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Morreu Mubarak, o “Último Faraó”

O ex-Presidente do Egipto Hosni Mubarak morreu ontem num hospital no Cairo, aos 91 anos, revelou a cadeia de televisão Aljazeera, citando uma fonte familiar. Mubarak, que há dois dias tinha visto dois dos seus filhos serem ilibados de acusações que se prendiam com a má utilização dos dinheiros públicos, estava internado há duas semanas, numa unidade hospitalar na capital do Egipto, depois de ter sido vítima de um segundo AVC.

Hosni Mubarak estava internado há um mês nos cuidados intensivos na sequência de uma operação
Fotografia: DR

Mubarak governou o Egipto por mais de 30 anos, tendo sido derrubado em Fevereiro de 2011 na sequência de uma revolta popular, no contexto da chamada “Primavera Árabe”, altura em que foi acusado de ter usado as forças de segurança para reprimir os manifestantes.
Depois de ter sido derrubado, Hosni Mubarak foi julgado e condenado a prisão perpétua, por ter sido considerado culpado da morte de 850 pessoas nos confrontos entre a polícia e os manifestantes. Em 2017, aquele que era conhecido como o último “faraó” do Egipto, foi libertado, tendo sido ilibado da maior parte das acusações.

“Primavera Árabe”
Reeleito quatro vezes como Presidente do Egipto, Hosni Mubarak cedeu à pressão das manifestações da Primavera Árabe em Fevereiro de 2011, abandonando o poder. O seu sucessor, Mohamed Morsi, também acabou por ser afastado do poder em 2013, num golpe militar.
A queda de Mubarak abriu caminho às primeiras eleições livres no Egipto, que levariam ao poder o islamista Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana. Este acabaria por ser deposto em 2013 pelo general Abdel Fattah al-Sisi, que se mantém no poder no Cairo desde então. Organizações e activistas de direitos humanos têm denunciado a crescente repressão no Egipto sob ordens directa de al-Sisi.
“De certeza que a sua morte é algo que vai fazer o povo relembrar-se da situação no Egipto, bem como do legado que deixou: um que permitiu ao regime militar continuar a governar”, disse o correspondente da Al-Jazeera Jamal al-Sayyal.
A Presidência egípcia reagiu à morte de Mubarak lamentando a morte do “líder militar e herói de guerra” e garantindo que se responsabilizará pela organização de um funeral “condigno com o pape que desempenhou na história do país”.
Os anos de Mubarak no poder foram criticados pela existência de casos de corrupção e falta de capacidade para combater a pobreza no país. Os últimos anos do antigo Presidente do Egipto foram passados na sua mansão, no bairro de Heliopolis, no Cairo. Antes de 2017, estava detido num hospital devido a doença prolongada.
A 1 de Fevereiro de 2011, dez dias antes da queda do seu regime pela força dos protestos da praça Tahrir, Hosni Mubarak afirmou num discurso à nação que tencionava morrer no Egipto.
Casado com Suzanne Mubarak, tinha dois filhos, Alaa e Gamal Mubarak. Este último foi, durante muito tempo, falado como o mais provável sucessor do pai na liderança dos destinos do Egipto.

