante diplomático em Portugal para depois tomar uma decisão, segundo o ministro dos Negócios Estrangeiros, Santos Silva.

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