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Mnangagwa é cabeça de lista

Victor Carvalho

A ZANU-PF reuniu-se nos últimos dois dias em congresso extraordinário designando Emmerson Mnangagwa como seu cabeça de lista para as eleições gerais de 2018. O actual presidente interino do Zimbabwe foi, igualmente, confirmado como novo líder do partido.

Presidente zimbabweano anuncia o começo de uma nova era quando fala na necessidade de se "enterrar o passado"
Fotografia: Kim Sengupta | Harare


A ZANU-PF esteve reunida em Harare num congresso extraordinário, que terminou ontem e que veio a confirmar Emmerson Mnangagwa como homem forte do partido, passando também a ser o novo primeiro secretário (equivalente em Angola a presidente) e cabeça de lista para as eleições que deverão realizar-se em 2018.
Num ambiente que pretendeu assinalar o início de uma nova era, depois da demissão apresentada por Robert Mugabe, os congressistas depositaram o seu voto unânime para que Emmerson Mnangagwa passe a estar acima de qualquer possibilidade de boicote interno.
No seu discurso de posse como novo líder do partido, Mnangagwa sublinhou que é necessário “enterrar o passado” e virar os olhos para o futuro.
“A partir de agora temos que deixar para trás a prática de uma política tóxica e apostar toda a nossa inteligência no que fazer para reparar o partido e o país”, disse aquele que vai ser em 2018 o candidato da ZANU-PF para o cargo de Presidente da República do Zimbabwe.
Este congresso, além de eleger Emmerson Mnangagwa acabou de vez com a influência que o chamado G40 tinha no seio do partido, muito por força das posições que estavam a ser assumidas por Grace Mugabe. “A partir de agora a ZANU-PF passa a ser um corpo único, sem grupos ou grupinhos. Vamos trabalhar todos juntos para o progresso e a evolução do partido”, sublinhou Emmerson Mnangagwa.
De facto, o grupo G40 (Geração 40), que era liderado por Grace Mugabe, sofreu neste congresso um já esperado rude golpe com o afastamento de todos os seus membros de lugares de influência no comando dos destinos do partido.
Saviour Kasekwere, por exemplo, que nos anteriores congressos usava o dinheiro do partido para conquistar apoios para as propostas de Grace Mugabe agora nem sequer participou, encontrando-se em prisão domiciliária a aguardar que lhe seja confirmado o início de um processo judicial por corrupção, branqueamento de capitais e abuso de poder.
Kasekwere, que todos dizem ser o homem que tinha a “chave do cofre” foi várias vezes referenciado durante este congresso de modo altamente negativo. O seu nome só foi  aplaudido por ocasião da aprovação da proposta que confirmou a sua expulsão de militante do partido.
Além de indicar Emmerson Mnangagwa para novo líder do partido e consequente cabeça de lista para as eleições de 2018, este congresso elegeu também o novo comité central num processo já totalmente liderado pelo novo homem-forte da ZANU-PF mas com o apoio unânime de todos os congressistas.

Luta contra as sanções
Depois de confirmado como líder do partido e cabeça de lista às eleições de 2018, Emmerson Mnangagwa tem agora pela frente uma outra luta no sentido de anular as sanções económicas e políticas que o ocidente impôs ao Zimbabwe.
Foi a pensar nisso que o próprio Mnangagwa disse que o seu grande objectivo ia no sentido de até Julho de 2018, altura em que se deverão realizar as próximas eleições, o problema das sanções já estar resolvido.
Emmerson Mnangagwa tem a noção de que a recuperação económica do seu país só será possível com o levantamento das sanções e, por isso mesmo, têm sido vários os “recados” endereçados a Washington e Bruxelas.
Mas enviar “recados” pode não ser o suficiente para que o problema se resolva. Recentemente, Donald Trump veio a público dizer que só aceitará levantar as sanções depois da nova liderança política do Zimbabwe apresentar um plano de recuperação devidamente estruturado e baseado em possibilidades reais, sem qualquer tipo de pressuposto político.
A mesma resposta chegou a Harare proveniente de Bruxelas, onde a opinião generalizada é a que das palavras de Emmerson Mnangawa aos actos ainda vai uma longa distância que precisa de tempo e de acções muito concretas para que possa ser percorrida.
De facto, sete meses não deve dar tempo a que o novo governo zimbabweano, ainda por cima empenhado na preparação das eleições, para convencer o ocidente de que os seus planos para a recuperação económica do Zimbabwe são exequíveis.
Isso faz com que o próprio ocidente continue a ter um forte poder de pressão sobre os projectos que o Zimbabwe pretende implantar para a sua recuperação, numa espécie de “chantagem política”que Robert Mugabe nunca aceitou.
Entretanto, continua em vigor o prazo que Emmerson Mnangagwa há um mês deu para que os zimbabweanos possam proceder, sem problemas judiciais, ao repatriamento dos seus capitais ilegalmente enviados para o estrangeiro.
Até agora, quando faltam dois meses para esse prazo terminar, não existe qualquer informação sobre o tipo de adesão que essa decisão do presidente Mnangagwa está a ter. Enquanto isso, é aguardado com expectativa a divulgação da proposta sobre o Orçamento Geral de Estado que deverá ser aprovado antes do final do ano para que possa entrar em execução nos primeiros dias de 2018.
Neste documento terá que estar respaldada toda a estratégia económica do governo do Zimbabwe, um dado fundamental para que a oposição política e o próprio ocidente possam  aferir da viabilidade das propostas para depois agir em consonância, tanto do ponto de vista político (oposição) como de um eventual abrandamento das sanções (ocidente).

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