De Menofya à Presidência do Egipto

Nascido numa pequena aldeia da província de Menofya, no Delta do Nilo, em 1928, Mubarak formou-se aos 21 anos na Academia Militar Egípcia. Nos anos 50, começou a trabalhar como instrutor de voo na Força Aérea, onde conquistaria um alto cargo, duas décadas mais tarde.
Em 1975, Mubarak tornou-se Vice-Presidente do Egipto e, em Outubro de 1981, ascendeu ao mais alto cargo político do país, sucedendo ao Presidente Anwar el Sadat, assassinado num desfile militar.
Já chefe do Estado-maior da Força Aérea durante a Guerra do Yom Kippur, em 1973, Mubarak tornou-se numa figura de destaque, devido ao papel da aviação egípcia no conflito. Em 1974, foi promovido a marechal. Um ano depois, seria escolhido para a vice-presidência do país.
O seu Governo foi marcado por progressos nas relações com os países árabes e pelo arrefecimento das relações com Israel, especialmente após a invasão israelita do Líbano, em 1982. Mubarak reafirmou o tratado de paz com Israel, em 1979, ao abrigo dos acordos de Camp David, e cultivou boas relações com os Estados Unidos, do qual chegou a ser o principal aliado na região.
Durante a denominada “Guerra do Golfo, posicionou-se ao lado dos EUA, contra as intenções expansionistas do Iraque de Saddam Hussein, e, durante a Guerra do Iraque, criticou a intervenção em 2002, afirmando: “Tememos que um estado de desordem e caos prevaleça na região”.
Mubarak desempenhou também um papel importante na mediação do acordo entre Israel e a Organização de Libertação da Palestina (OLP), assinado em 1993. Em 2004, afirmou, em entrevista ao jornal francês "Le Monde", que considera existir um "ódio sem precedentes" contra os Estados Unidos nos países árabes (entre os quais se inclui o Egipto), motivado pela protecção económica e militar concedida pelo Governo norte-americano a Israel.

A contas com a Justiça
Em Março de 2017, o antigo Presidente egípcio, que estava detido no Hospital Militar de Maadi, nos arredores do Cairo, foi libertado e transportado para a sua casa, em Heliópolis.
De acordo com informações na altura divulgadas pelo seu advogado, o ex-Presidente continuava a ter uma condenação definitiva, a três anos de prisão, por apropriação ilegal de fundos públicos, mas que, entretanto, já havia cumprido.
Nesse outro caso de corrupção, Mubarak tinha sido também condenado por um tribunal egípcio, por desviar milhões de dólares do Estado para uso pessoal. Os seus filhos Gamal e Alaa também foram condenados no mesmo caso, mas a quatro anos de prisão, tendo sido libertados dois antes da morte do pai.

Uma fortuna espalhada pelo mundo

A família do antigo Presidente do Egipto Hosni Mubarak tem uma fortuna espalhada pelo mundo, que, segundo a ABC News, cadeia de televisão norte-americana, está calculada entre 50 e 70 biliões de dólares.
O Presidente teria construído a sua fortuna a partir de contratos das Forças Armadas, na época em que era oficial da Aeronáutica. Quando se tornou chefe de Governo, em 1981, começou a diversificar o património.
De acordo com o jornal The Guardian, de Londres, Mubarak e a família têm capitais em bancos britânicos e suíços e fortes investimentos imobiliários em grandes metrópoles como Londres, Nova Iorque e Los Angeles, além de áreas junto ao Mar Vermelho.
A população jovem revoltou-se em redor da Primavera Árabe, depois de sofrer durante anos os efeitos de uma elevada taxa de desemprego e situação de pobreza, enquanto Mubarak acumulava riqueza, com desvio de recursos públicos, afirma a imprensa internacional.
Após deixar o poder, em 2011, Mubarak, que aparentava estar debilitado fisicamente, compareceu a todas as sessões do julgamento, após sofrer um ataque cardíaco durante os interrogatórios judiciais.
Em Novembro de 2014, o Tribunal Penal de Cairo também cancelou as acusações de corrupção. Em 13 de Janeiro de 2015, o Tribunal de Cassação do Egipto derrubou a última condenação remanescente contra e ordenou um novo julgamento.
Esse novo julgamento, sob acusações de corrupção, levou a uma condenação e a uma sentença de três anos de prisão, em Maio de 2015, não tendo ficado claro se a sentença levaria em conta o tempo já cumprido, visto que Mubarak já passara mais do que estes três anos de prisão e, por isso, potencialmente, não teria de servir a qualquer tempo adicional na cadeia.
Partidários de Mubarak vaiaram a decisão, quando ela foi anunciada num tribunal do Cairo. A sentença também incluiu uma multa de 16,3 milhões de dólares e exigiu o retorno de 2,7 milhões de dólares desviados. Esses valores foram previamente pagos, depois do primeiro julgamento.

 

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